sábado, 18 julho 2026
Nublado
Maceió
24°C
Nublado
Nublado
Maceió
24°C
Nublado

Do ‘caçador de marajás’ ao ‘gestor instagramável’: as conexões entre Collor e JHC na política alagoana

por | 18 jul, 2026

ESPALHE A NOTÍCIA
Link copiado para o Instagram!

Por Geraldo de Majella*

Fernando Collor e João Henrique Caldas (JHC) surgiram na política alagoana em momentos históricos distintos, separados por mais de quatro décadas, mas apresentam um ponto de aproximação: ambos construíram suas imagens públicas a partir do discurso da renovação, da crítica às estruturas tradicionais de poder e de uma comunicação direta com o eleitor. Em épocas diferentes, utilizaram os meios disponíveis para transformar suas narrativas políticas em marcas pessoais.

Collor chegou ao governo de Alagoas em 1987 como um jovem político que se apresentava como representante de uma nova geração. Sua principal bandeira era o combate aos privilégios das elites política e econômica — setores dos quais ele próprio era originário — e às estruturas tradicionais de poder. A imagem do “caçador de marajás”, construída a partir de denúncias contra altos salários de alguns servidores públicos, tornou-se uma poderosa peça de marketing político e ultrapassou as fronteiras de Alagoas.

A construção dessa imagem contou com uma estrutura de comunicação decisiva. A Organização Arnon de Mello (OAM), grupo empresarial de sua família, reunia jornal, rádio e televisão, incluindo uma retransmissora da Rede Globo, e teve papel importante na consolidação de sua imagem pública em Alagoas. Nacionalmente, sua exposição na televisão ampliou sua projeção política e contribuiu para sua eleição à Presidência da República em 1989.

JHC, décadas depois, também construiu sua trajetória associada à ideia de mudança. Eleito prefeito de Maceió em 2020, apresentou-se como alternativa aos grupos tradicionais e vinculou sua imagem à modernização administrativa, à eficiência da gestão e ao uso intensivo das redes sociais, especialmente o Instagram. Diferentemente de Collor, cuja principal vitrine era a televisão, JHC utiliza o ambiente digital como ferramenta central de comunicação política.

A comparação entre os dois passa pela forma como suas imagens foram construídas. Collor se apresentou como o político que enfrentava os “marajás” e a velha política; JHC associa sua imagem à inovação, à gestão moderna e à proximidade com o eleitor por meio das plataformas digitais. Em ambos os casos, a comunicação ocupa papel estratégico na construção de uma narrativa de renovação.

Esse paralelo não significa afirmar que as trajetórias sejam iguais, mas observar como dois políticos alagoanos, em períodos distintos, recorreram a estratégias semelhantes para conquistar apoio popular. A construção da imagem pública, porém, convive com o julgamento da história sobre os resultados das administrações e as consequências das decisões tomadas.

Collor iniciou sua trajetória política como prefeito de Maceió (1979-1982), governou Alagoas (1987-1989) e chegou à Presidência da República. Sua passagem pelo poder deixou marcas profundas: na Prefeitura de Maceió, sua gestão provocou a ruína das finanças municipais, resultado do empreguismo eleitoral e do inchaço da folha de pagamento; no governo estadual, ficou marcado pelo chamado Acordo dos Usineiros, apontado como o fator que levou à insolvência das finanças estaduais. O acordo permitiu que os usineiros deixassem de pagar impostos estaduais por mais de uma década, provocando graves impactos sobre a arrecadação pública de Alagoas. Na Presidência da República, ficou marcado pelo confisco da poupança no Plano Collor. Atualmente, cumpre prisão domiciliar em decorrência da condenação por corrupção pelo Supremo Tribunal Federal (STF).

JHC, por sua vez, enfrenta fortes questionamentos sobre sua gestão em Maceió. O acordo firmado com a Braskem, empresa responsável pelos crimes socioambientais provocados pela mineração de sal-gema, destinou R$ 1,7 bilhão ao município, mas a aplicação dos recursos e os compromissos financeiros assumidos para as próximas administrações são alvo de críticas.

A gestão de JHC deixa como marca uma série de problemas administrativos: atrasos de pagamentos a fornecedores e empresas terceirizadas, crise na coleta de lixo, com acúmulo de resíduos pela cidade, e centenas de obras paralisadas por falta de recursos e planejamento. Soma-se a esse cenário o investimento de R$ 117 milhões do Instituto de Previdência dos Servidores Públicos de Maceió (IPREV), autarquia municipal, em letras financeiras do Banco Master, operação que gerou questionamentos sobre a aplicação dos recursos previdenciários. Ao transferir o comando da prefeitura para seu aliado Rodrigo Cunha, JHC deixa uma “herança maldita”, marcada por dificuldades financeiras e desafios administrativos para a próxima gestão.

As trajetórias de Collor e JHC revelam um ponto de aproximação: ambos construíram imagens públicas associadas à renovação política e à promessa de mudança. Entretanto, o legado deixado por suas gestões ficou marcado pelo comprometimento das finanças públicas e pela deterioração dos serviços oferecidos à população.

*Historiador e jornalista

0 comentários

Enviar um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *