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Canal do Sertão: uma miragem?

por | 10 mar, 2026

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Reprodução

Por Ricardo Ramalho

O Canal do Sertão não é uma miragem causada pela refração da luz que cria uma ilusão de água. É real e impactante frente à paisagem semiárida de Alagoas. Com recursos liberados para atingir 150 km de extensão nos próximos meses e uma história de mais de trinta anos desde sua concepção, já custou impressionantes R$ 2.600.000.000,00 (dois bilhões e seiscentos milhões de reais) e tem mais R$ 565.000.000,00 disponíveis, permitindo alcançar, em breve, R$ 3.200.000.000,00 (três bilhões e duzentos milhões de reais).

Concebido com primazia e executado com excelência, é uma obra de engenharia que orgulha e engrandece o Estado, sobretudo pela criatividade de seu traçado, que observa o relevo da região e aproveita a gratuita força gravitacional para esparramar água com abundância em um território secularmente afetado pelos rigores climáticos caracterizados pelas secas. Para elevar a vazão de projeto, com água do rio São Francisco, foi projetada uma única estação elevatória que injetará água em quatro adutoras de recalque até uma estrutura de transição em concreto. A partir do quilômetro zero, desenvolve-se de modo a permitir escoamento por gravidade em toda a sua extensão, com alguns trechos suspensos sobre pilares (aquedutos), outros em adutoras por gravidade e, ainda, outros em túneis.

Atualmente, com cerca de 123 km construídos e aptos ao uso, oferece na prática 246 km de margens para captação de recursos hídricos, com nobres finalidades: em primeiro plano o abastecimento humano, seguido da dessedentação dos rebanhos e da irrigação agrícola. Ressalte-se que, por seu nivelamento adotado para facilitar o percurso hídrico, apresenta favoráveis condições topográficas para as operações de distribuição da água.

Em recente vistoria das obras, nota-se, pelos aspectos gerais observados, o zelo e o rigor em sua execução, perceptíveis em indicadores básicos como o emprego e o tratamento da mão de obra e os cuidados nas questões ambientais, principalmente levando-se em consideração a dimensão grandiosa do projeto.

Alagoas ainda não reconheceu plenamente o potencial de desenvolvimento sustentável desse memorável instrumento transformador para uma região com baixíssimos índices sociais e gravíssimos problemas ambientais, notadamente a ameaça silenciosa e devastadora da desertificação. No semiárido alagoano concentram-se propriedades familiares, com uma população necessitando de oportunidades para elevar suas condições de vida e que pratica uma agricultura tradicional, de níveis tecnológicos coloniais, extremamente dependente da regularidade das chuvas incertas.

Diante dessa situação desafiadora, que modelo queremos e propomos? Sol, água e terra — elementos naturais básicos da produção agropecuária — quando disponíveis, atraem interesses que, na maioria dos casos, resultam em maior concentração de renda, terra e poder. O Canal do Sertão, infelizmente, pode se constituir em mais um exemplo nesse sentido, se não construirmos um modelo que atenda aos requisitos fundamentais do desenvolvimento sustentável, com suas conhecidas — e muitas vezes pouco seguidas — dimensões econômicas, sociais, ambientais e culturais.

O debate e o diálogo com os diversos segmentos sociais mais envolvidos com a questão são catalisadores desse processo que se impõe pela urgência de encaminhamentos concretos.

Características estruturais e de contexto devem ser consideradas. Não queremos repetir caminhos excludentes, predatórios, concentradores e alicerçados em uma lógica agroquímica, com graves consequências negativas para a maioria da população. Defendemos um modelo brando de intervenção no ambiente que seja viável economicamente, mas que considere a estrutura social existente na região e seus aspectos culturais, provocando impactos ambientais positivos. Queremos um desenvolvimento sustentável não apenas nas narrativas, mas que satisfaça as necessidades básicas da população, promovendo a evolução equilibrada das relações sociais.

Os grandes gargalos, como o fornecimento de energia para os sistemas de irrigação, devem priorizar novas fontes de energia, notadamente a energia solar, aproveitando a estrutura física e de gestão do próprio Canal para instalação de placas fotovoltaicas. Isso propiciará descentralização de investimentos e de gestão e maior agilidade na implantação, considerando as dificuldades atuais de oferta da tradicional hidroeletricidade.

De acordo com os princípios expostos, o rumo a ser seguido deve se basear na agroecologia. Independentemente desse entendimento, porém, há que se considerar o caráter estratégico comercial dessa opção. Alagoas, com seu Canal do Sertão, pode constituir um significativo polo de produção agroecológica no país. O mercado interno desses produtos cresce a mais de 30% ao ano, e a demanda mundial segue em expansão.

Essa vereda tecnológica não implica atraso científico, como os detratores da agroecologia apregoam. Exigirá apoio da pesquisa agrícola estatal, sobretudo aquela vinculada às instituições de ensino existentes na região, além de assistência técnica e extensão rural pública especializada em agroecologia, executada por organizações da sociedade civil sem fins lucrativos e movimentos sociais com experiência no semiárido, monitorada e fiscalizada pelo governo, que prepare e capacite agricultores e agricultoras familiares para cultivos irrigados de produção orgânica.

Reprodução

¹ Artigo inspirado em recente visita às obras do Canal do Sertão, no município de Senador Rui Palmeira, em comitiva do vice-governador Ronaldo Lessa, em 03.03.2026.

² Homenagem ao nosso companheiro Roberto Cunha, estudioso do tema, que nos deixou.

1 Comentário

  1. Júlio Dias

    Excelente Provocação!!!

    Responder

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