Por Carlos Vargas*
“O mais terrível de nossas heranças é esta de levar sempre connosco a cicatriz de torturador sempre impressa na alma e pronta a explodir na brutalidade racista e classista.”
Darcy Ribeiro, O povo brasileiro, 2015
“Como a imensa maioria do povo brasileiro, trago nas veias o sangue do açoitado e do açoitador […].”
Chico Buarque, discurso na entrega do Prémio Camões, 2023
Complexo Brasil é o nome de uma exposição que abriu as portas ao público no passado dia 14 de Novembro no edifício-sede da Fundação Calouste, em Lisboa. Com curadoria de José Miguel Wisnik, Milena Britto e Guilherme Wisnik, e cenografia de Daniela Thomas, esta mostra visita e problematiza a cultura brasileira e reflecte criticamente sobre as relações entre Portugal e o Brasil. José Manuel Wisnik, que organiza também o catálogo da exposição, é professor na USP, ensaísta e músico, tendo recebido, entre outras distinções, o Prémio Jabuti de Literatura em 1978 e 2009. Milena Britto é professora na Universidade Federal da Bahia, doutora em literatura e cultura brasileiras. Guilherme Wisnik é professor livre-docente na Faculdade de Arquitectura e Urbanismo da USP. É curador do MuBe, o museu brasileiro da escultura e ecologia, localizado no Jardim Europa, em São Paulo [https://www.mube.space/].
A exposição Complexo Brasil é acompanhada pelo respectivo catálogo, por um número especial da revista Colóquio Letras, dedicado à literatura e às artes brasileiras vistas a partir do primeiro quartel do século XXI, e por um extenso programa de actividades paralelas no Átrio principal do edifício-sede da Fundação Calouste Gulbenkian [https://gulbenkian.pt/complexo-brasil/], de que destacamos, nomeadamente, o concerto de Luca Argel em torno do seu álbum Samba de Guerrilha, a performance de Ricardo Aleixo Qual Brasil? Portugal?, e ainda o espectáculo Azira’I, com a actriz Zahy Tentehar.
Qual é a proposta dos curadores para esta exposição? Vejamos o que nos dizem, nas suas próprias palavras:
“A exposição complexo brasil é, como o seu próprio símbolo chamativo, uma flor sedutora e áspera que nos atrai para dentro de seu fundo insondável. Um convite à experiência de atravessamentos, sujeita às fricções e ao risco, à admiração e ao espanto, ao horror e ao fascínio.
Partimos do princípio de que o que se chama de Brasil (que se compõe de muitos brasis) é a resultante complexa de uma ação colonial de grandes proporções e consequências em que Portugal arrastou Áfricas para a América e tomou para si essa imensa terra indígena. O que foi chamado de descobrimento é um ato de força que encobre essa origem traumática. A exposição propõe-se a desencobrir o encobrimento dos brasis e a dispor a portugueses e brasileiros, num espelho comum que nos implica, a perspectiva de um desencobrimento recíproco. Nele, fundem-se a violentação apropriadora e o remoinho de experiências humanas em processo de cruzamento e de arrebentação que vêm bater em nós hoje.
Assumimos o país como um mosaico racial e cultural de grande potência: um complexo de biomas, de etnias, de culturas, de tempos, de lógicas, de línguas, de religiões, de processos econômicos. Afirmamos um valor forte da vida brasileira: o poder de incorporação, ou seja, de uma relação com o mundo em que não se tira o corpo fora, da qual são exemplos o manto tupinambá, o Manto da Apresentação de Arthur Bispo do Rosário, os parangolés de Hélio Oiticica. Neles está contido, de alguma forma, um enredo do Brasil. Enfatizamos as retomadas estéticas e políticas dos criadores e pensadores indígenas e pretos. Ao mesmo tempo, e por isso mesmo, trazemos à tona as realidades estruturais que fazem o país desigual e violento.
