Por Mácleim Carneiro
Não é de agora que existe uma questão equivocada escalonando o universo da música brasileira. Ao longo do tempo, na medida em que mudanças tecnológicas e, portanto, do comportamento humano, são estabelecidas, nem por isso, conseguem ser de grande valia. Pela inversão de valores, chega a ser um paradoxo! Façamos, pois, uma analogia reversa, com a cena política do ninho de cobras do Congresso Nacional. Lá, no antro das excelências, sobretudo, após a ascensão política da extrema direita, o tal do “baixo clero”, tão bem alcunhado por Ulysses Guimarães, mais do que sempre, tornou-se reduto da mediocridade humana, que repousa tranquila e bem assalariada, só despertando para embolsar lucros pessoais e provincianos.
Pois bem, na cena musical brasileira, também existe uma espécie de baixo clero, porém, ao contrário do Congresso Nacional, cá, a mediocridade não faz morada e nem repousa tranquila, muito menos aufere lucros, posto que bons compositores são atuantes e produtivos, porém, não conseguem chegar à tribuna. Quando muito, são reconhecidos por seus pares, ao passo que o povo brasileiro desconhece suas obras e quem são eles e elas.
Significado Tupi
Dito isto, sob o foco da cena nacional, volto-me ao umbigo da cena aquariana, onde não encontro justificativa plausível para que o novo álbum, de um dos mais sofisticados compositores do aquário, tenha sido ignorado pela mídia local. Digo, porque ao fazer uma rápida pesquisa, não encontrei um só parágrafo sobre o álbum ‘Mundaú’, do compositor alagoano Chico Elpídeo, que já está nas plataformas do streaming de música, desde dezembro de 2025. Chico Elpídeo é um veterano compositor, que jamais poderia ser considerado “baixo clero” em nossa latitude. É um luminar da música alagoana, com uma longa trajetória pavimentada por músicas de extremo bom gosto melódico e harmonias sofisticadas, para sambas e canções aboleradas, que abluíram na mesma fonte que gerou, por exemplo, os sambas do Djavan.

Reprodução
Como os compositores que encontram encanto em lapidar seus trabalhos, a discografia de Chico Elpídeo não é extensa, e ‘Mundaú’ é o sexto álbum de sua carreira, que tem ainda algumas compilações, singles e EPs. Chico Elpídeo, também, é daqueles compositores que conseguem encontrar motivos ufanistas na rasa alagoanidade e seus dotes naturais. Mundaú, a balada que dá título e abre este álbum, é uma ode à laguna Mundaú, que banha os municípios de Maceió, Santa Luzia do Norte e Coqueiro Seco. Aliás, o termo Mundaú é de origem tupi e significa ‘rio dos ladrões’ ou ‘bebedouro dos ladrões’. Não vejo qualquer propósito do significado tupi, em referência ao título deste álbum, porém, vejo total coincidência no fato dele ter nove faixas, assim como a laguna Mundaú tem nove ilhas. Isto, certamente, passou pela cabeça do compositor.
A Mão do Produtor
O álbum ‘Mundaú’, depois do próprio compositor e suas canções, tem assinatura em letras garrafais do músico e multi-instrumentista Van Silva, que assina a direção musical e toca todos os instrumentos, abrindo exceção, apenas, para as participações de Everaldo Borges (sax) e Siqueira Lima (Trompete). Uma curiosidade deste álbum, é que Chico Elpídeo apartou-se, ao menos neste trabalho, da parceria quase que umbilical com o letrista e poeta Pablo de Carvalho. Assim, assumiu a autoria plena das canções, com exceção do bem construído ‘Baião Modelo’, escrevendo letras inteligentes e à altura das melodias impecáveis, que são referências do compositor. A outra curiosidade, é que, talvez, inspirado no xará famoso, o Elpídeo escreveu a canção ‘Sou Dona de Mim’, sob o ponto de vista feminino: “Sou dona de mim…”, canta ele, deixando os comentários para um belo solo de contrabaixo de Van Silva.
Após a abertura, com a balada que dá título ao álbum, temos ‘Em Todos Os Sentidos’, um daqueles boleros modernosos, bem característicos da obra de Chico Elpídeo. O curioso, aqui, é que o ouvinte desatento pode achar que o Sting fez uma participação, com o solo de violão inconfundível da canção Frágil. Porém, espertamente, a mão do produtor retirou a última nota das três primeiras que caracterizam o solo do Sting. Além desse truque, Van Silva conseguiu timbrar o violão de maneira idêntica ao violão do galego inglês. É nessa faixa que acontece a participação do Everaldo Borges, num solo burocrático de sax tenor e, também, do Siqueira Lima, que parece não ter tido espaço para um solo de trompete persuasivo, e não foi muito além da formação no naipe e a dobra do vocalize feito por Chico Elpídeo, ao final da música.
Virtuoso Compositor
Na sequência, ‘Baião Modelo’ (Chico Elpídio e Eliezer Setton) traz a participação de Eliezer Setton, parceiro musical e ideológico de Chico Elpídeo, desde os tempos do Grupo Terra e dos Festivais Universitários. ‘Maceió Meu Xodó’ é uma regravação deste samba bastante conhecido da obra do compositor. Dessa vez, com uma levada nem tanto samba nem tanto bossa. E é aqui que a falta do violão do compositor faz toda a diferença, como de resto nas demais músicas deste valoroso trabalho, porque a mão direita do violão de Chico Elpídeo tem swing próprio e traz a sua assinatura, coisa de quem domina o instrumento. De modo que a canção ‘Vontade’, embora não seja um samba, ratifica o vazio que o violão suwingado poderia suprir, nessa balada funkeada e tão própria dos compositores alagoanos e, principalmente, contemporâneos do Djavan.
A já citada ‘Conheço Você’, estende o tapete para um daqueles sambas surpreendentes e coevos, da lavra de Chico Elpídeo. E, aí, ‘Conflitos’ desfila poderoso, direto daquela fonte, também, já citada. ‘Samba do Absurdo’ arremata essa questão e decreta: Temos aqui um grande e virtuoso compositor! ‘Repente’ encerra os trabalhos com um solo inspirado de viola de dez e uma levada daquelas que, mesmo quem não sabe dançar coladinho, vai sair do imobilismo e querer saber. Neste admirável trabalho, Chico Elpídeo ratifica sua condição de mestre na arte de compor e objeta, definitivamente, o significado que os Tupis atribuíram à palavra que dá título ao seu bem-urdido álbum, pelo tanto de virtude que lhe cabe.
No +, *MÚSICABOAEMSUAVIDA*!!!🎶
Mácleim
Pulo do gato: “Eu não toquei violão, perdi o dedo anular e resolvi não tocar. Me dediquei apenas a montar os arranjos, com o Van Silva.” (Chico Elpídeo)
Ouça aqui.




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