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Reflexões ingénuas sobre livros, bibliotecas e utopias

por | 23 abr, 2026

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Por Carlos Vargas*

Foi no início da primavera que me chegou às mãos, em Lisboa, o livro É Tempo de Morangos: Reflexões sobre Livros, de Bruna Martiolli, publicado em 2026 pela editora brasileira Intrínseca. Por ossos de ofício, mas também por certo prazer vagabundo, cruzei a leitura deste livro – que celebra o amor pelos livros – com outro, de autor canadiano, que aborda a censura contemporânea de muitos dos livros que aprendemos a amar. Refiro-me a On Book Banning: Or, How the New Censorship Consensus Trivializes Art and Undermines Democracy, de Ira Wells, publicado em 2025 pela editora Biblioasis. A aproximação destes dois títulos revelou-se particularmente estimulante: enquanto um exalta a dimensão afetiva e existencial da leitura, o outro alerta para as ameaças que hoje se erguem contra a liberdade intelectual. Ambos, ainda que por caminhos distintos, convergem na defesa do poder transformador dos livros e na reafirmação da sua importância para a vida individual e colectiva.

A ingenuidade necessária da leitura

Há uma ingenuidade necessária no modo como nos aproximamos dos livros. Não se trata da ingenuidade leviana de quem espera encontrar receitas para viver melhor, nem da credulidade sentimental de quem imagina na literatura um refúgio imune às contradições do mundo. Trata-se, antes, de uma disposição inicial para acreditar que certos textos ainda nos podem comunicar algo crucial.

Talvez seja essa a razão pela qual continuamos a ler: a hipótese de que nos livros se abre uma forma de orientação, mesmo quando não oferecem consolo, solução ou felicidade. A intuição de Bruna Martiolli é, neste sentido, muito esclarecedora. Os livros são travessias, mapas que muitas vezes só reconhecemos como essenciais depois de concluída a viagem. Esse reconhecimento tardio não os torna inúteis; pelo contrário, demonstra que a leitura não substitui a experiência, conferindo-lhe densidade, qualidade e memória.

Contra o romantismo da felicidade

Convém, contudo, recusar o romantismo fácil que transforma os livros em objectos sagrados e a leitura numa espécie de redenção automática. Ler não nos melhora necessariamente, não nos torna mais felizes, nem nos protege da violência, da cegueira moral ou da mentira colectiva. Os livros podem ampliar a consciência, mas não substituem o juízo; podem intensificar a lucidez, mas não eliminam o sofrimento.

A sua força reside menos na promessa de felicidade do que na capacidade de nos ensinarem a habitar a infelicidade sem a ela sucumbirmos. É precisamente neste ponto que a literatura se aproxima da utopia: não como desenho perfeito de uma sociedade apaziguada e feliz, mas como exercício de imaginação crítica perante tantas e diversas contingências.

A ambiguidade da utopia em Thomas More

É inevitável, neste contexto, regressar à Utopia de Thomas More, tal como Bruna Martiolli também faz no seu livro. Utopia funda um género literário e político, mas fá-lo sob o signo da ambiguidade. A ilha descrita por More não é apenas uma promessa; é também uma provocação. A organização racional da vida colectiva e a distribuição regrada do trabalho e dos bens não nos convidam a sonhar ingenuamente com um paraíso político; obrigam-nos, isso sim, a confrontar a arbitrariedade e a injustiça do mundo real.

A utopia vale menos como programa do que como contraste. O seu poder reside em demonstrar que a ordem existente não é natural nem inevitável. Se o presente pode ser descrito como necessidade, a utopia devolve-lhe o carácter de construção histórica e, portanto, de realidade transformável.

