Por João Capiberibe*
Permita-me descrever o cenário e os personagens da história que vou contar. Eu e Janete estávamos sentados na primeira fila do teatro superlotado, bem à nossa frente, num palco baixinho, quase na altura do meu nariz — não entendi bem por quê, já que por ali desfilariam estrelas cintilantes da política nacional. E, no entanto, aquele palco transpirava nivelamento e simplicidade.
Eu estava ali, bem na frente, vendo tudo de perto, ouvindo com atenção, vendo a história acontecer, esperando o discurso do representante do meu partido na chapa e, claro, esperando a cereja do bolo: o candidato a presidente.
Lembrei-me de quatro anos atrás, escolhido em convenção: ouvi, a contragosto e pela primeira vez, o discurso do mais recente convertido ao socialismo, Geraldo Alckmin, carimbado de “picolé de chuchu” pelos adversários políticos, à esquerda e à direita. Ele acabara de se filiar ao PSB, e ali estávamos para ungi-lo como candidato a vice na chapa presidencial de Lula.
Naquele dia, Geraldo Alckmin iniciou sua fala para uma plateia apática, cuja expectativa não era ouvi-lo, mas sim aquele que, depois de 581 dias preso em Curitiba, emergia empolgando multidões. Aquela plateia, inclusive eu, tinha opinião formada a seu respeito, e ele sabia disso. No entanto, o que parecia desabrido foi ganhando tempero, a atenção do público foi crescendo, o silêncio para ouvi-lo se impôs, e, ao recomendar incluir Lula com chuchu no cardápio do povo brasileiro, a plateia o aplaudiu de pé.
Quatro anos depois, o evento se repetiu. Dessa vez foi diferente: Geraldo Alckmin foi recebido com entusiasmo, e calorosamente aplaudido do começo ao fim do discurso. Otimista e bem-humorado, fez um balanço dos avanços dos últimos quatro anos, em que o marisco e o legume viraram assunto cotidiano na vida dos brasileiros.
Finalmente, o mestre de cerimônias anunciou a estrela da noite: o Presidente da República, Luiz Inácio Lula da Silva. Eu estava bem próximo daquele palco, a poucos metros de um personagem da história do meu país e da minha própria história. Sim, desde que nos conhecemos em 1989 — eu recém-empossado prefeito de Macapá, ele em campanha para a presidência da República —, não mais nos perdemos de vista. Contrariando a que alguns pensam, nem sempre estivemos do mesmo lado. Mas divergências à parte, naquele dia do vídeo, Lula brincava com o amigo que, sentado ao lado de Janete, presenciava um momento histórico: sua oitava candidatura à presidência da República. Lembro da primeira, em 1989 — eu prefeito e Janete vereadora, recebemos Lula de braços abertos, fizemos sua campanha. Não deu certo! Mas agora, o que me passou pela cabeça ao mandar apenas três garrafinhas de vinho de açaí para o presidente!
Já faz um tempinho que a gente se reencontra, principalmente na hora do sufoco — como foi o caso da minha visita a São Bernardo no dia em que foi executado seu mandado de prisão, e mais tarde, quando fui visitá-lo na cela da PF em Curitiba.
Nesse dia do vídeo, 29 de julho, Lula discursava para uma plateia atenta, quando, de repente, fez um parêntese e me cobrou os vinhos. Pela segunda vez — a primeira foi na COP —, Lula valorizava e reconhecia publicamente o nosso trabalho. Eu e Janete agradecemos.
Mas não termina aqui. Não dá pra esquecer o final do discurso de Lula, quando ele disse: “vinho, quanto mais velho, melhor” — e concluiu puxando Alckmin pelo braço: “Aqui estamos, Lula e Alckmin, duas garrafas de vinho governando o Brasil.”
*Prefeito de Macapá, governador e senador do Amapá. Autor da Lei Complementar 131/2009, a Lei da Transparência. Empreendedor da economia da floresta em pé.






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