Por Carlos Vargas*
Vivemos tempos paradoxais. Nunca a humanidade dispôs de tantos meios para comunicar, viajar, conhecer outras culturas e partilhar conhecimento. Nunca tivemos acesso tão imediato a outras geografias, a outras línguas, a outras formas de vida. E, no entanto, o medo e o ódio parecem regressar ao centro da vida pública. O medo da diferença, do estrangeiro, do desconhecido. O receio de quem pensa de forma diferente, acredita noutra religião, fala outra língua ou vive segundo outros valores. Ao mesmo tempo, multiplicam-se discursos de intolerância que procuram transformar a diversidade em ameaça e a complexidade em confronto.
O medo é uma emoção profundamente humana. Sem ele, dificilmente os nossos antepassados teriam sobrevivido. O problema surge quando o medo deixa de ser uma resposta a perigos concretos e se transforma numa lente através da qual passamos a interpretar o mundo. Como observou o sociólogo Zygmunt Bauman em Liquid Fear (2006), as sociedades contemporâneas vivem sob a condição de um medo difuso e permanente – um medo líquido –, alimentado por incertezas económicas, por transformações tecnológicas, por crises ambientais e por mudanças culturais aceleradas. Quando não compreendemos plenamente as causas dessas inquietações, torna-se tentador procurar culpados. Nessas circunstâncias, o medo pode transformar-se em ódio.
Ao longo da história, a literatura, a pintura e a música ajudaram-nos a compreender este processo. Mais do que simples formas de entretenimento, as artes constituem espaços de reflexão sobre aquilo que somos, sobre as nossas fragilidades e sobre a forma como nos relacionamos com os outros. Em muitos casos, oferecem também respostas éticas às tentações da intolerância e da exclusão.
O outro como ameaça: literatura e pintura
A literatura tem sido particularmente importante na exploração dos mecanismos que transformam a diferença em ameaça. Em Frankenstein (1818), Mary Shelley constrói uma das mais poderosas metáforas da modernidade. A criatura não é inicialmente rejeitada pelos seus actos, mas pela sua aparência. O medo do diferente conduz à exclusão e, posteriormente, à violência. Shelley sugere que a verdadeira monstruosidade não reside necessariamente naquele que é diferente, mas na incapacidade de reconhecer a humanidade do outro.
Mais de um século depois, George Orwell aprofundaria esta reflexão em 1984 (1949). O romance mostra como os regimes autoritários dependem da fabricação permanente do medo. O poder constrói inimigos, reais ou imaginários, para justificar a vigilância, a repressão e o controlo social. O ódio deixa então de ser uma emoção espontânea para se tornar numa ferramenta política cuidadosamente organizada. Orwell recorda-nos que o medo não limita apenas a liberdade; também destrói a capacidade de pensar criticamente.
Na literatura brasileira, estas questões assumem uma dimensão social particularmente intensa. Em Quarto de Despejo (1960), Carolina Maria de Jesus oferece um testemunho extraordinário sobre a pobreza, a fome e a invisibilidade. O medo que atravessa as páginas do livro não é o medo do outro, mas o medo quotidiano da sobrevivência. A autora mostra como a exclusão social produz formas subtis de desumanização, transformando milhões de pessoas em presenças quase invisíveis no espaço público.
Também Machado de Assis, em O Alienista (1881/1882), tinha explorado os mecanismos através dos quais as sociedades definem quem pertence e quem deve ser excluído. Com a ironia que o caracteriza, Assis expôs a fragilidade das fronteiras entre normalidade e diferença, antecipando debates contemporâneos sobre o preconceito, a intolerância e o controlo social.
Por sua vez, Jorge Amado, em Capitães da Areia (1937), confrontou diretamente os medos e os preconceitos dirigidos aos jovens marginalizados. Aqueles que a sociedade vê como ameaça surgem no romance como seres humanos complexos, capazes de amizade, sofrimento, solidariedade e sonho. A literatura torna-se, assim, um exercício de empatia, desafiando o leitor a olhar para além dos estereótipos.
Esta tradição prolonga-se na literatura brasileira contemporânea. Em Um Defeito de Cor (2006), Ana Maria Gonçalves revisita a história da escravatura através da trajetória de Kehinde, revelando como o medo e a violência sustentaram sistemas de dominação durante séculos. Em Torto Arado (2019), Itamar Vieira Junior mostra a persistência das desigualdades herdadas do passado colonial, enquanto O Avesso da Pele (2020), de Jeferson Tenório, confronta o leitor com as consequências do racismo estrutural na sociedade brasileira actual. Apesar das diferenças entre estas obras, todas convergem numa mesma ideia: o ódio prospera quando o outro deixa de ser reconhecido como semelhante.
Se a literatura nos ajuda a compreender os mecanismos da exclusão, a pintura torna visíveis os seus efeitos. Poucos artistas representaram de forma tão intensa a violência humana como Francisco de Goya. Na série Os Desastres da Guerra (1810-1815), o pintor espanhol abandonou qualquer idealização dos conflitos armados para mostrar corpos mutilados, sofrimento e brutalidade. Não existem heróis. Apenas vítimas.
Essa mesma denúncia encontra uma expressão ainda mais universal em Guernica (1937), de Pablo Picasso. Concebida como resposta ao bombardeamento da cidade basca durante a guerra civil espanhola, a obra tornou-se uma das mais poderosas imagens do século XX. Os corpos fragmentados, os rostos dilacerados e o caos visual recordam-nos que o ódio colectivo tem sempre consequências humanas concretas.
