Por Duse Leite*
Há dias em que a gente acorda decidido a limpar a casa. Foi o meu caso. Enchi um balde para dar aquele banho caprichado no banheiro. Até aí, tudo normal. O problema começou quando olhei para dentro do balde.
Por um instante, pensei que alguém tivesse lavado uma blusa marrom na minha água. Olhei de novo. Não era impressão. A água tinha uma cor que não combinava nem com limpeza, nem com tranquilidade. Combinava, isso sim, com preocupação.
A primeira reação foi rir. Afinal, o brasileiro tem esse estranho talento de fazer piada até quando a situação não tem graça nenhuma. Pensei: será que abriram uma cafeteria dentro da tubulação? Será que a torneira resolveu servir café sem me avisar?
Mas a piada dura pouco.
Foi justamente naquela hora que me ocorreu uma pergunta incômoda: se essa é a água que enche o balde, é a mesma que usamos para escovar os dentes, lavar o rosto, tomar banho e preparar os alimentos. É inevitável perguntar se isso é aceitável. E, mais importante, quando a água chega com aparência estranha, o consumidor merece uma explicação clara.
Pagamos caro pela água que chega às nossas casas. Não estamos pedindo luxo, perfume ou água mineral na torneira. Estamos pedindo aquilo que qualquer consumidor tem o direito de exigir: qualidade, transparência e respeito.
O mais curioso é o nosso silêncio. Reclamamos do trânsito, do calor, da política e do preço do café. Mas, quando a água aparece com uma coloração que causa espanto, muitos apenas enchem outro balde e seguem a vida como se fosse normal.
Não deveria ser.
Se o problema está na rede, nos canos ou em qualquer outro ponto do sistema, cabe à concessionária informar, esclarecer e solucionar. E cabe a nós cobrar. Não por teimosia, mas porque estamos pagando por um serviço essencial.
A água pode até ser incolor no livro de Ciências. Na vida real, às vezes ela chega contando outra história. E essa história precisa deixar de ser apenas assunto de conversa no portão e passar a ser assunto de responsabilidade.
Porque, sinceramente, se a torneira começa a servir água da cor de roupa lavada no barro, alguma coisa está errada. E não é com os nossos olhos.
*Funcionária pública e jornalista





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