Na trama das muitas linguagens criativas envolvidas na vida brasileira, reconhecidas pela sua capacidade de problematizar e encantar o mundo, a exposição espera enfrentar o desafio do complexo brasil – essa droga que parece atuar enigmaticamente como veneno quando parece remédio, e como remédio quando parece veneno.”

Átrio inferior do edifício-sede da Fundação Calouste Gulbenkian, em Lisboa. À esquerda, Bandeira (2011), de Emmanuel Nassar e, à direita, Satélite baldio (2006) de Marepe.
De frente para o espelho
Tive já a oportunidade de visitar esta extraordinária e histórica exposição e de ficar, por um lado, deslumbrado pela beleza indiscutível de muitos dos objectos e das obras de arte apresentados; por outro lado, de ficar impressionado pela forma profundamente sensível e inteligente como muitas das temáticas são apresentadas ao público; e por outro lado ainda, de ter ficado profundamente tocado, e por que não dizê-lo, transtornado e angustiado, com a expressão condensada da extrema violência que atravessou e atravessa a história do Brasil, desde a sua fundação por mãos portuguesas até à realidade dos nossos dias. Esta visão em caleidoscópio dos muitos brasis que coexistiram e coexistem está bem patente e viva nas múltiplas tradições e linguagens convocadas para a exposição, nos múltiplos discursos e pontos de vista que nos são apresentados, e nas intensas contradições com que se construiu e se constrói o Brasil com a sua multitude de povos e de culturas. Longe de apresentar uma visão única da história do Brasil, desde a sua fundação por mãos portuguesas até à realidade dos nossos dias. Longe de apresentar uma visão única da história do Brasil, esta mostra aponta caminhos, problematiza e levanta hipóteses, fornece informação e ferramentas para que casa um de nós possa pensar e melhor compreender a história e as imensas contradições de um país-continente em permanente devir.
A exposição Complexo Brasil foi recebida pela imprensa portuguesa com surpresa, mas também com evidente respeito e entusiasmo pela proposta patrocinada pela Fundação Calouste Gulbenkian. Numa matéria publicada a 14 de Novembro de 2025, na “Revista E” do semanário Expresso, a jornalista Christina Martins escreveu: “Não é um passeio, nem se resume a uma visita. Nada é simples. Há muita beleza, acalanto, música, balanço e cor, mas, sobretudo, há coragem. Dá e pede. Exige mesmo. Tempo, lucidez e abertura de espírito. Num momento em que algum Portugal puxa dos galões nacionalistas-excludentes, a Fundação Calouste Gulbenkian abre as portas da sua sede para abrigar o país de onde vem a maior comunidade de imigrantes no território nacional. Um Brasil que é ali revelado muitas vezes sem dentes, com as suas mazelas sociais manchadas de sangue, mas sempre lindo e excessivo. Uma exposição que coloca Portugal frente a um espelho e o que de lá emerge é um “Complexo Brasil”.
Por sua vez, a jornalista Alexandra Prado Coelho escreveu, também a 14 de Novembro, no suplemento cultural Ípsilon, publicado pelo jornal diário Público: “Como falar dos “brasis”? Um dos vídeos que integram a exposição enfrenta a mesma dúvida e, tal como a flor, estilhaça-se em muitas imagens e sons, arriscando a desarmonia, porque se há um esforço central em Complexo Brasil é o de não simplificar o que é complicado, múltiplo, contraditório e, por isso mesmo, profundamente rico.” Mais adiante, Prado Coelho escreve ainda: “Criar este diálogo entre Portugal e o Brasil é, hoje, conseguir encarar uma história que é difícil, mas da qual é impossível fugir. O Brasil, em toda a sua complexidade, é resultado dessa história. No entanto, logo nesse início, que encontrou o seu símbolo na histórica Carta de Pero Vaz de Caminha, que dá conta do tal “achamento” do Brasil, os “brasis” foram introduzindo a sua força disruptiva numa narrativa durante demasiado tempo controlada apenas por um lado.”
