Às 12h28 do dia 25 de janeiro de 2019, o Brasil assistiu a um dos maiores crimes ambientais de sua história. O rompimento da Barragem I da Mina do Córrego do Feijão, da mineradora Vale, em Brumadinho (MG), despejou uma avalanche de rejeitos tóxicos sobre trabalhadores, comunidades e o rio Paraopeba. Foram 272 mortos. Sete anos depois, para quem ficou, a lama ainda não secou.
Helena Taliberti perdeu tudo naquele dia. Os filhos, Luiz e Camila, o pai deles, a nora — grávida do primeiro neto — e a esposa do ex-marido estavam em uma pousada próxima à barragem. Nenhum voltou. “A justiça não foi feita”, resume Helena, hoje presidente do Instituto Camila e Luiz Taliberti, criado para manter viva a memória das vítimas e cobrar responsabilização da mineradora.
Considerado o maior acidente de trabalho já registrado no país, o desastre de Brumadinho escancarou falhas de fiscalização, negligência empresarial e a fragilidade do sistema de responsabilização ambiental no Brasil. Para Helena, os processos criminais seguem lentos e distantes da dor real das famílias. “Sete anos se passaram e a gente sente que não foi feito nada. Falta ouvir as comunidades, falta fiscalização efetiva, falta justiça”, afirma.
Em 2021, a Vale firmou um Acordo Judicial de Reparação com o governo de Minas Gerais e órgãos de Justiça. O documento previa indenizações e ações ambientais. Mas, para quem vive o impacto diário da tragédia, o acordo não deu conta da dimensão do crime. “As pessoas pensam que foi feita reparação, mas não foi. Não está tudo bem”, diz Helena.
O rio Paraopeba, atingido pela lama, é símbolo dessa ferida aberta. “O rio está completamente contaminado. Não tem pesca, não tem água, não tem lavoura, não tem as comunidades que viviam daquilo”, denuncia. Estudos da UFMG confirmam: áreas produtivas desapareceram, solos foram contaminados e a dinâmica dos rios foi alterada de forma profunda.
Mas o impacto não é apenas ambiental. É humano, cotidiano, permanente. “A tragédia só começou no dia 25 de janeiro de 2019. A tragédia é todos os dias”, afirma Helena. “Como você acorda sabendo que não tem mais seu filho? Isso não acaba.”
Além da dor, cresce o medo de repetição. Para Helena, o Brasil não aprendeu com Brumadinho — e pode reviver novas catástrofes. A aprovação de leis que flexibilizam o licenciamento ambiental é vista como um risco concreto. “Como afrouxam as leis sabendo que isso pode matar pessoas? Mariana aconteceu. Brumadinho aconteceu. E agora?”
Segundo ela, o poder econômico da mineração segue falando mais alto. “A Vale precisa ser responsabilizada. Não dá para virar a página. A morte de 272 pessoas não pode ser em vão”, diz. Em Minas Gerais e em outras regiões do país, barragens continuam em níveis críticos, cercadas por comunidades inteiras.
É contra o esquecimento que Helena luta. Todos os anos, no dia 25 de janeiro, o Ato pela Memória ocupa a Avenida Paulista para lembrar as vítimas e denunciar a impunidade. “O esquecimento e a impunidade são a porta para acontecer de novo”, alerta.
O lema do instituto que leva o nome de seus filhos resume essa resistência: “Tentaram nos enterrar, não sabiam que éramos sementes”. Para Helena, memória é um ato político. “A vida precisa estar acima de qualquer coisa. Acima do lucro. Sempre.”
Sete anos depois, a lama não é só rejeito. É ausência, é dor, é um crime ambiental que segue sem punição à altura — e que o Brasil insiste em não encarar de frente.
*Com Agência Pública






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