Por Geraldo de Majella*
O jornalista, escritor e biógrafo Luiz Gutemberg morreu neste domingo (16), em Brasília, aos 88 anos. Nascido em Maceió, em 24 de agosto de 1937, ele estava internado e faleceu em decorrência de uma pneumonia. Iniciou sua carreira jornalística aos 16 anos, na Gazeta de Alagoas, em 1955, e, ao longo de mais de sete décadas de atividade profissional, construiu uma trajetória marcada pelo jornalismo político, pela literatura e pelo registro da memória política brasileira.
Ainda jovem, Luiz Gutemberg deixou Alagoas e seguiu para o Rio de Janeiro, onde trabalhou em importantes veículos da imprensa brasileira, como o Jornal do Brasil, as revistas Manchete e Mundo Ilustrado. Sua formação profissional ocorreu em um período de grandes transformações do jornalismo brasileiro.
Em 1961, Luiz Gutemberg retornou a Alagoas a convite do governador eleito, major Luiz Cavalcante, para assumir o cargo de secretário do Gabinete Civil, órgão responsável pela coordenação da rotina administrativa do governo e também pela publicação do Diário Oficial do Estado.
Durante sua passagem pelo Gabinete Civil, o Diário Oficial passou por uma mudança de linguagem e função: além da publicação dos atos governamentais, passou a divulgar a agenda do governador em formato de notícias de interesse jornalístico, uma iniciativa considerada inovadora para a época. Naquele período, a comunicação institucional do governo ainda não contava com uma Secretaria de Comunicação Social estruturada nos moldes atuais.

Gutemberg, Geraldo de Majella e Esdras Gomes na 9º Bienal Internacional do Livro de Alagoas, em 2019 | Arquivo pessoal
A experiência na administração pública não afastou Luiz Gutemberg do jornalismo. Em 1968, integrou a equipe inicial da revista Veja, lançada naquele ano, e posteriormente se consolidou como um dos grandes nomes da cobertura política em Brasília. Atuou no Jornal do Brasil, dirigiu o Jornal de Brasília e trabalhou por muitos anos na TV Bandeirantes, onde acompanhou e analisou os principais acontecimentos políticos do país. Durante o governo José Sarney (1985-1990), também atuou como assessor da Presidência da República. Ao longo da carreira, esteve presente em momentos decisivos da história brasileira, como a ditadura militar, a redemocratização e a construção da Nova República.
Além do jornalismo, Luiz Gutemberg construiu uma trajetória como escritor e biógrafo. Entre outras obras, escreveu Moisés, Codinome Ulysses Guimarães, dedicada ao líder político do movimento democrático brasileiro; O Anjo Americano, romance que integra sua produção literária; e JB: A Invenção do Maior Jornal do Brasil, livro que resgata a história de um dos mais importantes jornais brasileiros.
Luiz Gutemberg foi membro da Academia Alagoana de Letras e da Academia Brasiliense de Letras. Mesmo radicado em Brasília, nunca perdeu os vínculos com Alagoas, onde tinha família e muitos amigos. Também participou de eventos literários no Estado, como convidado da Festa Literária de Marechal Deodoro (Flimar), em 2014, e da Festa Literária do Pontal da Barra (Flipontal), em 2019, ambas organizadas pelo escritor Carlito Lima.
Em fevereiro de 2019, na Barra de São Miguel, tive a oportunidade de gravar um longo depoimento com Luiz Gutemberg. Durante mais de três horas de conversa, ele revisitou episódios dos bastidores da política alagoana do período em que exerceu funções no governo estadual e também revelou histórias vividas em Brasília, onde acompanhou de perto momentos decisivos da política nacional. O depoimento preserva a memória de um jornalista que esteve próximo do poder e conheceu, por dentro, personagens e acontecimentos que marcaram a história política de Alagoas e do Brasil.
Sua trajetória representa uma ponte entre a imprensa alagoana de meados do século XX e o centro das decisões políticas do país. Jornalista, escritor e memorialista, Luiz Gutemberg deixou uma contribuição marcada pela interpretação da vida política brasileira e pelo registro dos bastidores do poder.
*Historiador e jornalista







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