sábado, 18 julho 2026
Nublado
Maceió
24°C
Nublado
Nublado
Maceió
24°C
Nublado

Centenário de Jayme Miranda: a trajetória de um intelectual orgânico da classe trabalhadora

por | 18 jul, 2026

ESPALHE A NOTÍCIA
Link copiado para o Instagram!

 

Por Geraldo de Majella*

No dia 18 de julho, data em que se celebra o centenário de nascimento do advogado e jornalista Jayme Amorim de Miranda (1926–1975), reverenciamos a memória de um dos alagoanos vítimas da repressão política durante a ditadura militar brasileira. Nascido em Maceió, em uma família de dez irmãos, Jayme era filho de Manoel Simplício de Miranda e Hermé Amorim de Miranda. Casou-se com Elza Rocha de Miranda, com quem constituiu uma família de quatro filhos: Olga Tatiana, Yuri Patrice, Jayme e André Rocha de Miranda.

A trajetória política de Jayme Amorim de Miranda teve início durante a Segunda Guerra Mundial, em 1941, segundo depoimento de seu irmão Nilson Amorim de Miranda. Ainda estudante secundarista, participou das manifestações estudantis em Maceió contra o nazifascismo, aproximando-se da Juventude Comunista, porta de entrada para sua militância no Partido Comunista Brasileiro (PCB).

Elza com Jayme Miranda, no Rio de Janeiro, ao lado dos filhos Yuri e Jayme

Em 1950, começou a escrever no jornal A Voz do Povo e, posteriormente, assumiu a função de diretor responsável pela publicação. No mesmo período, passou a exercer atividades de dirigente no Comitê Regional do PCB. Em 1960, durante o V Congresso do partido, realizado no Rio de Janeiro, foi eleito para o Comitê Central, consolidando sua atuação na direção nacional da organização.

Como dirigente nacional do PCB, Jayme Miranda participou de missões internacionais que marcaram sua trajetória política. Em 1961, como secretário político do partido em Alagoas, integrou uma comitiva que se reuniu reservadamente com Fidel Castro e Che Guevara, em Cuba, e posteriormente com Blas Roca, secretário-geral do Partido Comunista de Cuba (PCC). Em 1963, participou da primeira delegação oficial do PCB à China, ao lado do dirigente comunista gaúcho Jover Teles, onde manteve encontros com dirigentes do Partido Comunista da China e teve uma reunião reservada com Mao Tsé-Tung, líder da Revolução chinesa.

De 1960 a 1975, Jayme Amorim de Miranda integrou o Comitê Central (CC) e a Comissão Executiva do PCB. Fez parte do núcleo dirigente que se opôs à adoção da luta armada como estratégia de enfrentamento à ditadura militar, posição que provocou a ruptura interna do partido e o afastamento de importantes quadros políticos, que passaram a organizar grupos de resistência armada.

A posição defendida pelo PCB priorizava a organização da luta de massas e a construção de uma Frente Democrática, reunindo forças políticas que se encontravam no campo da oposição à ditadura, inclusive setores que inicialmente apoiaram o regime, mas que posteriormente divergiram, mudaram de posição e ingressaram no MDB.

Jayme Miranda e Elza Rocha de Miranda no dia do casamento

Jayme Miranda foi um dos articuladores, no PCB, dessa política de frente democrática que, progressivamente, ampliou sua presença institucional com a eleição de parlamentares e governadores, contribuindo para a derrota política da ditadura e para o processo de redemocratização do país.

Sequestrado pelo DOI-CODI em 4 de fevereiro de 1975, na cidade do Rio de Janeiro, foi levado para uma boate desativada em Itapevi (SP), utilizada clandestinamente como centro de tortura e execução de dirigentes do Partido Comunista Brasileiro (PCB). Ali foi barbaramente torturado e assassinado.

Não há crime perfeito. Quarenta e nove anos depois, em 2024, o jornalista Marcelo Godoy revela, em seu livro Cachorros (Alameda, 2024), que Severino Theodoro Melo, integrante da direção nacional do PCB, havia traído a organização ao fornecer informações que contribuíram para a prisão, a tortura e a morte de dirigentes do partido, companheiros de militância por décadas.

Entre março de 1974 e setembro de 1975, a Operação Radar, conduzida pelos órgãos de repressão da ditadura militar com o objetivo de desarticular o Partido Comunista Brasileiro (PCB), resultou no assassinato e desaparecimento de parte expressiva de sua direção nacional. Entre as vítimas estavam os integrantes do Comitê Central David Capistrano da Costa, José Roman, Walter de Souza Ribeiro, João Massena Melo, Luís Ignácio Maranhão Filho, Élson Costa, Hiran de Lima Pereira, Jayme Amorim de Miranda, Itair José Veloso, Nestor Vera, Orlando da Silva Rosa Bomfim Júnior e José Montenegro de Lima (Magrão). A eliminação sistemática desses dirigentes representou um dos mais duros golpes desferidos pela ditadura contra o PCB, comprometendo sua estrutura organizativa e sua capacidade de atuação política clandestina.

Jayme Miranda, em pé e de bigode, junto à bandeira, ao final do V Congresso do PCB.

As pesquisas realizadas nas últimas décadas sobre a história de Alagoas têm revelado a importância do Partido Comunista Brasileiro (PCB) na organização dos trabalhadores, na construção dos sindicatos urbanos e rurais e na formação de intelectuais revolucionários. Desde sua fundação, em 1924, até o golpe militar de 1964, o partido teve uma composição social majoritariamente formada por trabalhadores, artesãos, operários, portuários e ferroviários, contando também com a participação de integrantes da pequena burguesia, funcionários públicos, estudantes e profissionais liberais.

Entre 1924 e 1964, destacaram-se intelectuais como Alberto Passos Guimarães, dirigente do PCB na década de 1930; André Papini Góis, na década de 1940; e Jayme Amorim de Miranda, que exerceu papel de liderança no partido desde a década de 1950 até 1965, quando se transferiu de Alagoas para o Rio de Janeiro.

A trajetória de Jayme Miranda como dirigente político foi marcada por um paciente trabalho de organização do PCB. Foi um verdadeiro artesão da construção partidária, atuando nas bases, nas fábricas, nos sindicatos e no interior do estado, dedicando-se ao fortalecimento da presença do partido entre os trabalhadores.

Jayme Miranda ao lado de Mao Tsé-Tung, líder chinês, em Pequim, 1963

Jayme Miranda foi um intelectual orgânico, na acepção formulada por Antonio Gramsci, fundador do Partido Comunista Italiano. Para o pensador italiano, cada classe social cria seus próprios intelectuais, responsáveis por conferir organização, consciência e direção política ao grupo social que representam. Mais do que produtores de conhecimento, esses intelectuais atuam na formação de dirigentes, na difusão de uma concepção de mundo e na construção de organizações capazes de modificar a realidade.

Essa foi uma das principais contribuições de Jayme Miranda. Sua militância esteve voltada para a organização do Partido Comunista Brasileiro (PCB), a formação de militantes e a difusão do marxismo entre o operariado fabril, o campesinato, as camadas médias e os estudantes. Seu trabalho cotidiano fez dele não apenas um dirigente partidário, mas um intelectual orgânico, no sentido gramsciano: um militante que articulou ação política e formação de quadros na construção de uma concepção de mundo e de atuação coletiva.

No centenário de seu nascimento, o jornalista Jayme Miranda deve ser lembrado como um dos mais influentes intelectuais das classes subalternas em Alagoas no século XX. Sua trajetória também deve ser reconhecida como a de um patriota, vítima da violência praticada pelo Estado brasileiro durante a ditadura militar.

*Historiador, jornalista e ex-militante do PCB

0 comentários

Enviar um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *