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O Acordo do Faz de Conta

por | 28 jun, 2026

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A gente vive num mundo onde as coisas são feitas para ficar bem na foto. E a foto de sexta-feira (26), direto de Washington, é aquela clássica: três sujeitos sorridentes, canetas caríssimas, papel timbrado e um aperto de mão que, se for muito apertado, corre o risco de virar um soco. É uma encenação digna de um prêmio Emmy, onde o verniz diplomático tenta esconder a ferrugem da realidade.

Assinaram um “acordo trilateral preliminar”. Repare bem no adjetivo: preliminar. É aquele tipo de acordo que, na vida da gente, é quando você marca um jantar e avisa que, se não gostar do prato, pode pedir a conta antes da sobremesa. É um documento que nasce com data de validade, um compromisso que, na primeira troca de artilharia, vira confete.

O Líbano, Israel e os Estados Unidos acharam por bem dizer ao mundo que agora, sim, vai. Vamos criar umas “zonas-piloto”. Igual quando a gente compra um eletrodoméstico novo e faz um teste antes de instalar na cozinha toda. Vão passar o controle de duas faixas, uma ao sul e outra ao norte do Rio Litani, para o Exército libanês.

É quase um gesto de “olha, confio em você, mas não tira o olho”. É uma coreografia milimétrica: Israel recua trinta quilômetros para manter a aparência de “paz”, enquanto o Exército libanês tenta ocupar um espaço que, historicamente, eles mal conseguem patrulhar sem pedir licença para quem realmente manda.

O problema, como sempre, é que o convidado principal da festa não foi convidado. O Hezbollah, que é quem manda na parada toda por lá, ficou de fora. E o pessoal do Hezbollah não é de aceitar convite recusado com educação.

Já mandaram o recado: “Se vocês tentarem seguir com isso aí, a gente faz uma guerra civil para não perder o costume”. Eles não se sentem representados, não foram consultados e, francamente, não dão a mínima para o que se assina em salas com ar-condicionado em Washington. Para eles, a soberania não está no papel, está no gatilho.

Aí vem o Benjamin Netanyahu, sempre muito diplomático à sua maneira, e solta: “Beleza, o acordo é ótimo, mas a gente continua ocupando o território, viu? Só saímos quando eles depuserem as armas”.

Ou seja, é o famoso “eu te dou a chave da casa, mas eu fico com o controle do portão e você não pode entrar no quarto de visitas”. É uma paz que vem acompanhada de uma ocupação permanente, um paradoxo que só o Oriente Médio consegue sustentar com tanta naturalidade.

E detalhe: os moradores que fugiram das áreas de conflito? Esses, por enquanto, seguem como nômades em sua própria terra. O plano de reconstrução de lares esbarra na teimosia das botas de soldados que não pretendem sair tão cedo.

O presidente libanês, Joseph Aoun, jura de pé junto que isso é o primeiro passo para a soberania plena. Coitado do homem, está tentando convencer o povo — e a si mesmo — de que o Estado manda no próprio nariz. Ele fala em “libertação” e “fim da tutela”, enquanto o cenário real é uma colcha de retalhos onde o governo oficial é apenas um espectador. Enquanto isso, o deputado do Hezbollah, Hassan Fadlallah, assiste a tudo com aquela cara de quem está apenas esperando o momento de dizer “eu não avisei?”. Ele vê no acordo não um passo para a paz, mas uma provocação perigosa, uma tentativa de sabotar o entendimento que vem costurando, aos trancos e barrancos, com Teerã e Washington.

No fim das contas, é uma diplomacia de cenários. Todo mundo faz sua cena, lê seu roteiro, posa para o fotógrafo, mas o cenário real, lá no Sul do Líbano, continua sendo de bombardeio, gente sem casa e uma conta de mortos que já passou de quatro mil. Quatro mil vidas que, curiosamente, não aparecem na foto oficial da Casa Branca.

É o teatro do absurdo, encenado em Washington, com plateia mundial e roteiro que ninguém lê antes de gravar. Se o acordo vai durar? Bom, vamos esperar a próxima cena. Ou o próximo foguete. Porque, no Oriente Médio, o “preliminar” geralmente é o que sobra depois que a guerra acaba.

Ou melhor, enquanto ela espera a próxima oportunidade de começar. Enquanto isso, a gente assiste pela TV, torcendo para que, no meio desse roteiro de filme de ação, alguém finalmente aprenda a ler as entrelinhas antes de assinar o ponto final.

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