No Brasil, Candido Portinari ofereceu uma contribuição igualmente significativa para esta reflexão. Em Os Retirantes (1944), os rostos marcados pela fome e pela pobreza testemunham formas de violência menos visíveis, mas igualmente devastadoras. A exclusão social aparece inscrita nos corpos, transformando a pintura numa denúncia silenciosa da injustiça.
Mais recentemente, Adriana Varejão tem vindo a aprofundar esta reflexão a partir da memória histórica brasileira. Em séries como Línguas e Cortes (1997-1998), Azulejões (2000) e Ruínas de Charque (2000-2003), as imagens de feridas, fissuras e superfícies rasgadas funcionam como metáforas das marcas deixadas pela colonização, pela escravatura e pela violência histórica. A artista recorda-nos que o medo e o ódio não desaparecem através do esquecimento. Pelo contrário, exigem memória, reconhecimento e reflexão crítica.
Canções contra o medo
A música, por sua vez, possui uma capacidade singular para transformar emoções individuais em experiências colectivas. Ao contrário de outras formas artísticas, cria comunidades temporárias de escuta e de identificação, aproximando pessoas que talvez nunca se encontrassem noutros contextos.
No plano internacional, Blowin’ in the Wind (1963), de Bob Dylan, e Imagine (1971), de John Lennon, tornaram-se símbolos dessa tradição. Dylan questionou a normalização da guerra, da discriminação e da injustiça através de perguntas que permanecem sem resposta definitiva. Lennon convidou-nos a imaginar um mundo menos dividido por fronteiras, nacionalismos e antagonismos religiosos. Ambas as canções sugerem que a convivência humana pode ser pensada para além das divisões que frequentemente consideramos inevitáveis.
No Brasil, a música popular assumiu frequentemente uma função semelhante. Durante a ditadura militar, muitos artistas utilizaram a canção como forma de resistência democrática. Apesar de Você (1978), de Chico Buarque, tornou-se um símbolo de esperança perante a censura e a repressão, mostrando que a arte pode preservar a liberdade mesmo em contextos autoritários.
Milton Nascimento acrescentou a esta tradição uma profunda celebração da dignidade humana. Em Maria, Maria (1978), a coragem dos que enfrentam dificuldades sem abandonar os seus sonhos surge como uma afirmação de resistência perante a adversidade. A canção recorda que a esperança não depende da ausência de sofrimento, mas da capacidade de continuar a viver e a lutar apesar dele.
Uma mensagem semelhante atravessa Andar com Fé (1982), de Gilberto Gil. A fé evocada por Gil ultrapassa o campo religioso e assume a forma de confiança na vida, nos outros e no futuro. Num tempo marcado pela incerteza, a canção oferece uma resposta simples e poderosa ao medo: a confiança.
Mais recentemente, Diáspora (2017), dos Tribalistas, trouxe para o centro da reflexão musical as questões da migração, da intolerância e do desejo de pertença. Ao lembrar que por detrás das estatísticas existem vidas humanas concretas, a canção devolve rosto e voz àqueles que frequentemente são reduzidos a números ou a categorias abstratas.
A esperança como resposta
Mas será inevitável viver sob o domínio destas emoções? A arte sugere precisamente o contrário. A literatura, a pintura e a música não eliminam o medo ou o ódio. O que fazem é impedir que eles se tornem as únicas formas possíveis de olhar o mundo. Ao criarem espaços de imaginação, memória e empatia, as artes ampliam a nossa capacidade de compreender o outro e de reconhecer a sua humanidade.
Talvez seja por isso que a frase de João Guimarães Rosa em Grande Sertão: Veredas (1956) continua tão actual: “a vida quer da gente é coragem”. Não a coragem dos heróis ou dos vencedores, mas a coragem quotidiana de não deixar que o medo determine as nossas escolhas.
Num mundo cada vez mais polarizado, esta é uma lição essencial. As sociedades democráticas não se constroem sobre a eliminação das diferenças, mas sobre a capacidade de conviver com elas. O desafio contemporâneo não consiste em abolir o medo, mas em impedir que ele seja transformado em ódio.
E é precisamente aqui que os exemplos brasileiros reunidos ao longo desta crónica adquirem um significado especial. Carolina Maria de Jesus dá voz aos invisíveis. Jorge Amado devolve humanidade aos marginalizados. Ana Maria Gonçalves, Itamar Vieira Junior e Jeferson Tenório recuperam memórias silenciadas e expõem desigualdades persistentes. Portinari pinta os esquecidos. Adriana Varejão revela as feridas ocultas da história. Chico Buarque canta a liberdade, Milton Nascimento celebra a coragem e Gilberto Gil afirma a esperança.
Todos eles nos lembram a mesma verdade fundamental: a humanidade não se constrói contra os outros, mas com os outros. O medo e o ódio fazem parte da experiência humana, mas não definem o seu horizonte. A compreensão, a solidariedade, a imaginação e o cuidado também fazem parte daquilo que somos enquanto seres humanos. Assim sendo, talvez seja nessa capacidade de transformar a diferença em convivência que reside a mais importante resposta aos desafios do nosso tempo.
Lisboa, 01 de Agosto de 2026
*Doutor em Ciência Política
Faculdade de Ciências Sociais e Humanas da Universidade Nova de Lisboa












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