
A mãe, Leonília Daciuk Paitach, e a escritora Marlene Kohts | Tribuna do Interior
Quarenta anos após um dos episódios mais marcantes de Campo Mourão, o caso do menino Robson Daciuk Paitach volta ao centro do debate público com o lançamento de um livro que reúne memória, investigação e testemunhos. A obra é assinada pela escritora Marlene Kohts, integrante da Academia Mourãoense de Letras.
Desaparecido aos 11 anos, em abril de 1986, Robson não voltou para casa após sair de uma aula de inglês. O caso mobilizou a cidade, provocou buscas coletivas e interrompeu a rotina local. Dias depois, a confirmação da morte gerou comoção generalizada. Mais de 10 mil pessoas participaram de manifestações, em um dos momentos mais impactantes da história recente do município.

O menino Robson Pataichi | Arquivo Pessoal
A narrativa do livro parte de entrevistas, documentos e reconstruções detalhadas. Mais do que recontar os fatos, a proposta é acompanhar os efeitos do crime ao longo do tempo, especialmente na trajetória da família. A mãe, Leonília Daciuk Paitach, relembra a mobilização coletiva e a dimensão espiritual daquele período. “Eu pedia que Deus me entregasse ele, vivo ou morto. Foi o que aconteceu”, afirmou.
Ao longo das décadas, a família optou por não transformar a perda em ressentimento. “Perdoei de coração. Vivemos sem ódio”, disse Leonília em entrevista. A decisão de transformar a história em livro, no entanto, só veio recentemente, após conversas com familiares. “Entendemos que era o momento”, relatou.
A autora destaca que o trabalho exigiu um mergulho emocional e histórico. “Não é só contar fatos, é compreender o que aquilo provocou nas pessoas”, afirmou. Segundo ela, a obra também busca esclarecer versões distorcidas que circularam ao longo dos anos, com base em pesquisa documental e relatos diretos.

Caso mobilizou a sociedade | Reprodução
O processo de escrita, iniciado em 2024, envolveu revisitar minuciosamente o dia do desaparecimento. “Voltamos hora a hora. Em muitos momentos, foi preciso parar”, disse Marlene. Para a autora, o eixo central da história está na escolha da família diante da tragédia. “Eles seguiram pelo caminho mais difícil, o do amor, não o da vingança”, resumiu.
Mais do que um registro histórico, o livro propõe uma reflexão sobre memória, justiça e transformação da dor. A frase que abre a obra sintetiza essa perspectiva: “A maior expressão da fé é não ser vencido pela dor”.






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