
Raquel de Queiroz. Crédito: Revista Veja
Por Carlos Vargas*
A crônica “Tragédia de casamento”, publicada em 1949 por Rachel de Queiroz (1910-
2003) na revista O Cruzeiro, permanece surpreendentemente atual quando analisada à
luz das sociedades contemporâneas. A autora, também conhecida pelos romances O
Quinze (1930), As Três Marias (1939) e Dôra Doralina (1975), entre outros, constrói, com
ironia e concisão narrava, um retrato perturbador da deterioração de uma relação
conjugal que inicialmente promea felicidade. O casamento, intuição
tradicionalmente associada à proteção, à solidariedade e à construção de um projeto de
vida comum, surge aqui como espaço de sofrimento, de violência simbólica e de
progressiva desumanização.
A força literária da crônica reside precisamente na forma como revela uma
realidade social mais ampla. A narrativa apresenta um casal cujo vínculo, em vez de
consolidar uma comunidade de afetos, degenera num ciclo de hostilidade e de
degradação moral. O que deveria constituir um espaço de intimidade e de cuidado
transforma-se num cenário de conflito permanente. Ao fazê-lo, Rachel de Queiroz expõe
uma tensão fundamental: a discrepância entre o ideal social do casamento e as
condições reais de vida que frequentemente o atravessam.

Crédito: Recanto inspiração
Entre o passado e o presente
No contexto do Brasil de meados do século XX, marcado por profundas desigualdades
sociais, baixos níveis de escolarização e estruturas patriarcais rígidas, o casamento era
muitas vezes menos uma escolha livre do que uma imposição social. A dependência
económica das mulheres, a ausência de mecanismos institucionais de proteção e a
normalização cultural da violência doméstica contribuíam para que muitas relações
conjugais se tornassem espaços de sofrimento silencioso. Assim, a crônica funciona
como um espelho de uma sociedade em que as relações humanas eram frequentemente
condicionadas por estruturas de poder e por limitações socioeconómicas.
Contudo, a pergunta central que emerge da sua leitura, e que permanece
inquietantemente atual, é se tais realidades pertencem apenas ao passado.
Infelizmente, a resposta é negativa. Embora as sociedades contemporâneas tenham
registado avanços significativos no reconhecimento dos direitos das mulheres, na
legislação contra a violência doméstica e na promoção da igualdade de género, os
problemas retratados na crônica não desapareceram. Em muitas partes do mundo, o
casamento continua a ser um espaço onde se manifestam desigualdades profundas,
abusos emocionais e violência física.
Cultura e educação como instrumentos de transformação
Estudos sociológicos contemporâneos demonstram que a violência nas relações íntimas
não se explica apenas por comportamentos individuais, mas também por fatores
culturais e estruturais. Normas sociais que perpetuam a desigualdade de género,
expectativas rígidas sobre os papéis masculinos e femininos e a persistência de culturas
de silêncio contribuem para a manutenção dessas dinâmicas. Nesse sentido, a crônica
de Rachel de Queiroz não descreve apenas um caso isolado; revela um padrão social
mais amplo, cuja transformação exige mudanças profundas nas mentalidades coletivas.

É neste ponto que a cultura e a educação assumem um papel fundamental. A
literatura, como forma de expressão cultural, possui uma capacidade singular de revelar
dimensões invisíveis da experiência humana. Ao narrar a tragédia de um casamento
comum, Rachel de Queiroz convida o leitor a confrontar-se com a violência que pode
esconder-se nas estruturas aparentemente normais da vida social. A literatura não
descreve apenas a realidade; também a problematiza, abrindo espaço para reflexão crítica e para a formação de uma consciência social.
A educação, por sua vez, constitui um instrumento decisivo na transformação
dessas realidades. Sistemas educativos que promovem o pensamento crítico, a
igualdade de género e a valorização da dignidade humana podem contribuir para alterar
padrões culturais profundamente enraizados. A formação de cidadãos conscientes dos
seus direitos e responsabilidades é essencial para prevenir situações de violência e para
promover relações baseadas no respeito mútuo.

Crédito: Sesi
Neste contexto, a educação para a cidadania e para os direitos humanos
desempenha um papel particularmente relevante. A escola torna-se um espaço de
prevenção, ao ensinar os jovens a reconhecerem comportamentos abusivos, a
valorizarem a autonomia individual e a compreenderem a importância da igualdade nas
relações. Mais do que transmitir conhecimentos técnicos, a educação pode e deve
contribuir para a formação ética e social dos indivíduos.
A esperança como horizonte coletivo
A cultura também exerce uma influência significativa na transformação dos valores
sociais. Obras literárias, cinema, teatro e outras formas de expressão artística podem
questionar normas estabelecidas e estimular novas formas de pensar as relações
humanas. Ao representar experiências de sofrimento e injustiça, essas expressões
culturais tornam visíveis problemas frequentemente ocultos. A visibilidade é um passo
essencial para a mudança, pois aquilo que permanece invisível tende a perpetuar-se.
Ao mesmo tempo, as políticas públicas desempenham um papel complementar. A
criação de redes de apoio às vítimas de violência doméstica, a implementação de
legislação eficaz e a promoção de campanhas de sensibilização são instrumentos
importantes na construção de sociedades mais justas. No entanto, tais medidas só
produzem efeitos duradouros quando acompanhadas por mudanças culturais
profundas.
A crônica de Rachel de Queiroz termina sem redenção moral clara. Não há uma
lição explícita que resolva a tragédia narrada. Esse desfecho ambíguo constitui
precisamente uma das suas maiores forças literárias: obriga o leitor a confrontar-se com
a complexidade da condição humana e com a persistência de injustiças sociais. Em vez
de oferecer soluções simples, a autora expõe uma realidade que exige reflexão e
responsabilidade coletiva.

Crédito: UOL
Lida hoje, mais de sete décadas depois da sua publicação, “Tragédia de
casamento” permanece um texto perturbadoramente relevante. A escrita atenta e
certeira de Rachel de Queiroz continua a interpelar-nos porque revela uma verdade
incómoda: a desumanização não é apenas produto de circunstâncias históricas
passadas, mas uma possibilidade permanente nas relações humanas. A esperança reside
precisamente na capacidade das sociedades reconhecerem essa realidade e de
quererem agir para transformá-la.
Nota final: Descobri recentemente o Portal da Crônica Brasileira. Trata-se de uma
iniciativa do Instituto Moreira Salles, que disponibiliza gratuitamente aos públicos um
tesouro maravilhoso da cultura brasileira.
[https://cronicabrasileira.org.br/cronicas/9163/tragedia-de-casamento].
Lisboa, 12 de março de 2026
* Doutor em Ciência Política
Faculdade de Ciências Sociais e Humanas da Universidade Nova de Lisboa






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