 

Importa ainda sublinhar que essa possibilidade de transformação não decorre da busca da felicidade. More entende que a vida colectiva se organiza de forma mais sólida a partir da contenção dos males do que da promessa de bens absolutos. Uma política séria mede-se pela capacidade de limitar a miséria, a humilhação e o abuso. A felicidade, quando surge, emerge como efeito lateral e precário de instituições menos injustas, e não como o seu objectivo primordial. Nesta medida, a utopia revela-se profundamente pragmática. Não ignora a imperfeição humana, antes trabalha com ela. Não exige homens novos, mas formas de vida menos desumanas.

Memória e imaginação em Gabriel García Márquez

Essa recusa de idealizações excessivas encontra eco particularmente na obra de Gabriel García Márquez. Apesar da exuberância imaginativa que a caracteriza, o que nela persiste é a consciência de que os indivíduos e os povos vivem enredados em ciclos de solidão, de violência e de desejo frustrado. Em Cem Anos de Solidão, Macondo nasce como promessa, mas acaba corroída pela condição humana e aniquilada pela natureza. Todavia, o romance não é um exercício de desespero. O seu núcleo mais resistente reside na insistência da imaginação contra a aridez do real. García Márquez não oferece utopias realizáveis; demonstra, antes, que os seres humanos sobrevivem historicamente porque produzem sentidos, narrativas e memórias, mesmo perante o desastre.

Saramago e a ética da responsabilidade

A estrutura da infelicidade humana é exposta com eficaz radicalismo em Ensaio sobre a Cegueira, de José Saramago. O romance não descreve apenas uma epidemia, mas revela a rapidez com que a civilização se desagrega quando desaparecem as convenções que a sustentam. A cegueira branca torna visível o que estava latente: egoísmo, brutalidade e cobardia, mas também gestos mínimos de cuidado e de responsabilidade.

Saramago recusa qualquer optimismo ingénuo. No entanto, o romance não é niilista. A sua esperança, severa e exigente, reside na possibilidade de, mesmo em condições extremas, se escolher o Outro e se preservar uma fidelidade essencial ao Humano.

O optimismo exigente da literatura

Entre More, García Márquez e Saramago desenha-se uma linha comum: a de uma imaginação que não foge do real, antes o enfrenta com instrumentos simbólicos capazes de alargarem o campo do possível. Trata-se de um optimismo exigente, que não assenta na convicção de que tudo acabará bem, mas na certeza de que a lucidez é preferível à ilusão, de que a acção é preferível à passividade.

Assim, os livros são úteis não porque nos fazem felizes, mas porque nos tornam menos vulneráveis às falsificações da felicidade. Ensinam-nos que viver é atravessar zonas de perda, de erro e de incompletude sem abdicar de pensar, de imaginar e de escolher.
Talvez por isso continuemos a precisar dos livros. Não como amuletos culturais ou objectos de veneração melancólica, mas como formas de treino da atenção ética e política. Os livros não nos salvam; ajudam-nos, por vezes, a não colaborar docilmente com o que nos diminui.

Numa época que oscila entre o cinismo e a exaltação, entre a desistência e a propaganda da felicidade, a literatura preserva uma verdade menos brilhante e mais sólida: a de que a vida humana se faz com a matéria da fragilidade e que é a partir desta, e não contra esta, que pode emergir qualquer ideia sensata de futuro.

Controlo e censura

Não é, pois, de admirar que, ao longo da história, tenham surgido sucessivas tentativas de controlo e de censura de livros assim como da respectiva leitura. A literatura, enquanto espaço privilegiado de questionamento e imaginação crítica, constitui uma ameaça para qualquer ordem que procure afirmar-se como natural e incontestável. Ira Wells, no seu livro On Book Banning, analisa esta tensão ao identificar uma tendência contemporânea marcada por formas renovadas e paradoxais de censura, provenientes de diferentes sectores sociais e políticos.

Segundo o autor, a censura actual raramente se apresenta de forma explícita. Manifesta-se, antes, através de um “consenso censório” que trivializa a arte e enfraquece a democracia ao reduzir a literatura a um instrumento de validação ideológica. Este fenómeno inclui não apenas a remoção física de livros, mas também a sua marginalização simbólica e o condicionamento do acesso a uma imensa diversidade de vozes.