Desencobrimento recíproco
A descolonização da história comum entre Portugal e o Brasil requer, antes de mais, um gesto de reconhecimento mútuo da violência originária que funda essa relação. As palavras de Darcy Ribeiro e de Chico Buarque recordam que a herança colonial não se aloja apenas nos arquivos ou nos discursos institucionais, mas infiltra-se no corpo social, na memória íntima, na forma como cada sujeito encara a própria identidade – feita, simultaneamente, do “açoitado e do açoitador”. Esse duplo vínculo constitui a zona de fricção que a exposição Complexo Brasil procura expor sem suavizações, apostando na revelação do trauma que, durante séculos, foi encoberto sob a retórica do “descobrimento”. Ao propor um “desencobrimento recíproco”, os curadores recusam a visão linear e pacificada da história e convocam portugueses e brasileiros para um exercício comum de escuta, de confronto e de responsabilização, que permita desfazer a narrativa única e reconhecer a pluralidade dos “muitos brasis”.
Neste sentido, o caminho conjunto para preparar o futuro passa pela capacidade de enfrentar esse passado sem o paralisar. A proposta curatorial parte da concepção do Brasil como um vasto mosaico racial, cultural, ecológico e linguístico, marcado por assimetrias violentas, mas também por uma extraordinária potência incorporadora. Os objectos escolhidos – do manto tupinambá aos parangolés – revelam modos de criação em que memória, dor, resistência e imaginação convivem em tensão permanente. Para Portugal, este espelho devolve não apenas a história das suas práticas expansionistas e imperialistas, mas também a urgência de se rever como agente activo na construção de novos pactos de convivência. Como observa Alexandra Prado Coelho, encarar os “brasis” implica aceitar a complexidade, resistir à tentação da simplificação e reconhecer que a narrativa histórica foi, durante demasiado tempo, contada apenas por um dos lados. A descolonização exige, justamente, esse gesto de restituição da palavra, da imagem e do lugar de fala.
Uma herança partilhada
Do ponto de vista social e político, o futuro entre Portugal e o Brasil constrói-se através de práticas culturais que criem espaços de diálogo, de vulnerabilidade e de copresença. A recepção crítica da imprensa portuguesa à exposição sublinha a importância de abrir instituições culturais centrais, como a Fundação Calouste Gulbenkian, a um Brasil real, exuberante e ferido, cuja presença em Portugal é hoje uma das mais visíveis e significativas da vida urbana. Como escreve Christina Martins, a mostra “dá e pede”: oferece beleza, ritmo e criatividade, mas exige tempo, lucidez e coragem para encarar mazelas sociais “manchadas de sangue”. Esse duplo movimento – dar e pedir – constitui um princípio ético para qualquer projecto de futuro partilhado: implica abandonar discursos paternalistas, enfrentar hierarquias históricas ainda activas e construir condições de igualdade simbólica e efectiva entre as múltiplas comunidades que atravessam ambos os países.
Em última instância, descolonizar a história comum significa substituir a lógica do encobrimento pela do encontro crítico e transformador. Complexo Brasil, com a sua “flor sedutora e áspera”, demonstra que a cultura pode ser o laboratório onde se experimentam novas formas de relação: modelos mais horizontais, atentos à pluralidade, capazes de acolher tanto o fascínio como o horror que compõem a herança partilhada. Preparar o futuro entre Portugal e o Brasil exige reconhecer a complexidade, aceitar o risco dos atravessamentos e assumir uma política da responsabilidade que enfrente as desigualdades estruturais ainda persistentes. Só assim poderá emergir um horizonte verdadeiramente recíproco, no qual portugueses e brasileiros se revejam não apenas na memória dolorosa que os une, mas sobretudo na possibilidade de, juntos, reinventarem o modo como essa história é contada, sentida e projectada no mundo contemporâneo.
Lisboa, 1 de Dezembro de 2025
(*) Doutor em Ciência Política
Faculdade de Ciências Sociais e Humanas da Universidade Nova de Lisboa












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