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A consciência de classe dos corretores de imóveis

por | 18 out, 2026

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Por Dilson Ferreira*

Recentemente, li uma publicação de um corretor de imóveis de Alagoas afirmando que o mercado imobiliário depende do capitalismo, da livre iniciativa e da propriedade privada. Ele criticou colegas que votam no presidente Lula e chegou a declarar que odiava o governo do PT.

Mas, será que o mercado imobiliário depende apenas da iniciativa privada? Vamos aos fatos e aos números.

1. QUEM FINANCIA O MERCADO IMOBILIÁRIO?

Segundo a Câmara Brasileira da Indústria da Construção (CBIC), em 2025 o financiamento habitacional movimentou:

• R$ 137,6 bilhões com recursos do FGTS.

• R$ 156,3 bilhões com recursos da poupança (SBPE).

• R$ 293,9 bilhões no total dessas duas fontes.

Esses valores não são despesas diretas do governo. São recursos dos trabalhadores e dos poupadores, utilizados em sistemas regulados pelo Estado brasileiro.

E aqui existe uma contradição: ainda há quem defenda substituir empregos com carteira assinada por contratações mais precárias.

O FGTS é formado, principalmente, por depósitos dos empregadores em nome dos trabalhadores formais. Ou seja, proteger o emprego formal também ajuda a financiar moradias e movimentar a construção civil.

2. QUAL É O PAPEL DO MINHA CASA, MINHA VIDA?

Criado no governo Lula, em 2009, e retomado em 2023, o programa registrou, entre 2023 e 2025:

• 2,11 milhões de moradias contratadas.

• R$ 317,8 bilhões em investimentos e financiamentos contratados.

• 44% de crescimento nas contratações anuais da modalidade financiada, passando de 459,6 mil unidades em 2023 para 662,5 mil em 2025.

Em 2026, o programa passou a atender famílias com renda mensal de até R$ 13 mil.

E quem ganha com isso? Além das famílias beneficiadas, ganham bancos, construtoras, incorporadoras, imobiliárias, corretores, seguradoras, fornecedores de materiais de construção, lojas de móveis e eletrodomésticos.

Portanto, uma política habitacional criada por um governo de esquerda também fortalece a propriedade privada e movimenta toda a cadeia produtiva do mercado imobiliário.

3. E QUAL É A REALIDADE DE ALAGOAS?

Entre 2023 e 2025, o Minha Casa, Minha Vida registrou no estado:

• 36.318 moradias contratadas.

• R$ 4,6 bilhões em recursos contratados.

Empresas como MRV, Direcional, Tenda, Cury e Plano&Plano atuam nesse segmento nacionalmente.

Em Alagoas, segundo o CRECI-AL, a Telesil e a Telesil Mais possuíam, em setembro de 2026, mais de 700 unidades em construção, distribuídas em cinco canteiros de obras em Maceió, com empreendimentos financiados pelo Minha Casa, Minha Vida e pelo SBPE.

Basta visitar os shoppings de Maceió e de outras cidades brasileiras. Tornou-se comum encontrar quiosques e estandes oferecendo imóveis pelo Minha Casa, Minha Vida.

É a iniciativa privada comercializando imóveis cuja aquisição é facilitada por uma política pública federal.

4. E A CONSCIÊNCIA DE CLASSE DOS CORRETORES?

A Constituição de 1988 garante a propriedade privada, sua função social e o direito à moradia. Portanto, não existe incompatibilidade entre defender o mercado imobiliário e apoiar políticas públicas habitacionais.

Os corretores de imóveis têm consciência de classe e liberdade para fazer suas escolhas políticas. Respeitá-las é respeitar a democracia.

Parabéns aos profissionais que reconhecem a importância das políticas sociais.

Quanto ao corretor que criticou seus colegas, vale lembrar: seu próprio trabalho também depende do financiamento habitacional e das políticas públicas do Estado brasileiro, toda vez que ele vai vender um imóvel com financiamento estatal.

*Arquiteto e Urbanista, Professor Doutor da UFAL

2 Comentários

  1. Maherval Chaves

    Parabéns pela matéria. Esclarecedora.

    Responder
  2. Vetrúcia Teixeira Costa

    Gostaria muito de saber desse corretor, quantas vendas de casa do Programa Minha Casa Minha vida ele fez no governo passado, que passou a chamar- se “verde e amarela”. Nenhuma, uma vez que o Programa foi retomado em , 2023 no governo Lula.

    Responder

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