Se você ainda guarda na memória aqueles eventos palacianos em que o presidente ficava postado atrás de uma bancada robusta, protegido por um batalhão de seguranças e a uns vinte metros do cidadão comum — aquele formato em que a única emoção era ver se o assessor do lado direito derrubaria ou não o copo d’água durante o discurso de meia hora —, pode ir esquecendo. O Planalto decidiu que o negócio agora é o “quadradinho”.
Sim, você não leu errado. O nome técnico, batizado pelos próprios assessores, é esse mesmo. A ideia é simples: em vez de palanque, um quadrado. Em vez de discursos lidos em papel timbrado, improviso puro. Em vez de autoridades engravatadas olhando para o nada, um círculo de gente, com o presidente circulando como se estivesse num churrasco de domingo, mas com muito mais câmeras ao redor.
A lógica é a proximidade. Lula, que sempre teve o dom de falar como se estivesse batendo um papo na esquina, resolveu levar isso para o script oficial. Dizem que, desde que assumiu o mandato, ele andava incomodado com aquele engessamento protocolar.
O objetivo é estar mais perto das pessoas, da vida real. E o “quadradinho”, aparentemente, resolveu essa questão: o presidente posa para fotos, entrega o microfone para quem está perto, brinca, ironiza — como fez com Neymar, coitado, que virou o “primeiro convocado home office da história” — e, claro, corre os riscos de quem não usa teleprompter.
Porque, veja bem, o improviso é uma faca de dois gumes. Se, de um lado, rende cortes ótimos para o TikTok e aquela imagem de um presidente “gente como a gente”, de outro, faz a assessoria suar frio. Imagine a cena: o ministro da Comunicação, ali no cantinho, soprando no ouvido: “Fala do Pix, presidente, fala do Pix!”. E Lula, no meio da roda, soltando o verbo. É, como disse um aliado, “falar como jogador de bola”. A câmera acompanha, o povo aplaude e o evento ganha aquele ar de naturalidade que, cá entre nós, é o que todo mundo quer, mas poucos conseguem manter sem tropeçar na própria língua.
A dúvida que paira nos corredores é se esse formato resiste a multidões. É fácil cercar o presidente num hospital ou numa fábrica com um grupo selecionado. Mas bota esse “quadradinho” numa praça pública com dez mil pessoas querendo um aperto de mão: a segurança entra em pânico, a visibilidade vai para o espaço e o que era para ser uma aula de dinamismo pode virar um aperto generalizado.
Mas o governo está animado. Já estão testando em tudo: obras, saúde, educação, visitas a fábricas. A meta é clara: a reeleição passa por essa tal “organização”. Eles querem que a gente sinta que o governo está ali, ao alcance do braço, sem aquela barreira de madeira e verniz que separa quem manda de quem obedece.
Resta saber se, até agosto, quando a convenção oficial der a largada para a campanha, o “quadradinho” vai virar o grande triunfo da proximidade ou se, num desses improvisos mais inspirados, o presidente não vai acabar criando um problema que nem dez ministros e um batalhão de assessores serão capazes de resolver na base do “foi só uma brincadeira”.
Como diria o outro, o perigo de dizer o que se pensa é, justamente, ter de lidar com as consequências do que foi dito. Mas, convenhamos: entre um discurso burocrático e um deslize espontâneo, o brasileiro — e o nosso atual presidente — quase sempre prefere o improviso. Pelo menos rende boas histórias.
A gente passou tanto tempo se esquivando de patada no governo do “Mito” que agora, quando alguém responde a uma pergunta sem antes nos mandar pastar, dá até uma certa estranheza. A gente entra no Palácio com o ombro meio contraído, esperando o sopapo, e de repente o que vem é um “bom dia”. É quase um choque cultural, um desses efeitos colaterais da tal da civilidade que a gente, por um momento, chegou a esquecer que existia.
Antigamente — e não faz tanto tempo assim, se você considerar que a memória do brasileiro é curta, mas o trauma é longo —, o ambiente era um ringue de boxe mal armado. O hoje preso e inominável ex-presidente, de um lado, achava que o microfone do repórter era um artefato explosivo. O repórter, do outro, já entrava em campo com o colete à prova de balas por baixo do paletó. Era uma gritaria só, um show de horrores onde o silêncio era a única coisa que não tinha lugar.
Mas, vejam só que coisa maravilhosa: a maré baixou. Hoje, o repórter consegue fazer a pergunta, acompanhar a agenda e — pasmem — receber uma resposta que não seja um xingamento xulo. O respeito institucional, que tinha ido tirar umas férias longas e sem previsão de volta, resolveu dar o ar da graça outra vez.
Agora, não vá ninguém achar que isso é o paraíso ou que a imprensa virou porta-voz de luxo. A crítica continua lá, afiada como faca de cozinha bem amolada, porque jornalista que se preza não é babá de político. Se o governante escorregar, a imprensa está ali para apontar o tropeço, seja ele quem for. É como dizia a minha avó: “visita e peixe, com três dias fede”. Se o governo começar a cheirar mal, o papel da imprensa é avisar, doa a quem doer.
No fim, a democracia é isso. Ela precisa desse atrito, desse “por que?” constante, desse incômodo que só o jornalismo sabe causar. É o jornalismo que serve de termômetro. Quando a gente consegue perguntar e eles conseguem responder, sem que ninguém saia arranhado do processo, a gente respira aliviado: a engrenagem, finalmente, voltou a girar no lugar certo.
Não é muita coisa, eu sei. Mas, depois do circo que a gente viu, um pouco de normalidade já é um luxo que merece ser comemorado.
Foto de destaque: Brenno Carvalho/Infoglobo





0 comentários