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Maceió: cidade turística ou cidade para turistas?

por | 6 fev, 2026

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Foto: Divulgação

Por Geraldo de Majella

A distinção entre cidade turística e cidade para turistas não é apenas semântica. Ela expressa projetos urbanos distintos e produz efeitos diretos sobre a vida dos moradores. Em Maceió, essa diferença se materializa de forma clara nos bairros da Pajuçara, Ponta Verde e Jatiúca, onde o turismo deixou de ser atividade integrada à cidade e passou, progressivamente, a reorganizar o território segundo a lógica do consumo.

Uma cidade turística é aquela que recebe visitantes sem romper com sua função primordial: ser espaço de vida. O turismo, nesse caso, convive com a moradia, o trabalho, a cultura local e o uso cotidiano do espaço público. Já a cidade para turistas inverte essa ordem: a cidade passa a ser planejada prioritariamente para quem chega, não para quem permanece.

Na orla de Maceió, especialmente nesses três bairros, observa-se a consolidação de um modelo urbano orientado pelo mercado turístico-imobiliário. A paisagem é tratada como mercadoria; o território, como ativo econômico. O resultado é a transformação de áreas tradicionalmente residenciais em zonas de alta rotatividade, marcadas por hotéis, flats, condomínios de uso temporário e plataformas de aluguel de curta duração.

Em Pajuçara, bairro historicamente popular e marcado pela convivência entre moradores, trabalhadores do turismo e atividades tradicionais como a pesca, a pressão imobiliária tem provocado mudanças profundas. O aumento do valor dos imóveis e dos aluguéis expulsa silenciosamente moradores antigos, enquanto o espaço público passa a ser organizado em função do visitante. A orla deixa de ser lugar de encontro cotidiano e se converte em vitrine permanente.

Na Ponta Verde, o processo se apresenta de forma ainda mais nítida. O bairro, antes predominantemente residencial, tornou-se símbolo da cidade “vendável”. A verticalização intensiva, a substituição de moradias por empreendimentos turísticos e a padronização dos usos do solo produzem um território cada vez menos habitável para quem vive ali. O cotidiano é impactado pelo trânsito, pela sobrecarga dos serviços urbanos e pela perda gradativa de vínculos comunitários.

A Jatiúca, por sua vez, vive uma tensão semelhante. A valorização acelerada do solo, associada à expansão do turismo e do consumo de alto padrão, transforma o bairro em espaço seletivo. Pequenos comércios de bairro dão lugar a serviços voltados ao visitante; o custo de vida aumenta; e a permanência do morador passa a depender de sua capacidade de acompanhar a lógica do mercado.

Esses processos produzem consequências que vão além da questão habitacional. A cidade para turistas enfraquece o direito à cidade, pois restringe o acesso democrático ao território, aos espaços públicos e às decisões sobre o uso urbano. Produz também efeitos sobre a saúde urbana, ao gerar estresse, insegurança, ruptura de laços sociais e sensação de não pertencimento.

O turismo, quando se impõe como eixo absoluto do planejamento, não qualifica a cidade — ele a fragmenta. A cidade passa a funcionar em dois tempos: o do visitante, valorizado e protegido, e o do morador, pressionado e invisibilizado. A paisagem se preserva; a vida cotidiana, não.

Em Maceió, a questão central não é negar o turismo, mas disputar seu sentido. Entre ser uma cidade turística ou uma cidade para turistas, está em jogo a escolha entre um território vivido e um território consumido. Pajuçara, Ponta Verde e Jatiúca são hoje os espaços onde essa disputa se torna mais evidente — e onde se decide se a cidade continuará sendo lugar de vida ou apenas cenário.

*Historiador e jornalista

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