Filha de pais judeus russos que fugiram dos pogroms e da intolerância na Europa Oriental, Clara Charf nasceu em 1925, em Maceió (AL), numa família pobre e trabalhadora. Viveu ali sua infância e parte da juventude até os 17 para 18 anos, quando se mudou com os pais para Recife (PE). Desde cedo, sonhava com liberdade. “Eu queria voar, ser aeromoça, ser médica, trabalhar”, recordaria décadas depois, resumindo em uma frase o impulso que a levou a enfrentar o mundo e a opressão.
Em Recife, durante a Segunda Guerra Mundial, Clara trabalhou como tradutora e copista em inglês na base naval americana, utilizando seu conhecimento do idioma e da datilografia. O cenário político era intenso: com o fim da guerra e a queda do nazismo, o Brasil ainda vivia sob o Estado Novo de Getúlio Vargas. Em 1945, um episódio marcou profundamente sua vida: a chegada de Anita Leocádia Prestes, filha de Luís Carlos Prestes e Olga Benário, ao Brasil.
Nascida em um campo de concentração e resgatada do México pela avó, Anita comoveu toda a população de Recife. “Foi o grande ato democrático ocorrido naquela época. E eu despertei para a luta política a partir daí”, relatou Clara.
A jovem começou então a militar em movimentos populares e de mulheres, ainda incipientes naquele período. Seu engajamento a levou ao Partido Comunista Brasileiro (PCB), que vivia um momento de reorganização após a guerra. Clara se mudou para o Rio de Janeiro e realizou um de seus sonhos: tornou-se aeromoça, profissão rara para mulheres naquele tempo. Logo depois, suas habilidades como taquígrafa e estenógrafa a levaram a trabalhar como assessora da bancada comunista na Assembleia Nacional Constituinte de 1946, composta por 14 deputados e um senador, Luiz Carlos Prestes.
Foi nesse ambiente político que Clara conheceu Carlos Marighella, então deputado pelo PCB. O convívio cotidiano se transformou em afeto e militância compartilhada, dando origem a um dos casais mais simbólicos da esquerda brasileira. “Começamos a namorar”, contou Clara, com simplicidade, sobre o início de uma relação construída na luta política.
A bancada comunista durou pouco. Em 1948, os mandatos foram cassados, o PCB voltou à ilegalidade e a liberdade recém-conquistada desapareceu. “Durou de 1945 a 1947. Aí, começou a minha vida clandestina”, diria Clara.
Durante os anos seguintes, enfrentou perseguições, prisões e clandestinidade. Um dos episódios mais marcantes ocorreu na década de 1950, em Campinas (SP), onde ficou presa por quatro meses. Havia ido ministrar um curso para ferroviários e levava uma mala cheia de livros marxistas e uma bandeira sindical japonesa. Ao ser abordada por guardas municipais, foi detida e, para despistar, apresentou-se como “Marta Santos”. Mesmo assim, tornou-se notícia em toda a cidade. “Toda vez que me perguntavam, a resposta era a mesma. E toda a cidade ficou sabendo de mim — deixavam roupas e alimentos na delegacia”, relembrou.
A pressão da imprensa e a atuação de um advogado do partido garantiram sua libertação após três pedidos de habeas corpus. Ainda assim, Clara se negou a deixar a prisão sozinha. “Só vou se for com o presidente da associação de jornalistas da cidade”, exigiu. E foi ele, Bruno Barreto, quem a acolheu em casa até que pudesse voltar a conviver na clandestinidade com o Partido.
A partir dali, sua vida tornou-se sinônimo de resistência. Companheira de Marighella até o assassinato dele pela ditadura, em 1969, Clara viveu a repressão com a mesma coragem com que sonhara voar. Transformou a dor em luta e nunca abandonou os ideais que a moveram desde a juventude em Maceió.
Hoje, a trajetória de Clara Charf é lembrada não apenas como a de uma mulher que foi companheira de um líder revolucionário, mas como uma militante que atravessou o século sem perder a esperança, unindo a sensibilidade de quem queria liberdade ao compromisso de quem a fez existir na prática — com palavras, coragem e história.






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