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Poder, privilégios e a formação de uma nova classe

por | 24 jun, 2026

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Por Geraldo de Majella*

Em 1957, o intelectual iugoslavo Milovan Djilas publicou A Nova Classe, obra em que analisava o surgimento de uma camada privilegiada formada pela burocracia partidária e estatal nos países socialistas. Embora a propriedade privada dos meios de produção tivesse sido abolida, argumentava Djilas, o controle do Estado havia dado origem a uma elite que concentrava poder político, influência econômica e privilégios inacessíveis à maioria da população.

O contexto estudado por Djilas era o dos regimes socialistas do século XX, mas sua reflexão ultrapassa aquele momento histórico. A questão central levantada por ele continua atual: o exercício do poder tende a criar grupos privilegiados que passam a desenvolver interesses próprios, muitas vezes distantes daqueles que justificaram sua chegada ao comando do Estado.

Nas democracias contemporâneas, esse fenômeno pode ser observado sob diferentes formas. O deslumbre com o poder econômico e político costuma se tornar mais visível quando surgem denúncias envolvendo agentes públicos. O acesso a empresários, banqueiros, grandes investidores e círculos de influência cria oportunidades e relações que dificilmente existiriam antes do exercício de um mandato parlamentar ou da ocupação de cargos relevantes nos poderes Executivo, Legislativo ou Judiciário.

Esse processo não é exclusividade da direita, da extrema-direita ou da esquerda. Em diferentes países e momentos históricos, representantes das mais variadas correntes ideológicas foram acusados de utilizar a posição que ocupavam para obter vantagens pessoais, favorecer interesses privados ou construir trajetórias de ascensão social incompatíveis com os compromissos assumidos perante a população.

Milovan Djilas | Divulgação

Muitos agentes públicos ingressam na vida política vindos de profissões respeitáveis, mas sem integrar as classes economicamente dominantes. Com o passar do tempo, alguns passam a frequentar ambientes exclusivos e a adotar padrões de consumo típicos das elites econômicas. Apartamentos de alto padrão, imóveis para familiares, propriedades rurais e outros bens passam a compor um patrimônio que desperta questionamentos sobre sua origem e compatibilidade com os rendimentos declarados.

Em alguns casos, essa transformação vem acompanhada da adoção de hábitos associados à ostentação. Relógios de luxo, joias, carros importados, motocicletas, lanchas, haras e propriedades rurais tornam-se símbolos de status e prestígio. O problema não está na posse desses bens em si, mas na naturalização de mudanças patrimoniais que frequentemente ocorrem à sombra do poder e sem o devido escrutínio público.

Os partidos políticos, por sua vez, demonstram dificuldades para exercer controle efetivo sobre seus membros quando estes alcançam posições de destaque no Estado. Independentemente da matriz ideológica, são raras as organizações capazes de fiscalizar de forma rigorosa a atuação de seus representantes. Não por acaso, investigações envolvendo suspeitas de corrupção, tráfico de influência ou favorecimento indevido atingem partidos de diferentes orientações políticas.

Nesse ambiente, surge a figura do agente público que transforma o mandato em instrumento de intermediação de interesses privados, atuando como uma espécie de despachante de grupos econômicos junto ao Estado. Quando isso ocorre, o compromisso com o interesse coletivo cede espaço à lógica dos privilégios e das relações particulares.

A principal contribuição de Milovan Djilas permanece atual justamente por apontar que nenhuma ideologia está imune à formação de uma nova elite. A história demonstra que o problema não reside apenas nos discursos ou programas políticos, mas na capacidade das instituições de impedir que o poder seja convertido em privilégio permanente. Transparência, fiscalização independente, imprensa livre e participação cidadã continuam sendo os mecanismos mais eficazes para evitar que representantes da sociedade eleitos pelos partidos políticos — muitas vezes transformados em uma “Nova Classe” — envolvidos em práticas de corrupção e outros malfeitos, se distanciem daqueles que deveriam representar e passem a agir como um grupo apartado do interesse coletivo.

*Historiador e jornalista

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