
Plano de governo de Zema é resgatar o fracasso de Paulo Guedes
Por Davi Molinari, do portal Vermelho
O plano de governo lançado por Romeu Zema (Novo) para a disputa presidencial de 2026 — batizado de “Brasil sem intocáveis” — não é apenas uma plataforma eleitoral, mas um projeto de desmonte sistêmico do Estado e da dignidade do povo brasileiro. Sob a roupagem de um “choque de gestão”, a proposta ressuscita o neoliberalismo mais tacanho, cujos resultados históricos são conhecidos: concentração brutal de renda, explosão da pobreza e uma vulnerabilidade externa que sequestra a soberania nacional. Se vitoriosa nas urnas, a agenda representaria um pesadelo sem precedentes para quem vive do próprio trabalho.
Inspirado por quadros remanescentes do “ultraliberalismo” da era Paulo Guedes, Zema ignora o rastro de destruição deixado por políticas idênticas na vizinha Argentina. Sob o comando de Javier Milei, a aplicação desse receituário fez a pobreza saltar para mais de 50% da população em tempo recorde. O modelo proposto pelo governador mineiro condena o Brasil ao mesmo destino: a criação de uma legião de “trabalhadores pobres”, que, mesmo empregados, não conseguem prover o sustento básico de suas famílias devido à precarização absoluta das relações laborais.
O fim da cidadania trabalhista
O eixo central da proposta de Zema é o ataque frontal à CLT. Ao sugerir um regime “paralelo” com pagamento por hora ou tarefa, o plano busca institucionalizar o subemprego e consolidar a precarização do trabalho. A eliminação de garantias como o FGTS e o descanso remunerado não é apenas uma afronta constitucional ao Artigo 7º; é uma estratégia deliberada para reduzir o custo do trabalho a níveis de subsistência, aumentando as margens de lucro do grande capital enquanto retira do trabalhador qualquer horizonte de estabilidade ou planejamento de vida.
Essa flexibilização irrestrita, longe de gerar empregos qualificados, estimula a rotatividade e achata a massa salarial. No horizonte de Zema, o trabalhador deixa de ser um cidadão com direitos para se tornar uma peça descartável, desprovida de rede de proteção social em momentos de crise.
Privatização e o sequestro da soberania
A proposta de venda integral da Petrobras, Caixa Econômica, Banco do Brasil e Correios configura um crime contra o patrimônio nacional. Ao abrir mão de empresas estratégicas, o plano aniquila a capacidade do Estado de induzir o crescimento sustentável e realizar políticas anticíclicas. Sem esses instrumentos, o Brasil abdica de sua soberania e passa a depender exclusivamente do humor de investidores externos e da volatilidade dos mercados internacionais.
Essa dependência cria um ciclo vicioso de vulnerabilidade: para atrair o capital estrangeiro, o país é forçado a manter juros altos e políticas de austeridade que asfixiam o desenvolvimento interno. Enquanto potências globais como Alemanha e França reestatizam serviços essenciais após o fracasso de gestões privadas, Zema propõe caminhar na contramão da história, entregando setores estratégicos ao controle de monopólios que priorizam dividendos em detrimento da modicidade tarifária e da universalização dos serviços.
Previdência: o risco no lombo do pobre
Ao defender a capitalização da Previdência, Zema propõe a individualização do risco social. O sistema solidário, que garante a distribuição de renda entre gerações, seria substituído por contas individuais em que o valor da aposentadoria dependeria da capacidade de poupança do trabalhador — uma impossibilidade para a imensa maioria que ganha salário mínimo. A experiência chilena é o espelho desse fracasso: idosos empobrecidos e um sistema financeiro enriquecido à custa das contribuições sociais.
Ficção fiscal e teto de gastos
O retorno ao teto de gastos rígido é a trava definitiva para qualquer projeto de desenvolvimento. Diferentemente do atual arcabouço fiscal, a regra de Zema congela os investimentos em saúde e educação enquanto a população cresce e as demandas sociais se multiplicam. É a institucionalização da escassez para garantir o pagamento de juros da dívida.
Além disso, a suposta “eficiência” mineira, usada como vitrine, é uma peça de ficção contábil. O superávit ostentado pelo governo de Minas Gerais foi erguido sobre a postergação da dívida com a União, sem resolver o problema estrutural do estado. Transportar essa lógica para o plano federal significa gerir o país “com o chapéu dos outros”, empurrando o colapso para as gerações futuras.
Barreiras constitucionais e o ataque à democracia
Mais do que impopular, boa parte do plano é juridicamente inviável. Propostas que miram cláusulas pétreas — como a separação dos Poderes e direitos fundamentais — enfrentam a barreira do artigo 60 da Constituição. O tom autoritário contra o STF e a tentativa de reduzir direitos sociais revelam um desprezo pelo pacto democrático de 1988.
Em suma, o “Brasil sem intocáveis” é, na verdade, um Brasil sem proteção para os vulneráveis. Onde o mercado é soberano, a nação é refém. Fica claro que a proposta de Zema não é uma solução econômica, mas um projeto de retrocesso civilizatório que aprofunda a pobreza, concentra a riqueza nas mãos de poucos e condena o Brasil à irrelevância no cenário global.







0 comentários