
Foto: Pexels/Arjun MJ
O glifosato — herbicida mais utilizado no Brasil e no mundo — voltou ao centro do debate público após novo alerta sobre sua presença em alimentos ultraprocessados. Levantamento do Instituto Brasileiro de Defesa do Consumidor (Idec) identificou resíduos de agrotóxicos em metade das amostras analisadas na pesquisa “Tem Veneno Nesse Pacote”. Em sete dos 24 produtos avaliados, o glifosato foi a substância detectada, tornando-se a mais recorrente no estudo.
O composto é classificado como “provavelmente carcinogênico” pela Agência Internacional para Pesquisa sobre o Câncer, braço da Organização Mundial da Saúde (OMS). Nos Estados Unidos, a fabricante do herbicida, a Bayer, apresentou proposta de acordo que pode chegar a US$ 7,25 bilhões para encerrar disputas judiciais relacionadas ao Roundup, produto à base de glifosato. A multinacional herdou os processos após adquirir a Monsanto, em 2018, por US$ 63 bilhões. Desde 2015, cerca de 200 mil ações foram movidas contra a companhia nos EUA. A empresa nega que o acordo represente admissão de culpa e sustenta que o produto é seguro.
O veneno invisível nos ultraprocessados
No Brasil, o glifosato consolidou-se como pilar do modelo agrícola intensivo, especialmente nas lavouras de soja transgênica. Entre 2010 e 2020, o volume de herbicidas comercializados no país saltou 128%, passando de 157,5 mil para 329,7 mil toneladas anuais, segundo estudo da Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária (Embrapa) em parceria com a Universidade de Rio Verde.
A pesquisa do Idec aponta que a farinha de trigo — ingrediente base de biscoitos, empanados e macarrão instantâneo — é uma das principais vias de exposição. Entre as categorias analisadas, apenas produtos do tipo petit suisse não apresentaram resíduos nas amostras testadas.
Água doce sob pressão
O debate vai além dos alimentos industrializados. O Brasil concentra cerca de 12% da água doce superficial do planeta e abriga biomas estratégicos como a Amazônia e o Pantanal. Ainda assim, figura entre os maiores consumidores globais de agrotóxicos.
Estudos compilados pelo Atlas dos Agrotóxicos indicam que substâncias como o glifosato podem atingir águas superficiais e subterrâneas por processos como lixiviação e percolação do solo. Dados do Programa Nacional de Vigilância da Qualidade da Água para Consumo Humano (Vigiágua) mostram que, entre 2018 e 2021, foram analisadas 41.780 amostras. Glifosato, atrazina, metolacloro e 2,4-D estiveram entre os compostos mais frequentemente detectados.
Comparações internacionais evidenciam discrepâncias regulatórias: enquanto o Brasil permite até 500 microgramas por litro de glifosato na água potável, a União Europeia adota limite de 0,1 micrograma por litro — patamar 5 mil vezes menor.
Entre a ciência e o mercado
Desenvolvido nos anos 1970 pela Monsanto e incorporado ao portfólio da Bayer após a fusão bilionária, o glifosato tornou-se símbolo das tensões entre produtividade agrícola, regulação ambiental e saúde pública. Parte da comunidade científica aponta associação entre exposição prolongada e maior risco de determinados tipos de câncer; outras agências regulatórias defendem que, dentro dos limites estabelecidos, o produto não oferece risco inaceitável.
No Brasil, onde o consumo de ultraprocessados cresce e o agronegócio sustenta parcela relevante do PIB, o debate ganha contornos estratégicos. A pergunta que emerge é direta: até que ponto o modelo agrícola vigente, dependente de químicos em larga escala, impacta silenciosamente a mesa — e a saúde — da população?




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