O influenciador de direita e vereador pelo Partido Liberal (PL) em Erechim (RS), Rony Gabriel, afirmou na terça-feira (6) que recebeu uma proposta para produzir e divulgar conteúdos nas redes sociais em defesa do Banco Master e com ataques diretos ao Banco Central (BC). A instituição financeira foi colocada em liquidação no fim de 2025 por decisão da autoridade monetária.
Em vídeo publicado no Instagram, Rony relatou que a abordagem ocorreu em 20 de dezembro do ano passado. Segundo ele, uma empresa entrou em contato com seu assessor afirmando ser responsável pelo “gerenciamento de reputação de um grande executivo”. O interlocutor teria informado que estava contratando influenciadores para fortalecer uma estratégia de comunicação nas redes.
De acordo com o vereador, a proposta previa o pagamento de uma “boa quantia em dinheiro”, que ele diz ter recusado. Ainda assim, afirmou acreditar que outros influenciadores aceitaram a oferta e passaram a integrar a campanha. “Era claramente um trabalho para atacar o Banco Central e limpar a imagem do Master”, afirmou no vídeo.
Rony Gabriel disse ainda que a ação tinha como objetivo responsabilizar o Banco Central pela grave crise de liquidez do Banco Master e transmitir a ideia de que não houve irregularidades na instituição comandada por Daniel Vorcaro. O trabalho exigiria a assinatura de um contrato de confidencialidade, com multa de R$ 800 mil em caso de descumprimento — documento que ele exibiu na gravação.
Além do vereador gaúcho, outros influenciadores com grande alcance nas redes sociais teriam recebido propostas semelhantes, sendo convocados a participar de um ataque coordenado para descredibilizar o Banco Central e defender o banco liquidado.
A denúncia foi revelada em primeira mão pela jornalista Malu Gaspar, do jornal O Globo. Segundo ela, uma reportagem do Metrópoles foi usada como exemplo de conteúdo que deveria ser amplamente difundido, “sempre lançando dúvidas sobre a ação do Banco Central que levou à liquidação do Master”.
A Folha de S. Paulo também abordou o caso em reportagem dos jornalistas Adriana Fernandes e Lucas Marchesini, apontando que ao menos 46 perfis na internet publicaram ataques ao BC e a investigadores envolvidos no caso.
Entre os principais alvos está o ex-diretor de Organização do Sistema Financeiro e de Resolução do Banco Central, Renato Gomes. O setor que ele comandava recomendou o veto à compra do BRB pelo Master e forneceu informações relevantes ao Ministério Público Federal. O presidente do BC, Gabriel Galípolo, diretores da autarquia e até familiares também passaram a ser atacados, assim como banqueiros e entidades do setor financeiro que divulgaram notas de apoio à decisão técnica de liquidar o banco.
Diante do que classificou como um “cenário gravoso de instabilidade”, a Federação Brasileira dos Bancos (Febraban) e outras entidades divulgaram, em 27 de dezembro, uma nota alertando para o caráter incomum dos ataques. “A Febraban está analisando se as postagens identificadas naquele período caracterizariam ou não eventual ataque coordenado à entidade”, informou o texto, que também registrou redução posterior no volume das publicações.
Os ataques ocorrem em meio a movimentos considerados atípicos no Caso Master, envolvendo o Supremo Tribunal Federal e o Tribunal de Contas da União (TCU). No início de dezembro, o ministro Dias Toffoli, relator do processo no STF, determinou sigilo máximo às investigações contra executivos do banco poucos dias após viajar em um jatinho particular para a final da Libertadores, em Lima, ao lado do advogado Augusto Arruda Botelho, que representa um dos empresários do Master.
Na sequência, o TCU passou a analisar documentos do Banco Central relativos à liquidação. Como revelou a coluna de Amanda Miranda, no ICL Notícias, a iniciativa do relator do caso, ministro Jhonatan de Jesus, é vista por especialistas como inadequada.
Para Luiz Henrique Cadermatori, professor do Programa de Pós-Graduação em Direito da Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC), a situação é inédita. “Nunca aconteceu de um órgão fiscalizador exercer controle sobre outro órgão fiscalizador em poderes independentes”, afirmou. Segundo ele, há um conflito político envolvido: “Os membros do Tribunal de Contas são escolhas políticas. O técnico faz a avaliação, mas o ministro decide. No Banco Central, os cargos são eminentemente técnicos”.
Cadermatori reconhece que há espaço para críticas ao Banco Central, especialmente em relação à manutenção da taxa básica de juros em patamar elevado, mas avalia que a atuação da autarquia no caso Master foi correta. “A liquidação de bancos envolve decisões técnicas. O questionamento no TCU é moral e politicamente discutível”, disse.
Na avaliação de analistas, o volume de recursos envolvidos e a influência de personagens ligados ao Banco Master ajudam a explicar a ofensiva sem precedentes contra o Banco Central justamente no momento em que a autoridade monetária adotou uma decisão considerada tecnicamente consistente.






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