
Barcelona na Mobilização Global Progressista.
Por Marta Dueñas
Enquanto o campo progressista busca reinventar formas de articulação baseadas em solidariedade, diversidade e construção coletiva, a ultradireita e as forças repressoras operam há décadas com uma eficiência transnacional em direção a outros valores.
Mas a pergunta que importa, talvez, seja outra: como se organiza um campo político que recusa a lógica da homogeneização sem abrir mão da escalabilidade, da continuidade e da eficácia? É nesse contraste que se revela o desafio do nosso tempo. Se a ultradireita construiu, ao longo de décadas, uma infraestrutura internacional de circulação de poder, o progressismo ainda procura transformar sua tradição de resistência em rede capaz de agir além das fronteiras.
Entre as décadas de 1960 e 1970, no contexto das ditaduras militares, essas forças consolidaram uma verdadeira tecitura internacional, baseada na troca sistemática de informações, na padronização de procedimentos e na confiança operacional entre organizações, governos e regimes. A Escola das Américas, criada nos EUA na década de 1960, foi parte central desse processo ao difundir uma doutrina militar replicável, posteriormente multiplicada em exércitos de diversos países da América Latina.
Na sua fase mais profissionalizada, essa engrenagem teve em Dan Mitrione uma figura emblemática: policial estadunidense que atuou no Brasil e no Uruguai, associado ao ensino de técnicas de interrogatório coercitivo e ao aperfeiçoamento de métodos mais cruéis de repressão, incluindo o uso de choque elétrico sem deixar marcas. Em 1975, em Santiago do Chile, essa lógica atingiu sua forma mais brutal com a Operação Condor, colaboração internacional voltada a perseguir, sequestrar e eliminar opositores políticos no Brasil, Chile, Argentina e Uruguai, revelando um alinhamento transnacional de direita dotado de tática, logística, inteligência e poder financeiro.

Ditador Augusto Pinochet. Crédito: https://apublica.org/
Com fortes vínculos com o mercado e com o uso de tecnologia e cultura a seu favor, o governo norte-americano financiou golpes militares e aparatos de repressão que sufocaram movimentos progressistas por décadas na América Latina. Matou, calou, perseguiu pessoas e boicotou profissionais, empresas e empresários. Com a redemocratização, porém, essa articulação internacional migrou para outros espaços: think tanks, fundações, redes de financiamento e grandes encontros globais. Estruturas como a Atlas Network e eventos como a Conservative Political Action Conference passaram a operar como pontos de conexão e difusão ideológica conservadora em escala global.
Tecnofeudalismo – a infraestrutura digital como arma política
No século XXI, o ecossistema digital potencializou essa coperaçao histórica. As big techs — como Meta, responsável por Facebook, Instagram e WhatsApp — criaram infraestruturas que redefiniram a política, e o que se observa, na prática, é uma apropriação particularmente eficaz dessas ferramentas pelas redes de direita.
No Brasil, essa convergência ganhou forma institucional. Em 2025, o Partido Liberal, sigla de Bolsonaro, expôs, sem constrangimento, sua aproximação com as grandes plataformas digitais. Foram realizados seminários nacionais reunindo lideranças do partido, influenciadores e representantes de empresas como Google, Meta e outras. O foco era definir estratégias para ampliar a presença do PL nas redes e preparar a comunicação para 2026.
Executivos da Meta e do Google conduziram oficinas práticas: ensinaram militantes e quadros do partido a usar inteligência artificial generativa, aprimorar textos, criar imagens e vídeos, resumir conteúdos longos e explorar ferramentas como Meta AI, Gemini, NotebookLM e CapCut.

https://investnews.com.br/
Para além de fortalecer a comunicação da legenda, haverão efeitos políticos e sociais já que esse repertório novo poderá ser lido em agilidade para produçao de narrativas que atendem determinados objetivos — justamente quando especialistas e órgãos como o TSE alertam para o risco de desinformação e uso eleitoral de inteligência artificial em escala industrial.
Assim como no passado se compartilharam técnicas de repressão, hoje se compartilham métodos de engajamento, construção de narrativa e ativação de base. A lógica permanece: coordenação, circulação de saberes, adaptação tecnológica.
A resposta progressista
Diante desse percurso histórico, o desafio para o campo progressista é profundo. Como construir uma articulação global que não reproduza as lógicas autoritárias de seus adversários, mas que seja, ao mesmo tempo, capaz de responder com densidade, escala e continuidade?
Se, por um lado, há um acúmulo ético e político na defesa da diversidade, da autonomia e da horizontalidade, por outro, quais serão as estruturas, legendas ou entidades capazes de internacionalizar e sustentar intercâmbios contínuos de comunicação, formação política, produção editorial e cooperação econômica?
Do Fórum Social Mundial às redes mais recentes de cooperação progressista, o que persiste é a tentativa de construir uma internacional não da coerção, mas da convergência mesmo que com incompletudes. Em Barcelona, a Global Progressive Mobilisation reuniu lideranças e organizações com o objetivo explícito de coordenar respostas comuns ao avanço da ultradireita. Há, portanto, um embrião de resposta, ainda que marcado pela falta de importantes nomes da esquerda espanhola e da diversidade global. O desafio é justamente criar uma forma de internacionalismo que seja, ao mesmo tempo, democrático e eficaz; plural e coordenado; enraizado nas culturas locais, mas capaz de responder globalmente às angústias do presente.
É desafiador talvez porque a esquerda, ao contrário de seus adversários históricos, recuse — com razão — a lógica da homogeneização e do comando vertical. E por isso mesmo, é urgente descolonizar a mirada e a ação dos campos progressistas e de esquerda no norte global.
A história recente mostra que enquanto a direita soube transformar repressão em método e método em rede, a esquerda busca transformar seus princípios em estrutura. A questão, portanto, não é apenas se nascerá uma nova esquerda, mas se ela conseguirá nascer com densidade histórica, inteligência organizativa e vocação internacional decolonial à altura do desafio



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