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Mortes por álcool e drogas disparam no Brasil após pandemia de coviod-19, aponta estudo da Ufal

por | 2 mar, 2026

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Reprodução/Internet

A pandemia de covid-19 pode ter terminado como emergência sanitária global, mas seus efeitos colaterais continuam a produzir vítimas. Um estudo liderado por pesquisadores da Universidade Federal de Alagoas (Ufal) identificou um crescimento contínuo e expressivo das mortes associadas ao consumo de álcool e outras drogas no Brasil após 2020 — configurando o que os autores classificam como uma “epidemia colateral” desencadeada pelas rupturas sociais e assistenciais provocadas pela crise sanitária.

Publicada na revista científica The Lancet Regional Health – Americas, considerada uma das mais prestigiadas da literatura médica mundial, a pesquisa analisou dados do Sistema de Informações sobre Mortalidade (SIM) entre 2015 e 2022. O levantamento aponta que, apenas nos três primeiros anos da pandemia, o país registrou variações percentuais de óbitos 18,3% superiores ao esperado em 2020, 22,4% em 2021 e 26% em 2022.

Foram mais de 25,9 mil mortes acima da tendência projetada no período. No total, o estudo contabilizou 178 mil mortes relacionadas ao uso de substâncias psicoativas no intervalo analisado — mais de 80% delas associadas ao álcool, identificado como o principal vetor do problema no país.

Coordenado pelo professor Márcio Bezerra, do Complexo de Ciências Médicas e de Enfermagem da Ufal, Campus Arapiraca, o estudo classifica o fenômeno como um impacto indireto da pandemia. Isolamento social prolongado, agravamento da crise econômica, luto coletivo e interrupção ou redução dos serviços de saúde mental são apontados como fatores que exacerbaram vulnerabilidades já existentes.

“O estudo revela um aumento alarmante e sem precedentes nas taxas de mortalidade por álcool e drogas durante a pandemia em todos os estados do Brasil”, afirma o pesquisador. Segundo ele, a combinação entre retração econômica e desestruturação da rede de cuidado criou um ambiente propício para o agravamento de quadros de dependência e transtornos mentais.

Professor Márcio Bezerra | Assessoria

As tendências temporais indicam que, antes de 2020, algumas regiões apresentavam estabilidade ou até queda nas taxas de mortalidade associadas ao consumo de substâncias. O padrão foi rompido após março daquele ano, quando a Organização Mundial da Saúde declarou oficialmente a pandemia.

Nordeste em alerta

A análise regional mostrou que Nordeste, Sudeste e Sul registraram os maiores aumentos. Praticamente todos os estados apresentaram crescimento nas mortes, com elevações superiores a 50% em determinados anos em Pernambuco, Amapá e Tocantins.

O estudo utilizou modelos estatísticos robustos — regressão Joinpoint, séries temporais interrompidas (ARIMA) e análise espacial com mapas coropléticos — para identificar mudanças abruptas nas tendências. A metodologia permitiu detectar que a inflexão nos indicadores ocorre de forma consistente a partir do início da pandemia.

Para a professora Maria Amélia Gurgel, coautora do trabalho, os resultados evidenciam o potencial dos bancos de dados públicos do Sistema Único de Saúde (SUS) para subsidiar decisões estratégicas. “A aplicação de técnicas estatísticas robustas mostra como é possível transformar dados administrativos em evidências científicas de alta qualidade”, destaca.

Professora Maria Amélia Gurgel | Assessoria

Jovens e mulheres: crescimento proporcional maior

Embora os homens concentrem a maioria absoluta das mortes, as mulheres apresentaram crescimento proporcional mais intenso: média anual de 4,6% contra 3,6% entre o sexo masculino. O dado sinaliza mudança preocupante no perfil epidemiológico do consumo abusivo.

O recorte por faixa etária revela dois grupos particularmente impactados: jovens de 20 a 39 anos (AAPC = 2%) e pessoas com 60 anos ou mais (AAPC = 1,8%). A juventude, já pressionada por desemprego e insegurança social no período pandêmico, aparece como uma das principais vítimas dessa escalada silenciosa.

Limitações e urgência de políticas públicas

Os pesquisadores reconhecem limitações inerentes ao uso de dados secundários do SIM, como possível subnotificação, atrasos nos registros e imprecisões na codificação das causas de morte. Também apontam ausência de informações detalhadas sobre gênero e raça/etnia.

Ainda assim, afirmam que as evidências são robustas e convergentes. Para os autores, o Brasil precisa estruturar políticas permanentes de saúde mental e redução de danos capazes de resistir a períodos de crise sanitária ou econômica.

“Ao liderarmos um estudo desta magnitude, colocamos a Ufal na elite da produção intelectual internacional”, afirma Márcio Bezerra. “É a prova de que a universidade pública produz conhecimento que salva vidas e orienta decisões governamentais”, conclui.

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