Por Ricardo Ramalho*
A sombra do “não-lugar” se alastra por Maceió de forma avassaladora, perturbando pensamentos e emoções. Corrói identidades, histórias e sentimentos vitais. Os vínculos afetivos entre pessoas e lugares são desprezados, enquanto a racionalidade simplista do uso dos espaços se impõe.
Assim caminha nossa cidade — rica em belezas e convivência humana — em suas ruas, esquinas, becos, praias e mirantes. A transitoriedade dos espaços e o avanço do individualismo apontam para o ameaçador “não-lugar”.
Nesse mergulho social, o meio ambiente cultural é desprezado, apesar de ser tão importante quanto o natural e o artificial. A expansão urbana predatória destrói sinais do humanismo, em franco desmoronamento.
Como imaginar Maceió sem seus coqueirais? Sem as vistas dos mirantes? O esplendor do mar é ameaçado por barreiras visuais e pela poluição luminosa, que impede até a contemplação dos astros noturnos. Árvores que marcaram encontros e histórias sucumbem ao progresso cego.
Da “Cidade Sorriso”, cantada no frevo, restará o quê? Onde estão “os raios dourados do sol no azul imenso do mar”? O cenário onde “o céu toca o chão” se perde entre tapumes, ladeiras e ruídos, enquanto o mar já não se ouve como antes.
A perda da identidade maceioense não se deve apenas à expansão urbana ou ao turismo, mas à forma como esses processos são conduzidos. Poder público e sociedade parecem seduzidos por uma modernidade que corrói riquezas naturais e cênicas. A poluição sonora e o lixo dessa orgia antiecológica invadem praias, calçadas e parques.
Cuidar, preservar e humanizar devem ser princípios de um comportamento social baseado na amizade, na solidariedade e na ética. Acreditar nos sonhos e na poesia é parte essencial da ruptura necessária com essa crise identitária que nos assombra.
Com agradecimentos a Edgar Morin, Marc Augé, Edécio Lopes, Lô Borges e Samuel Rosa.
*Engenheiro agrônomo e conselheiro do Plano Diretor de Maceió.





Parabéns ao Engenheiro Agrônomo, Ricardo Ramalho pelas suas sábias colocações. Não basta os celulares que isolam às pessoas do olho a olho, do abraço, da conversa pessoalmente, sentindo o cheiro à beleza do outro, vem uma ação pública que não prioriza a preservação da natureza, plantar, cuidar do que se têm de belo na nossa cidade,trazendo apenas obras sem vida…
Abraço.