Por Mácleim Carneiro
O Silêncio das Tartarugas: e outras crônicas para desacelerar (Hayton Rocha)
A crônica é um gênero literário muito interessante! Entre outros predicados, ela é essencialmente personalística, e não estou me referindo unicamente ao estilo de cada autor. Essa característica imprime personalidade autoral, evidentemente, porém, a crônica tem algo que vai além e diz muito mais sobre quem a escreve do que o que foi escrito. É como alguns instrumentos e seus músicos geniais, fica fácil saber quem é quem pela embocadura e expressão do saxofonista, ou pela mão direita do violonista…
Recentemente, ao tecer comentários sobre o livro de crônicas do Ricardo Mota, ‘Da Buarque de Macedo ao dia seguinte’, escrevi que entendia o Brasil como um país ainda tolerável, porque somos muito bem servidos de bons cronistas. Se eu fosse citar alguns, mesmo que fosse só os geniais, iria cair numa falha de memória imensa. Hayton Rocha, autor de ‘O Silêncio das Tartarugas’ (editora Astra), foi uma daquelas boas surpresas, com absoluta condição de ratificar o meu ponto de vista.
Ler, num curto espaço de tempo, praticamente num fôlego só, um cronista após o outro, clareou-me a percepção sobre essa questão personalística, que envolve a crônica e seus autores. Então, não foi difícil identificar o quanto foi perceptível da personalidade de um e do outro. Embora, a variedade de assuntos seja imensa e infinita, como escreveu o genial e inesquecível Luís Fernando Veríssimo: “A principal matéria-prima para a crônica são as relações humanas. O modo como as pessoas se amam, se enganam, se aproximam ou se afastam num ambiente social definido. Ou qualquer outra coisa”.
Em cada um dos cinco temas (Silêncio e sonhos; Memória e raízes; Encontros e ironias; Crítica ao convívio social e Visões e reflexões), que o autor apresenta em ‘O silêncio das tartarugas’, o leitor irá encontrar pitadas de humor, reflexões a partir do seu empirismo profissional, 10 excelentes conselhos para uma vida saudável e tranquila, dados por uma operária do sexo aposentada, uma dúzia de arquétipos que servem como carapuças a qualquer um e, sobretudo, muitas citações musicais, que arejam as crônicas e contextualizam épocas e conceitos, como só a boa música brasileira sempre foi capaz de ofertar. Aliás, como escreveu William Shakespeare: “A arte é o espelho e a crônica da sua época”.
Rubens Braga foi perfeito ao brincar com o conceito da palavra ‘crônica’ e o seu duplo sentido: para doenças e para o gênero literário. Escreveu ele: “Se não é aguda, é crônica”. Neste caso, ‘O Silencio das Tartarugas’ é crônica e das boas, sim senhor!
No +, MÚSICABOAEMSUAVIDA!!!!🎶🎶🎶







0 comentários