O alerta de Fahrenheit 451

A utopia dos livros confronta-se, assim, com distopias tranquilas, caracterizadas por uma aparência de ordem e de felicidade naturais, mas sustentadas pela limitação silenciosa da leitura. Esta realidade encontra um eco inquietante em Fahrenheit 451, de Ray Bradbury, publicado originalmente em 1953. No romance, a supressão dos livros resulta tanto da imposição autoritária como da aceitação social, alimentada pelo desejo de conforto e de simplicidade.

A actualidade desta narrativa reside na sua capacidade de antecipar formas subtis de censura, nas quais a exclusão dos livros é justificada como condição para a harmonia social. Uma sociedade sem livros – ou com livros cuidadosamente controlados – é, inevitavelmente, uma sociedade privada da sua capacidade de imaginar alternativas e de questionar o presente.

Bibliotecas, leitura e resistência cívica

A investigação recente confirma a crescente relevância destas preocupações. As bibliotecas públicas permanecem instituições fundamentais na defesa da liberdade intelectual e do pluralismo de ideias, embora enfrentem, nomeadamente nos E.U.A e no Canadá, pressões significativas que procuram influenciar as suas colecções e as respectivas políticas de acesso. Paralelamente, têm emergido movimentos de resistência que denunciam e combatem a proibição de livros, demonstrando que a defesa da leitura permanece um imperativo cívico e político.

A censura contemporânea assume ainda novas dimensões com a introdução de tecnologias algorítmicas na gestão das colecções bibliográficas. Embora concebidas com intenções inclusivas, muitas destas ferramentas podem gerar formas subtis de exclusão ao privilegiarem determinados critérios normativos. Assim, a promessa de neutralidade tecnológica pode transformar-se num mecanismo adicional de controlo, reforçando a necessidade de vigilância crítica.

Poder transformador da leitura

Neste cenário, a defesa dos livros e das bibliotecas revela-se essencial para preservar o espaço público de debate e de imaginação democrática. Como vimos, as utopias literárias enfrentam hoje distopias discretas e tranquilas, marcadas por uma aparência de ordem e de bem-estar, mas sustentadas pela limitação silenciosa da diversidade e do acesso ao conhecimento.

Retomando a ideia inicial desta crónica, segundo a qual nos aproximamos dos livros com uma ingenuidade necessária, importa reconhecer que essa mesma ingenuidade sustenta a esperança na liberdade humana e no poder transformador da leitura. É nesse horizonte que recomendo vivamente a leitura dos dois livros que servem de pretexto a esta reflexão: É Tempo de Morangos: Reflexões sobre Livros, de Bruna Martiolli, e On Book Banning: Or, How the New Censorship Consensus Trivializes Art and Undermines Democracy, de Ira Wells.

Ambos são, à sua maneira, imensamente ingénuos, intrinsecamente melancólicos e, talvez por isso mesmo, radicalmente comprometidos com a defesa de um ser humano livre. Se o primeiro celebra o amor pelos livros como travessias existenciais que nos ajudam a compreender a nossa própria fragilidade, o segundo alerta para os perigos contemporâneos que ameaçam esse espaço de liberdade. Ambos recordam que é precisamente essa fragilidade que torna indispensável a existência dos livros como lugares de memória, de questionamento e de resistência.

Por tudo isto, a leitura destas obras não é uma simples prática cultural, mas sim um gesto consciente de responsabilidade cívica e ética, assim como um acto de confiança na capacidade humana de conhecer e compreender o passado, de imaginar futuros alternativos e de preservar a dignidade do pensamento.

Lisboa, 23 de Abril de 2026

*Doutor em Ciência Política
Faculdade de Ciências Sociais e Humanas da Universidade Nova de Lisboa

 

 

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