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Quatro ônibus em 98 linhas para 60% das usuárias: programa tem alcance reduzido e forte apelo de marketing em Maceió

por | 27 abr, 2026

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Lançado como política de enfrentamento à violência contra a mulher no transporte coletivo, o programa municipal “Massa Mulher” começou a operar com apenas quatro ônibus em Maceió, número que contrasta com a dimensão do sistema: são 98 linhas ativas e cerca de 75 mil passageiros transportados diariamente. De acordo com dados da própria prefeitura, aproximadamente 60% dos usuários são mulheres — público diretamente impactado pela iniciativa.

Os veículos, pintados de rosa e operados por motoristas mulheres, foram distribuídos em quatro linhas com saídas nos terminais Eustáquio Gomes, Clima Bom, Cruz das Almas e Benedito Bentes. Equipados com botão de pânico, os ônibus permitem acionar a Guarda Municipal e a Secretaria da Mulher em situações de risco. A medida foi apresentada pela gestão do então prefeito JHC como resposta aos índices de assédio e violência no transporte público.

A dimensão inicial do programa, no entanto, levanta questionamentos sobre seu alcance. Com apenas quatro veículos em circulação, a política atende uma fração reduzida das usuárias do sistema, o que limita seu impacto diante da escala do problema. A desproporção entre o número de beneficiárias potenciais e a estrutura disponibilizada é apontada como um dos principais pontos de crítica.

Outro aspecto discutido é a apresentação da iniciativa como inédita. Experiências semelhantes já foram adotadas em diferentes países, como Brasil, México, Índia, Japão e Nepal, segundo registros do Banco Mundial. No contexto brasileiro, há precedentes em outras cidades, o que relativiza a ideia de pioneirismo associada ao programa em Maceió.

Mobilidade urbana

Especialistas em mobilidade urbana avaliam que espaços exclusivos podem produzir efeitos pontuais na redução do assédio, especialmente em cenários de superlotação. Estudos realizados no Rio de Janeiro indicam que áreas segregadas chegaram a reduzir pela metade a incidência de assédio físico em determinados contextos. Ainda assim, esse tipo de medida é classificado como paliativo, por não enfrentar as causas estruturais da violência.

Organizações como o ITDP (Institute for Transportation and Development Policy) defendem que políticas de segurança no transporte devem ir além da segregação. Entre as recomendações estão a ampliação da frota para reduzir a lotação, melhoria da iluminação em pontos e terminais, criação de canais eficazes de denúncia, fiscalização contínua e capacitação de operadores e agentes públicos.

Nesse cenário, especialistas destacam que o assédio não se restringe ao interior dos veículos, ocorrendo também em pontos de ônibus, terminais e durante o tempo de espera. A ausência de medidas estruturais mais amplas pode comprometer a efetividade de iniciativas pontuais.

A discussão, portanto, gira em torno da escala e da estratégia adotada. Embora ações voltadas à proteção das mulheres sejam consideradas necessárias, o alcance limitado do programa em sua fase inicial e o destaque dado à sua apresentação pública colocam em debate a capacidade de a iniciativa responder, de forma abrangente, a um problema que afeta a maioria das usuárias do transporte coletivo na capital.

 

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