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Levantamento revela poluição crônica em praias de AL; 97% das análises superam limite em trechos críticos

por | 21 fev, 2026

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Foto: Mychelle Maia/Agência Tatu

Um levantamento inédito publicado pela Agência Tatu expõe um cenário preocupante no litoral alagoano: trechos de praias acumulam anos de poluição recorrente, especialmente próximos à foz de rios e durante a quadra chuvosa.

A reportagem analisou 112 boletins de balneabilidade divulgados pelo Instituto do Meio Ambiente de Alagoas (IMA) entre 2019 e 2024. A partir de técnicas de investigação documental, foram extraídos dados de dezenas de arquivos em PDF, resultando em uma base com mais de 7 mil registros sobre a qualidade da água nas praias do estado.

Foz de rios concentram contaminação

Os dados mostram que os pontos mais frequentemente classificados como impróprios para banho estão localizados em áreas onde rios deságuam no mar. O caso mais crítico é a foz do Rio Niquim, na Barra de São Miguel, que esteve imprópria em mais de 92% dos boletins analisados.

Na sequência aparecem dois trechos em Maragogi: a foz do Rio Persinunga (90% dos boletins impróprios) e a foz do Rio Salgado (70%). Em Maceió, dois pontos da Praia da Avenida, que recebe águas do Riacho Salgadinho, apresentaram mais de 65% dos laudos negativos. Já a foz do Rio Maragogi acumulou 62% de registros impróprios no período.

Apesar do cenário, 23 praias alagoanas permaneceram próprias para banho em 100% das análises realizadas ao longo dos cinco anos.

Inverno concentra mais registros negativos

A reportagem identificou que a contaminação aumenta durante o período chuvoso. Entre maio e agosto, o percentual médio de trechos impróprios superou 17%. Junho lidera o ranking, com 19,6% dos pontos monitorados classificados como inadequados para banho.

Em contrapartida, novembro apresentou o menor índice de poluição, com apenas 8,5% dos locais considerados impróprios.

A variação afeta diretamente quem depende do movimento turístico. O ambulante Cláudio da Silva Júnior, que trabalha na orla de Maceió, relata queda nas vendas durante o inverno. “No inverno, o movimento cai bastante, não só por causa da chuva, mas pela situação de trechos das praias que ficam impróprios para banho. Se não fosse isso, seria melhor para os turistas e para nós, que dependemos do movimento para ganhar o pão de cada dia”, afirma.

A publicitária Beatriz Omena evita frequentar praias urbanas em períodos de maior risco. “Há galerias pluviais que acabam levando esgoto para o mar. Isso prejudica nosso lazer e nos obriga a buscar praias mais distantes, no litoral sul ou norte, aumentando os custos”, relata.

Como funciona o monitoramento

O IMA realiza coletas semanais em 67 pontos do litoral. Em cada local são recolhidas dez amostras, analisadas em até 24 horas para identificar a presença de Escherichia coli e coliformes totais, conforme parâmetros do Conselho Nacional do Meio Ambiente (Conama).

Segundo a engenheira química Rosana Correia Vieira, da Gerência do Laboratório de Estudos Ambientais, as amostras passam por incubação em meio específico que detecta a presença de bactérias por luminescência. “Quando o nível excede o permitido, o ponto é considerado impróprio para banho”, explica.

O gerente do laboratório, Paulo Lira, ressalta que o órgão atua tanto no monitoramento quanto na fiscalização. “Aplicamos sanções e exigimos medidas corretivas quando identificamos irregularidades. O fortalecimento da gestão ambiental e o investimento em saneamento são fundamentais para melhorar a qualidade das águas”, pontua.

Impacto vai além da água

Para o oceanógrafo Gabriel Le Campion, professor da Universidade Federal de Alagoas (Ufal), o problema não se restringe ao risco de infecções. “Os esgotos carregam detergentes, biocidas e metais pesados que afetam a fauna marinha e podem se acumular na cadeia alimentar”, alerta.

Ele chama atenção ainda para o chamado spray marinho contaminado. “As galerias despejam esgoto onde as ondas quebram, formando uma maresia que pode carregar microrganismos por longas distâncias. Pessoas com baixa imunidade podem desenvolver infecções respiratórias”, explica.

Beatriz Omena e o noivo Jeymes Robert preferem curtir praias no Litoral Sul de Alagoas para evitar praias impróprias | Foto: Agência Tatu

Desafio estrutural

Especialistas apontam que a principal causa da contaminação é o despejo irregular de esgoto doméstico e industrial nas galerias pluviais, cuja responsabilidade é municipal. A solução passa por investimentos em saneamento básico, fiscalização rigorosa e educação ambiental.

“Se quisermos desenvolver o turismo de forma sustentável, precisamos descontaminar as galerias que deveriam drenar apenas água da chuva”, defende Le Campion.

O levantamento da Agência Tatu evidencia que, entre ciência, dados e relatos da população, o problema da balneabilidade em Alagoas não é pontual — é estrutural e exige respostas permanentes do poder público.

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