Por Dilson Ferreira*
A qualidade da água de Maceió está se deteriorando? A resposta é sim! Contaminação por nitrato, risco de salinização, ocupação desordenada e centenas de poços privados e clandestinos.
No fim do ano passado (2025) escrevi a primeira parte deste artigo, ao qual já alertava para o déficit de reposição de água nos nossos reservatórios naturais de água subterrânea. Expliquei que os nosso principal sistema aquífero Barreiras–Marituba tendia a operar no limite.
Neste artigo mostro uma segunda abordagem sobre o tema. Desde já ressalto que o resultado da falta de gestão de águas em Maceió um risco silencioso, porque a água subterrânea não aparece aos olhos, ou seja não é visível, como a água superficial de rios, lagoas e riachos.
1. A água subterrânea está perdendo qualidade?
As resoluções do CONAMA classificam águas subterrâneas em quatro classes. Os estudos desde 2016 aplicados à Região Metropolitana de Maceió mostram que áreas da parte alta da cidade já foram enquadradas como Classe 3 (precisam de tratamento para consumo); Já áreas próximas à faixa costeira/lagunar, como Pontal da Barra e Ponta da Terra, apresentaram características próximas de Classe 4, indicando água imprópria para abastecimento humano.
Essa classificação é baseada em análises químicas reais: nitrato, cloreto, amônia, condutividade elétrica e outros parâmetros.
2. O avanço do nitrato e vulnerabilidade urbana
Dentre os contaminantes mais críticos encontrados, em análises da UFAL o nitrato aparece predominante. O nitrato, vem basicamente de esgoto doméstico infiltrado, fossas rudimentares, infiltrações por falta de saneamento, alta densidade urbana sobre áreas de recarga. Esse é o caso do Vale do Reginaldo e de outros vales onde há alta concentração de drenagem de esgoto “In Natura” sobre áreas de infiltração de água.
O que os estudos mostram?
Observando algumas análises e estudos técnicos analisados em centenas de pontos de Maceió, observou ainda entre 2013 e 2016 que 52,12% destas análises estavam dentro do padrão de potabilidade. Já 33% dos poços analisados estavam acima do limite para nitrato e amônia. Outros dados como modelagens hidrogeológicas do nitrato confirmaram a migração da pluma contaminante destes compostos em direção a áreas densamente urbanizadas.
Em estudos de 2014 e 2016, observa-se alguns bairros com registros de maiores contaminações por nitrato. Foram eles: Farol, Jacintinho, Ponta da Terra, Tabuleiro dos Martins, Pescaria e algumas áreas do litoral norte com ocupação recente.
O grande problema é que o nitrato é perigoso porque se move rápido no subsolo e não se degrada facilmente. Uma vez presente no aquífero, pode permanecer por décadas prejudicando populações inteiras que dependem de água do subsolo como é o caso de Maceió.
3. O risco da salinização
A salinização de água subterrânea é outro risco crescente para Maceió. Ela geralmente ocorre quando: o nível do aquífero pode descer por excesso de bombeamento de águas através de poços, pois a pressão subterrânea diminui, com isso a água do mar ou da lagoa pode avançar para dentro do aquífero salinizando parte dele. Alguns estudos e levantamentos técnicos identificaram há 10 anos, sinais de salinização na Ponta da Terra, Pontal da Barra, Mutange e Bebedouro. Nessas regiões, análises identificaram aumento de cloretos, sulfatos, condutividade elétrica, ou seja, todos indicadores clássicos de intrusão salina.
Por que isso preocupa? Porque poços impactados por salinização podem se tornar inutilizáveis, levando anos ou décadas para recuperar, em muitos casos, sem recuperação possível, ou seja, terão de ser desativados.
4. Urbanização sobre as áreas de recarga
As áreas de Maceió que deveriam serem objetos de preservação para servir de esponjas de infiltração da água da chuva, são justamente as áreas que estão sendo mais ocupadas. Regiões como os tabuleiros costeiros entre Guaxuma, Garça Torta e Ipioca, Tabuleiro dos Martins e toda a Cidade Universitária, além de áreas de encosta entre parte alta e baixa, zonas próximas à duplicação da AL-101 Norte são as mais vulneráveis atualmente.
Os impacto direto da urbanização sobre o aquífero são diversos, como:
- A redução da área de solo exposto, ou seja menos infiltração de água no solo;
- Aumento de pavimentação e concretagem de praças e logradouros, ampliando mais a falta de permeabilidade, o escoamento superficial de água e menos recarga;
- A proliferação de mais condomínios, gerando mais poços perfurados;
Aumento de mais esgoto sem tratamento e consequentemente mais nitrato infiltrado no solo.
