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Xangô Rezado Alto: de como nasceu a ideia

por | 3 mar, 2026

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Por Edson Bezerra*

1. Para minha surpresa, quando da publicação de um manifesto por mim escrito — o Manifesto Sururu, publicado no dia 16 de setembro de 2004, no jornal Tribuna de Alagoas —, ao sair à rua no mesmo dia, pela manhã, durante o desfile comemorativo da Emancipação Política de Alagoas, fui parabenizado por conhecidos pela autoria do texto. A iniciativa foi bem recebida por pessoas de diferentes estratos e classes sociais, como professores, músicos, artistas plásticos etc. À época, quem governava Alagoas era Ronaldo Lessa, cujo governo era marcado por manifestações artísticas e culturais articuladas em torno do fortalecimento identitário do Estado.

2- Com o tempo, diante do sucesso, da crescente aceitação e da penetração do texto em diferentes camadas da sociedade alagoana — sobretudo entre religiosos de matriz africana —, percebi a existência de uma demanda oculta por uma identidade alagoana. O tempo confirmaria que essa demanda era por uma identidade negra, até então soterrada.

3- Todavia, como surgiu a ideia do Manifesto Sururu?

4- Alguns anos antes de 2004, ano da escrita daquele manifesto, por indicação do professor Sávio de Almeida, eu havia tomado contato com um escrito de sua autoria — Uma Lembrança de Amor para Tia Marcelina —, e foi através daquele texto, que pela primeira vez, eu tomei conhecimento com o acontecimento da quebra e destruição de todos os terreiros de Candomblé (Xangô, como na época eram identificados) na cidade de Maceió em 1912, evento em consequência do qual, a matriarca do Candomblé em Alagoas, Tia Marcelina, morreria meses depois.

5- Em 2006, dois anos depois da publicação do Manifesto Sururu, eu frequentava a Fundação Cultural da Cidade de Maceió cujo presidente era o Marcial Lima e o vice-presidente era o professor Clébio Araújo, companheiro de trabalho da Uneal e, foi por estas paragens que me surgiu a ideia do projeto Xangô Rezado Alto, que, uma vez compartilhada com ele, foi imediatamente aceita e comungada como o então presidente, o professor Marcial Lima.

6- Feito isso, juntamente com a Fundação Cultural da Cidade de Maceió, começamos a articular, junto a religiosos de matriz africana — Mãe Miriam, Pai Célio, Mãe Netinha e Aluandê —, capoeiristas e alguns artistas, a realização do primeiro Xangô Rezado Alto, em um cortejo que, saindo da Praça Nossa Senhora Mãe do Povo, terminou na Praça Sinimbu.

7- Passados cinco anos daquele evento, com a eleição do professor Jairo Campos para reitor da Uneal (Universidade Estadual de Alagoas), em 2011, lancei a proposta do que poderia ser a celebração da memória afro-alagoana, em 2012, ano em que se completariam 100 anos daquela tragédia. Relatei-lhe a importância da celebração, ressignificando o sentido do evento com o nome de Xangô Rezado Alto.

8- Aceita a proposta, articulei a vinda do produtor Vinícius Palmeira para a produção do referido evento, o qual, ao deslocar-se para Brasília, conseguiu o financiamento para sua execução.

O governador Teo Vilela e Jairo Campos, reitor da UNEAL

9- Mantive contato com o historiador Geraldo de Majella, à época diretor-presidente do Instituto de Terras de Alagoas (ITERAL), que tomou a iniciativa de apresentar ao então governador do Estado, Teotônio Vilella, a proposta de um pedido público de perdão pela responsabilidade do Estado nos trágicos acontecimentos de 1912, após expor a ele a dimensão da tragédia e seu significado. O governador, depois de ouvir a justificativa, concordou com a proposta e comprometeu-se a formalizá-la oficialmente.

10- No dia 2 de fevereiro de 2012, diante da presença da comunidade religiosa de matriz afro-alagoana, realizou-se, na Praça dos Martírios, a cerimônia oficial do pedido de perdão por parte do Estado pelos acontecimentos de 1912, com discursos das autoridades e a revista da tropa da Polícia Militar de Alagoas pelos principais líderes religiosos.

11. De modo que, diante da atual proposta por parte dos religiosos de matriz africana de substituir o nome da Avenida Fernandes Lima (um dos organizadores do Quebra de 1912) pelo nome de Tia Marcelina, estamos diante de uma reparação histórica, semelhante ao pedido de perdão do governo do Estado, em 2012, em virtude do Quebra dos terreiros ocorrida em 1912.

12. E, repetindo aqui o Mestre Sávio de Almeida:
“Mas quem vai ter a força contra o machado de Xangô?” (Êio! Cabeçinha!)

(*) Doutor em Sociologia pela Universidade Federal de Pernambuco em 2007. Mestre em Antropologia pela Universidade Federal de Pernambuco em 1990. Graduado em Ciências Sociais pela Universidade Federal de Pernambuco em 1982.

 

 

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