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Maceió e a cidade saudável: quando a questão urbana produz adoecimento

por | 5 fev, 2026

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Reprodução

Por Geraldo de Majella*

O conceito de Cidade Saudável, formulado e difundido pela Organização Mundial da Saúde, parte de uma compreensão ampliada de saúde: não apenas a ausência de doença, mas o resultado direto das condições sociais, ambientais, econômicas e urbanas em que a população vive. Uma cidade saudável é aquela que reduz riscos, protege a vida e promove bem-estar de forma contínua e equitativa.

Maceió, contudo, oferece um exemplo claro de como o modelo de urbanização pode produzir adoecimento coletivo. O caso do afundamento do solo em bairros inteiros — consequência direta da exploração mineral — escancarou uma cidade que falhou em sua função básica de proteção. Milhares de pessoas foram deslocadas, laços comunitários rompidos, memórias destruídas e a saúde mental transformada em dano estrutural. O território, que deveria ser abrigo, tornou-se ameaça.

Nesse contexto, falar em cidade saudável exige ir além da rede hospitalar ou da atenção básica. Exige reconhecer que o espaço urbano é um determinante central da saúde. A insegurança habitacional, a exposição a riscos ambientais, a precariedade da mobilidade e a segregação socioespacial afetam diretamente o corpo e a vida cotidiana dos moradores — sobretudo dos mais pobres.

Nota Técnica permite às vítimas entender nível de afundamento |Foto: Reprodução

Maceió também expressa profundas desigualdades territoriais. Enquanto áreas valorizadas concentram investimentos, infraestrutura e serviços, vastas regiões da cidade convivem com saneamento incompleto, ausência de áreas verdes, transporte deficiente e violência cotidiana. Essa assimetria territorial produz mapas distintos de expectativa de vida, adoecimento e sofrimento dentro de uma mesma cidade.

Uma cidade saudável pressupõe governança responsável, prevenção de riscos, transparência e participação social. Quando decisões estratégicas são tomadas sem controle público, quando o poder econômico se sobrepõe ao interesse coletivo e quando as vítimas são tratadas como obstáculos administrativos, o resultado é o oposto da saúde: é a normalização do dano.

Em Maceió, o desafio não é adotar o discurso da cidade saudável, mas romper com práticas urbanas que transformam o território em fator de adoecimento. Sem justiça ambiental, sem reparação integral e sem políticas urbanas orientadas pela vida, a cidade seguirá sendo um espaço que adoece em vez de cuidar.

*Historiador e jornalista

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