terça-feira, 14 julho 2026
Céu limpo
Maceió
23°C
Céu limpo
Céu limpo
Maceió
23°C
Céu limpo

Centro de Maceió: prédios vazios e pessoas sem moradia — Parte 1

por | 14 jul, 2026

ESPALHE A NOTÍCIA
Link copiado para o Instagram!

Por Dilson Ferreira*

Enquanto imóveis permanecem fechados ou subutilizados, a cidade convive com déficit habitacional, vulnerabilidade social e crescimento das ocupações precárias.

Desde 2023, venho alertando para a quantidade de prédios abandonados, fechados ou subutilizados em Maceió, especialmente na região central da capital.

A contradição é evidente: enquanto imóveis permanecem sem uso, milhares de famílias ainda não têm acesso a uma moradia adequada.

Levantamento divulgado pela Aliança Comercial de Maceió apontou, em 2023, a existência de aproximadamente 40.a 60 imóveis abandonados no Centro.

O problema é justamente esse: Maceió ainda não dispõe de um inventário público seguro, georreferenciado e permanentemente atualizado que apresente a situação física, jurídica, tributária, estrutural e funcional de cada imóvel. Sem essa base, é difícil identificar quais prédios podem ser recuperados, quais apresentam riscos e quais instrumentos legais devem ser aplicados.

Enquanto dezenas de edificações permanecem sem utilização adequada, o bairro do Centro possui pouco mais de 2 mil moradores, segundo o Censo de 2022. É uma população muito pequena para uma área que já dispõe de transporte coletivo, comércio, serviços, escolas, hospitais, mercados, bancos, espaços culturais, equipamentos religiosos e prédios públicos.

Já em toda Alagoas, o déficit habitacional quantitativo era estimado em 103 mil unidades em 2022, das quais 81 mil estavam nas áreas urbanas e 22 mil na zona rural. Os números são da Fundação João Pinheiro e foram registrados pelo Ministério Público de Alagoas, em 2026, ao instaurar um procedimento para acompanhar a política habitacional estadual.

Em relação a Maceió, ainda é necessário divulgar um dado municipal atualizado, produzido com a mesma metodologia. A ausência dessa informação reforça a necessidade de uma base pública que reúna o déficit habitacional, a inadequação das moradias, a localização das famílias e as condições dos imóveis vazios ou subutilizados. Resumindo não há dados seguros em Maceió.

A vulnerabilidade social também aparece nos registros públicos. Em 2025, Maceió tinha aproximadamente 97 mil famílias atendidas pelo Programa Bolsa Família. O Cadastro Único não representa, sozinho, toda a população socialmente vulnerável, mas demonstra a dimensão da presença de famílias de baixa renda na capital, o que justificaria um robusto programa habitacional para essa pessiaa.

Outro dado preocupante diz respeito às ocupações precárias. O IBGE identificou 95 aglomerados subnormais em Maceió no Censo de 2010. No Censo de 2022,  foram identificadas 192 Favelas e Comunidades Urbanas., o que equivale a 76% de todas favelas de Alagoas.

Outro aspecto que também precisamos observar é referente a população em situação de rua. Dados do Cadastro Único referentes a dezembro de 2024 registravam 1.781 pessoas nessa condição de vulnerabilidade em Maceió. Esse número não corresponde a uma contagem censitária de toda a população que vive nas ruas, mas apenas às pessoas cadastradas. Por isso, o total real pode ser maior.

O grande problema é que não existe uma contagem pública, atualizada e segura de quantas dessas pessoas vivem especificamente no Centro ou na orla. Se existe não é uma base divulgada publicamente.

Essas pessoas em vulnerabilidade social procuram regiões com maior circulação, possibilidade de alimentação, serviços públicos, trabalho informal e alguma proteção. Isso explica seu aumento no centro ou em áreas turísticas. A presença dessa população em diferentes bairros da orla ou do centro,  não deve ser tratada apenas como uma questão de segurança ou fiscalização, mas como um problema de moradia, saúde, assistência social e direitos humanos.

Diante desse cenário, é necessário questionar por que Maceió continua expandindo sua ocupação para áreas cada vez mais distantes, especialmente  no litoral norte e região dos tabuleiros,.enquanto mantém imóveis vazios e infraestrutura subutilizada em sua região central.

Na segunda parte deste artigo, apresentarei caminhos que poderiam ser adotados para recuperar imóveis, produzir habitação de interesse social e devolver moradores, atividades e vida urbana ao Centro de Maceió.

*Arquiteto e urbanista e professor da Faculdade de Arquitetura e Urbanismo da Universidade Federal de Alagoas (Ufal)

0 comentários

Enviar um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *