Por Geraldo de Majella*
Há cinquenta anos, em 25 de outubro de 1975, o jornalista Vladimir Herzog foi assassinado nas dependências do DOI-CODI, em São Paulo. Apresentou-se voluntariamente para prestar depoimento sobre suas supostas ligações com o Partido Comunista Brasileiro e, horas depois, a ditadura anunciou sua morte, encenada como suicídio. A farsa não resistiu à verdade.
A imagem do corpo pendurado por um cinto, com os pés tocando o chão, tornou-se símbolo do cinismo da ditadura militar e da brutalidade institucionalizada. Herzog não foi o primeiro, nem o último, a morrer sob tortura — mas sua morte teve um efeito profundo na estrutura e na imagem do regime. O crime cometido contra ele rompeu o pacto de silêncio que sustentava a repressão.
A missa ecumênica na Catedral da Sé, celebrada por dom Paulo Evaristo Arns, o rabino Henry Sobel e o reverendo Jaime Wright, reuniu mais de 8 mil pessoas em um ato pacífico e silencioso. Foi o primeiro grande gesto público de enfrentamento ao regime desde o AI-5. A ditadura entendeu o recado: o país começava a mudar.
Cinco décadas depois, o caso Herzog permanece como uma ferida aberta — mas também como um farol. Num Brasil em que o negacionismo e a saudade do autoritarismo voltam a frequentar o discurso público, lembrar Vladimir Herzog cada vez mais adquire caráter político permanente para a memória nacional. É reafirmar que a democracia não se defende apenas com eleições, mas com memória, verdade e justiça.
Em março de 2025, o Estado brasileiro reconheceu oficialmente a anistia política post mortem de Vladimir Herzog e pediu desculpas à sua família. O gesto, embora tardio, é carregado de significado: reafirma a responsabilidade do Estado e o dever de proteger a dignidade humana acima de qualquer poder.
Mas é preciso ir além das cerimônias. O Brasil ainda deve às vítimas da ditadura a identificação completa dos responsáveis, a abertura integral dos arquivos e a punição exemplar dos torturadores que permanecem impunes. O esquecimento não é neutro: é a forma mais perversa de cumplicidade.
Herzog acreditava no jornalismo como instrumento de libertação, não de medo. Morreu por isso — e é justamente por isso que seu nome ainda incomoda, meio século depois. A cada tentativa de reescrever a história, Herzog nos devolve à realidade: a mentira institucionalizada pela ditadura não resistiu e foi desmascarada; a verdade não tardou a romper o silêncio e a emergir.
O corpo de Vlado desmentiu a ditadura. Sua memória desmente, até hoje, aqueles que insistem em negar o terror de Estado.
Lembrá-lo é escolher o lado da verdade — o único em que a liberdade pode respirar.
Vlado, presente!
*Historiador e jornalista







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