Por Marta Dueñas
O que atrai muitos brasileiros para a Espanha não é apenas a arquitetura, o bom clima ou a fantasia mediterrânea. Muitos dizem ser para estudar, ganhar a vida e viver bem. Tem o idioma próximo, segurança, pela vida nas ruas, pela beleza das cidades, pela ideia de uma Europa mais acolhedora. Tudo isso pesa. Mas não explica tudo. É também a experiência concreta de viver em um país onde saúde pública, transporte, educação, direitos trabalhistas, licenças familiares e proteção social ainda fazem parte de um pacto de cidadania.
Esse pacto não caiu do céu. Ele é resultado de política. De escolhas. De governos, partidos, sindicatos, movimentos sociais e maiorias parlamentares que, ao longo do tempo, decidiram que qualidade de vida não deveria ser privilégio de quem pode pagar.
Segundo estimativas do Itamaraty, mais de 4,9 milhões de brasileiros viviam no exterior em 2023. A Espanha aparece entre os destinos relevantes dessa diáspora. Dados citados pela imprensa brasileira, a partir de informações do governo espanhol analisadas pelo Consulado do Brasil em Madri, indicam que a comunidade brasileira no país passou de cerca de 156 mil residentes oficiais em 2022 para algo próximo de 195 mil em 2025.
É muita gente.
E esse movimento ajuda a iluminar uma discussão política que hoje atravessa a Espanha, mas que interessa diretamente ao Brasil.
No fim do ano passado, o primeiro-ministro Pedro Sánchez divulgou um vídeo de balanço do governo. Na peça, apresentou uma Espanha que, segundo ele, havia melhorado a vida das pessoas “mês a mês”. Entre as conquistas escolhidas como vitrine estavam aumento do salário mínimo, medidas de proteção à moradia, alimentação escolar, licenças familiares, defesa dos serviços públicos, retirada de anúncios ilegais de aluguel turístico, políticas de mobilidade, a Lei ELA e ações de proteção social.
O vídeo tinha um objetivo evidente: mostrar aos espanhóis que o governo entregou resultados. E que muitos destes resultados eram pauta do dia na vida das pessoas no país.
Mas também abriu outra leitura: quem ajudou a construir essas entregas?
Nos últimos meses, partidos e lideranças da esquerda que participam da sustentação do governo espanhol voltaram a reivindicar publicamente seu papel nas políticas mais populares da gestão Sánchez. Sumar, Comuns, Izquierda Unida e Más Madrid lembram que parte importante dessa agenda não nasceu apenas do PSOE, partido do primeiro-ministro, mas da presença de forças à sua esquerda na coalizão.
Yolanda Díaz, ministra do Trabalho, é uma das figuras centrais desse processo. Sua atuação está ligada à valorização do salário mínimo, à reforma trabalhista e à redução da precariedade. Na moradia, a pressão vem de partidos, movimentos urbanos e lideranças que tratam aluguel, turismo e especulação imobiliária como temas de democracia, não apenas de mercado. No consumo e nos direitos sociais, Pablo Bustinduy atua contra abusos de plataformas e do mercado de aluguel turístico. Na saúde, Mónica García, médica e liderança de Más Madrid, representa a defesa da sanidade pública contra a privatização. Na cultura, Ernest Urtasun, dos Comuns, insiste na ideia de cultura como direito, e não como ornamento.
A disputa não é apenas por autoria. É sobre como funcionam governos de coalizão.
A Espanha é governada por uma ampla aliança progressista, com tensões internas, disputas públicas e diferenças reais. Mas essa pluralidade também ajuda a explicar por que o governo consegue produzir políticas sociais em um momento em que boa parte da Europa se desloca para a direita.
Não se trata de idealizar a Espanha. O país tem burocracia, crise de moradia, desigualdades, racismo, precarização e contradições profundas. Quem migra sabe que nenhum destino é paraíso. Mas a experiência espanhola indica que, quando direitos sociais existem, eles tornam a vida menos brutal.

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E isso tem tudo a ver com o Brasil!
À medida que o país se aproxima de um novo ciclo eleitoral, é comum que toda a atenção se concentre na disputa presidencial. Ela é decisiva, claro. Mas não basta. Presidentes vencem eleições; governos precisam de parlamentos para aprovar reformas, orçamento e políticas públicas.
O Brasil também é governado por coalizões. Também convive com Congresso fragmentado, pressões do mercado, ofensiva da direita e disputa permanente sobre a dimensão do Estado. Também sabe que saúde, educação, moradia, transporte, salário e proteção social não avançam apenas com boas intenções. Precisam de voto, maioria, sustentação política e coragem institucional.
A experiência espanhola não ensina o Brasil de cima para baixo. Seria arrogante dizer isso. O Brasil também ensinou muito ao mundo em participação popular, combate à fome, políticas de saúde pública, orçamento participativo e tecnologias sociais vindas do Sul Global. Mas observar a Espanha ajuda a lembrar que países admirados por sua qualidade de vida costumam ter algo em comum: direitos assegurados por política pública.
Quando brasileiros escolhem viver na Espanha, muitas vezes estão escolhendo, ainda que sem formular nesses termos, uma sociedade na qual o Estado continua presente na vida cotidiana. Um sistema no qual o transporte funciona melhor, a saúde pública existe, a cidade pode ser vivida, o cuidado tem alguma proteção legal e o trabalho não está inteiramente entregue à lógica do mercado.

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A pergunta que volta para o Brasil é simples: se admiramos esse tipo de vida, por que tantas vezes votamos sem olhar para quem sustenta ou bloqueia políticas desse tipo?
Em 2026, não estará em jogo apenas a Presidência da República. Estarão em jogo também o Congresso Nacional, os governos estaduais e as assembleias legislativas. São esses espaços que decidem se um projeto de país terá força para sair do discurso e virar lei, orçamento, programa, escola, posto de saúde, transporte, moradia e cuidado.
Votar é escolher governo. Mas é também escolher sustentação.
Talvez a principal lição da experiência espanhola não esteja na Espanha. Está na pergunta que ela devolve ao Brasil. Quando admiramos países que oferecem transporte público eficiente, sistemas universais de saúde, proteção social e mais qualidade de vida, estamos admirando também escolhas políticas feitas ao longo do tempo.
Nenhum desses direitos surgiu por acaso. E nenhum deles permanece de pé sem quem esteja disposto a defendê-los.









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