Em resumo: “Ubanizar sobre zona de recarga é, tecnicamente, reduzir o “abastecimento natural” do aquífero. E é exatamente isso que nosso urbanismo vem fazendo, ou seja, impedindo o aquífero de se reabastecer.
5. A explosão dos poços privados e o uso sem controle
Segundo alguns estudos Maceió possui milhares de poços dentre eles:
- Poços domésticos não registrados;
- Poços de condomínios;
- Poços de hotéis e academias;
- Poços de empreendimentos turísticos;
- Poços de resorts, flats e hotéis;
- Poços industriais particulares;
- Perfurações clandestinas.
O mais preocupante é que uma parte destes, funcionam sem monitoramento, análise periódica da qualidade, controle de vazão, manutenção, comunicação de dados ao órgão gestor de Alagoas.
Essa má gestão de nossas águas faz com que o sistema subterrâneo opere às cegas, sem balanço atualizado entre recarga e extração. Estes dados poderiam existir em uma central de monitoramento online, dados abertos e outras ferramentas de transparência. Temos muito poucos dados oficiais e isso é um grande problema, pois uma cidade sem dados não tem base para tomadas de decisões assertadas de base técnica. Vive a mercê de opiniões e vontade de políticos que operam sem pouca seriedade com o planejamento da cidade.
6. A indústria de água mineral: mais pressão sobre o mesmo aquífero
Na Região Metropolitana de Maceió funcionam várias empresas de água mineral. Todas captam água do mesmo sistema aquífero, legalmente e com licenças, porém aumentam a demanda sobre uma reserva já pressionada. Além disso há empresas que fornecem água para obras locais e caminhões de abastecimento para rega e paisagismo. Essa água é uma água mineral nobre, e pasmem, estamos usando-a para construção civil , molhar ruas em obras e outros usos não nobres.
7. As áreas de maior vulnerabilidade em Maceió (segundo estudos da UFAL)
Os mapas de vulnerabilidade hidrogeológica de alguns estudos da UFAL apontam como potenciais áreas vulneráveis o Litoral norte (Guaxuma a Ipioca), Ponta da Terra, Pontal da Barra Faixa da Laguna Mundaú, Jacintinho e encostas adjacentes, Farol, Tabuleiro dos Martins, Cidade Universitária, Serraria e Feitosa.
Áreas como bairros do Poço e Jatiúca (faixa litorânea), onde o aquífero é mais raso, o solo é mais permeável e a urbanização mais intensa, se mostra nestes estudos como uma combinação perfeita para infiltrar poluentes e reduzir a qualidade da água.
8. Conclusão: o risco é sistêmico
Nossa cidade enfrenta simultaneamente diversos problemas hidrogeológicos, como a superexploração de água. Só que temos um déficit anual de reposição de água, cada vez maior, ou seja a água no subsolo começa a não ser recarregada pelas chuvas por conta de nosso modelo urbano. Isso é grave pois a perda de recarga e a urbanização sobre tabuleiros e litoral, sem planejamento amplia a contaminação crescente por nitrato e compostos nitrogenados e isso já ocorre e vai piorar se continuarnos negligenciando a gestão de nossas águas.
Como mostramos o risco de salinização e o avanço do mar e da lagoa pelo subsolo é uma realidade, tudo isso somado a multiplicação de poços privados e extração sem controle é uma equação grave para o abastecimento de Maceió nas próximas décadas.
Por fim, o comércio legal e ilegal de águas minerais captando no mesmo aquífero aumenta a demanda e amplia o risco, que não é futuro, ele já existe.
A vulnerabilidade dos nossos aquíferos se traduz em risco urbano e uma futura crise hídrica que já começa a aparecer.
Maceió precisa encarar essa agenda como prioridade imediata de planejamento urbano, ambiental e hidrogeológico. Pois associado a isso ainda temos mais de 30 minas desativadas de extração de Sal-gema que não sabemos se já interfere no aquifero, e seria necessários mais pesquisas.
É isso o paraíso das águas pode ficar sem a água.
*Arquiteto urbanista e professor doutor da UFAL.
Fontes utilizadas:
Dissertações e artigos técnicos (UFAL):
• LIMA, Jamerson C. (2008). Avaliação do nitrato nas águas subterrâneas do Farol.
https://www.repositorio.ufal.br/bitstream/riufal/5274
• SILVA, Wilson F. (2013). Vulnerabilidade das águas subterrâneas da RMM.
https://www.repositorio.ufal.br/handle/riufal/5110
• TOLEDO, P. H. (2016). Modelagem hidrogeológica da pluma de nitrato.
https://www.repositorio.ufal.br/bitstream/riufal/1403
Relatórios e zoneamentos:
• COSTA et al. (2011). Zoneamento e áreas de restrição da RMM.
https://aguassubterraneas.abas.org/asubterraneas/article/download/2804




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