Por Geraldo de Majella*
O cientista brasileiro Carlos Nobre, uma das principais referências mundiais em climatologia, alerta de forma recorrente que a humanidade já vive uma emergência climática. Suas análises estão alinhadas ao consenso da comunidade científica brasileira e internacional, sustentado por décadas de pesquisas, dados observacionais e modelos climáticos.
Segundo Nobre, a crise climática deixou de ser um risco futuro. Ela já se manifesta no presente por meio do aumento da temperatura média global, da intensificação de eventos extremos — como secas, ondas de calor, enchentes e incêndios florestais — e da crescente instabilidade dos ecossistemas.
Pontos de não retorno e colapso dos biomas
Um dos principais alertas feitos por Carlos Nobre diz respeito aos chamados “pontos de não retorno” ambientais — limites críticos a partir dos quais os ecossistemas perdem a capacidade de regeneração e entram em processos irreversíveis de degradação.
No Brasil, esse risco é particularmente grave em biomas como a Amazônia, o Cerrado, o Pantanal e a Caatinga. A combinação entre mudanças climáticas, desmatamento, queimadas e uso predatório do solo aproxima esses territórios de um colapso ambiental com impactos diretos sobre o clima, a biodiversidade, a produção de alimentos e a disponibilidade de água.
Negação científica e interesses econômicos
Carlos Nobre também chama atenção para a resistência de setores do agronegócio em admitir as evidências científicas da crise climática. Para o cientista, essa negação não é apenas retórica: ela eleva os riscos ambientais ao dificultar a adoção de políticas públicas e práticas produtivas compatíveis com a nova realidade climática.
Ignorar os alertas da ciência, afirma Nobre, acelera processos de degradação que não poderão ser revertidos e compromete, inclusive, a própria base econômica do país.
Desmatamento zero como condição mínima
Outro ponto central de suas falas é que os limites legais atuais para o desmatamento são insuficientes diante da gravidade da crise climática. Segundo Nobre, não basta reduzir o desmatamento: é necessário atingir o desmatamento zero total até 2030..
A interrupção completa da destruição dos biomas é apresentada como condição mínima para evitar o colapso ambiental e preservar funções essenciais, como o regime de chuvas, a regulação da temperatura e o sequestro de carbono.
E Alagoas, o que está sendo feito?
Diante da catástrofe climática que se aproxima, uma questão se impõe: o que o Estado de Alagoas tem planejado para enfrentar essa realidade? Até o momento, não há um debate público consistente nem ações estruturantes à altura dos riscos anunciados pela ciência.
O litoral alagoano segue marcado pela ocupação completamente desordenada, com devastação dos manguezais associada à expansão urbana sem planejamento. Avançam os loteamentos em áreas restritas, inclusive em áreas de proteção ambiental, muitas vezes anunciados para venda como empreendimentos “pé na areia” ao longo de todo o litoral.
Esse modelo de ocupação amplia a vulnerabilidade costeira, compromete ecossistemas fundamentais para a proteção contra eventos extremos e ignora os alertas científicos sobre adaptação e mitigação climática.
Um alerta que exige ação imediata
As falas de Carlos Nobre reforçam que a emergência climática não é uma questão ideológica, mas científica. O tempo para agir é curto, e as decisões tomadas agora definirão as condições de vida das próximas gerações.
Para a comunidade científica, o caminho passa pela redução rápida das emissões de gases de efeito estufa, proteção integral dos biomas, transição energética e revisão profunda dos modelos de produção e ocupação do território. Adiar essas decisões significa aceitar riscos ambientais que podem ultrapassar limites irreversíveis.
*Historiador e jornalista.







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