Por Geraldo de Majella*
Os dados oficiais da eleição presidencial de 2022 em Alagoas ajudam a entender um discurso recorrente nas redes sociais: a ideia de que Maceió teria um eleitorado alinhado à direita e à extrema-direita como se fosse imutável. Esse argumento, repetido de forma orquestrada no ambiente digital, contagia, mas ignora nuances do processo eleitoral e do contexto político mais amplo.
No estado de Alagoas, o resultado foi inequívoco.
No primeiro turno, Lula (PT) obteve 56,50% dos votos válidos, totalizando 474.567 votos, enquanto Jair Bolsonaro (PL) ficou com 36,05%, equivalente a 302.897 votos. A diferença foi de 171.670 votos a favor de Lula, correspondendo a 20,45 pontos percentuais.
No segundo turno, Lula (PT) ampliou sua votação para 58,68%, somando 976.831 votos, contra 41,32% de Bolsonaro (PL), que obteve 687.827 votos. A diferença foi de 289.004 votos a favor de Lula, mantendo uma vantagem expressiva de 17,36 pontos percentuais. O interior do estado foi decisivo para esse resultado, consolidando Alagoas a vantagem do candidato petista.
Em Maceió, capital do estado, o cenário foi distinto, mas ainda assim distante da caricatura de uma cidade “bolsonarista”.
No primeiro turno, Bolsonaro (PL) obteve 49,59% dos votos, totalizando 240.053 votos, enquanto Lula (PT) alcançou 40,43%, equivalente a 195.714 votos. A diferença foi de 44.339 votos a favor de Bolsonaro, correspondendo a 9,16 pontos percentuais. Outros candidatos também tiveram presença relevante, como Simone Tebet (5,34%) e Ciro Gomes (3,21%), evidenciando a fragmentação do eleitorado naquele momento.
No segundo turno, Bolsonaro (PL) ampliou sua vantagem na capital, chegando a 57,18%, totalizando 273.549 votos, contra 42,82% de Lula (204.887 votos). A diferença foi de 68.662 votos a favor de Bolsonaro, correspondendo a 14,36 pontos percentuais.
Esses números mostram que o rótulo de “cidade bolsonarista” atribuído a Maceió decorre menos da análise dos dados e mais da dinâmica das redes sociais, hoje um dos principais campos da batalha político-ideológica. A leitura isolada do resultado da capital, descolada do contexto estadual e regional, alimenta um discurso simplificador e conveniente para a direita e a extrema-direita.
É um chavão afirmar que cada eleição é diferente — e de fato é. Em 2022, Bolsonaro disputava a reeleição, condição que historicamente altera o comportamento do eleitorado. No cenário atual, a correlação de forças é outra: Lula é o presidente em exercício, enquanto Bolsonaro está preso condenado a 27 anos de prisão. Além disso, figuras como JHC e Rodrigo Cunha não atuaram, em Maceió, como coordenadores efetivos da campanha bolsonarista, o que relativiza ainda mais a narrativa construída posteriormente.
Enquanto a direita e a extrema-direita deliram nas redes, nos gabinetes políticos a leitura é mais realista. Os números indicam que Alagoas, assim como os demais estados do Nordeste, continua reconhecendo em Lula uma liderança sólida, com capacidade de ampliar sua influência política e eleitoral.
Os dados estão postos. A interpretação honesta deles desmonta mitos e recoloca o debate no terreno da realidade.
*Historiador e jornalista






Afirmar que Maceió é bolsonarista chega a ser preguiçoso. É uma leitura simplista que serve até para esconder os erros acumulados da esquerda e do próprio MDB na capital