A crise na coleta de lixo em Maceió, agravada nas últimas semanas pela suspensão parcial dos serviços em razão de impasses entre a Prefeitura e empresas terceirizadas, trouxe à tona um problema antigo: a desigualdade na limpeza urbana entre bairros turísticos e comunidades periféricas. A situação é retratada em reportagem dos jornalistas Wanessa Oliveira e Zazo, da Mídia Caeté, que percorreu diferentes regiões da capital e ouviu moradores e especialistas.
Nas ruas da Levada, do Bom Parto e da Vila Brejal, o cenário é de sacolas acumuladas em calçadas, terrenos baldios e até no meio das vias. Para quem vive nessas localidades, o problema vai muito além da crise recente.
Morador da região, Roberto de Almeida afirma que a coleta é irregular há anos. Segundo ele, há semanas em que o caminhão sequer passa pelo bairro.
“Não tem quem aguente. Pegam uma vez por semana e tem vez que não pegam. Por vezes, passa até duas semanas e não pegam esse lixo aí.”
Ele relata ainda que um contêiner existente no local foi retirado e nunca substituído. Para o morador, a solução passa pelo básico: garantir uma coleta regular porta a porta.
Outro morador da Levada, conhecido como Seu Biu, descreve os impactos diretos do acúmulo de resíduos sobre a saúde da população.
“É rato, é barata, é mosca. Você coloca qualquer coisa na mão e as moscas invadem sua mão. Como pode uma coisa dessas?”
A reportagem da Mídia Caeté chama atenção para um contraste evidente na cidade. Enquanto a orla marítima permanece limpa e equipada com contêineres para descarte de resíduos, bairros periféricos convivem diariamente com lixo acumulado e infraestrutura insuficiente.
Para os moradores, a diferença de tratamento evidencia uma prioridade voltada às áreas turísticas.
“Ali é praia para turista, praia para gente rica. Aqui não tem turista, só pessoas humildes, pobres, que precisam dos olhos do prefeito.”
Prefeitura afirma que coleta atende toda a cidade
Procurada pela reportagem, a Autarquia Municipal de Desenvolvimento Sustentável e Limpeza Urbana (Alurb) informou que a coleta domiciliar é realizada de segunda a sábado em toda a cidade e que o serviço não faz distinção entre bairros.
Segundo o órgão, os contêineres instalados na orla atendem visitantes e comerciantes da região, enquanto os equipamentos distribuídos em comunidades são destinados a locais onde os caminhões não conseguem acessar, como grotas e vielas.
Especialistas apontam falhas estruturais
Para o historiador e jornalista Geraldo de Majella, ouvido pela reportagem, a diferença na limpeza urbana reflete uma desigualdade histórica.
Segundo ele, enquanto a orla recebe atenção permanente por ser o cartão-postal da cidade, bairros populares convivem há anos com a precariedade do serviço, situação que não teria sido provocada apenas pela crise atual.
O arquiteto e urbanista Dilson Ferreira defende investimentos em centrais de reciclagem, ecopontos e cooperativas para reduzir o volume de resíduos descartados irregularmente e transformar o lixo em oportunidade de geração de renda.
A representante do Movimento Nacional de Catadoras e Catadores de Materiais Recicláveis (MNCR), Vânia Gomes, afirma que o problema se agravou porque muitas comunidades já enfrentavam deficiência na coleta antes da crise recente.
Segundo ela, a falta de recolhimento favorece o descarte em rios e canais, aumentando riscos ambientais e sanitários.
A geógrafa Flávia Alessandra, que atua com educação ambiental e assistência técnica a cooperativas de reciclagem, destaca que o problema também está relacionado à ausência de infraestrutura pública.
Ela afirma que bairros como Levada, Vergel, Ponta Grossa e Trapiche possuem poucos locais adequados para o descarte de resíduos volumosos, como móveis e eletrodomésticos. Com isso, esses materiais acabam sendo abandonados em pontos improvisados, contribuindo para o entupimento de canais e agravando alagamentos durante o período chuvoso.
Na avaliação da pesquisadora, a distribuição desigual de equipamentos públicos e serviços de limpeza caracteriza um caso de racismo ambiental, conceito utilizado para descrever situações em que populações socialmente vulneráveis são as mais expostas aos impactos da degradação ambiental e da deficiência dos serviços públicos.
Mais do que uma crise pontual, a situação da coleta de lixo em Maceió evidencia um desafio estrutural. Para moradores, pesquisadores e representantes de cooperativas, a solução passa não apenas pela regularização do serviço, mas também por investimentos em saneamento, educação ambiental, coleta seletiva e ampliação da infraestrutura nas áreas mais vulneráveis da capital.






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