Por Flávia Lima
18 faixas e pouco mais de 12 minutos de duração. Assim é “Refrãos – Esboços de canções que podem acontecer ou não”, novo álbum do cantor e compositor Vitor Pirralho, que propõe ao ouvinte uma reflexão sobre a forma como a música é criada e consumida nos dias atuais.
Disponível nas plataformas digitais, o álbum apresenta um formato inédito: é composto exclusivamente por refrãos, trechos e esboços de canções. Em vez de músicas completas, Vitor Pirralho apresenta fragmentos de ideias musicais e transforma aquilo que normalmente seria considerado um rascunho na própria obra final.
O conceito nasceu de registros acumulados ao longo dos anos em anotações e gravações de voz feitas no celular do artista. Ideias que poderiam ter se transformado em canções completas, mas permaneceram guardadas, foram revisitadas e selecionadas para dar forma ao projeto.
A proposta dialoga diretamente com o ritmo acelerado da cultura digital. Em um cenário marcado por vídeos curtos, mudanças rápidas de conteúdo e disputas constantes pela atenção do público, “Refrãos” transforma essa lógica em linguagem artística. As faixas são tão breves que, muitas vezes, a próxima começa antes mesmo que o ouvinte tenha tempo de pensar em trocar de música.
Com formação em Letras e uma trajetória de 27 anos na cena cultural, Vitor Pirralho utiliza a música para discutir questões relacionadas ao tempo, ao consumo e à atenção. Em “Refrãos”, a rapidez imposta pelas plataformas digitais deixa de ser apenas tema e passa a determinar a própria estrutura da obra.
O disco está disponível gratuitamente nas principais plataformas de streaming de música e podem ser ouvidas gratuitamente.
Confira a entrevista exclusiva com Vitor Pirralho sobre o novo projeto autoral.
082– Você parte de uma ideia pouco convencional: transformar rascunhos em obra. Em um mercado que costuma valorizar o produto “acabado”, por que foi importante defender justamente o inacabado como linguagem artística?
VP – Penso que o mercado que costuma valorizar o produto acabado quase não existe mais, o mercado atual é o virtual, e nele o que se prioriza é justamente aquilo que se propõe a ser rápido, muitas vezes inacabado mesmo. E é aí que entra minha ideia. Refrãos é uma obra que propõe dialogar com essa nova lógica, mas como um diálogo crítico.
082 – “Refrãos” nasce de fragmentos, de ideias interrompidas e de músicas que nunca chegaram ao formato tradicional. Você enxerga esse álbum como uma crítica à necessidade de concluir tudo ou como uma forma de mostrar que algumas ideias são mais potentes quando permanecem abertas?
VP – Como eu disse na resposta anterior, este álbum reproduz em seu formato a forma de consumir arte desta era tecnológica, da pressa, da ansiedade, mas tal reprodução não se traduz em manada, fazer o que todo mundo está fazendo, é o contrário, a ideia é abrir uma discussão crítica, sem apontar o que é certo ou errado, é apenas um convite a discussão. Sobre ideias abertas, acredito que toda obra de arte, mesmo que completa, finalizada, em formato tradicional ou não, é sempre uma obra aberta a interpretações subjetivas de cada indivíduo que a alcança. E é por isso que é arte.
082 – Os áudios que deram origem ao disco ficaram guardados por anos. Quando você voltou a esse material, o que fez um rascunho atravessar o tempo e continuar dizendo algo relevante, enquanto outros permaneceram apenas como esboços?
VP – Bom, eu garimpei. Dentre tantas coisas que encontrei, selecionei as joias, aquelas que acreditei que eram materializáveis e, também, que dialogavam entre si, de modo que eu pudesse engendrar uma espécie de enredo, ou contexto, ou conceito, na obra como um todo, pensando no formato álbum, por menos tradicional que ele se apresente neste formato fragmentado, mas ainda é um álbum.
082 – Em “Refrãos”, o ouvinte precisa preencher lacunas, imaginar continuações e aceitar que talvez não exista uma resposta definitiva. Até que ponto esse disco transfere parte da criação para quem escuta?
VP- Toda obra de arte é uma peça em aberto para ser interpretada subjetivamente, cada indivíduo que se conecta com a obra é coautor, cada um tem seu entendimento, suas dúvidas, suas paixões e suas conclusões. A obra Refrãos não é diferente, mas chama mais a atenção para isso pelo fato de propositalmente estar incompleta, o que acaba sendo um convite natural ao exercício imaginativo de como seriam as letras de cada um daqueles refrãos.
082 – Depois de ouvir o álbum, o que você considera uma experiência bem-sucedida? Que as pessoas saiam cantarolando os refrãos, mesmo incompletos, ou que questionem a nossa relação com a ideia de obra pronta e de consumo imediato da música?
VP – A primazia, pelo menos a minha, é de que Refrãos seja uma obra que suscite reflexão e discussão sobre como consumimos arte atualmente, mas cada um faz dela o que bem entender, e se saírem cantarolando os refrãos, acho que seria bem legal também, por que não? Entretenimento é uma parte da arte.







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