Por Duse Leite
Há lugares que envelhecem. E há lugares que, quanto mais o tempo passa, mais jovens parecem.
Talvez porque a juventude de um lugar não esteja nas paredes, nem na idade do prédio, mas naquilo que continua acontecendo dentro dele. Nas vozes. Nos sonhos. Nos primeiros passos. Nas mãos que aprendem. Nos olhos que descobrem que também podem criar.
Neste domingo, 16 de agosto, o Centro de Belas Artes de Alagoas, o nosso CENARTE, completa 44 anos.
Quarenta e quatro anos é tempo suficiente para atravessar gerações. Para ver crianças chegarem pela primeira vez carregando a timidez de quem ainda não sabe exatamente o que procura e, algum tempo depois, saírem dali levando consigo uma descoberta que pode mudar uma vida.
Porque é disso que o CENARTE trata.
De descobertas.
Há quem tenha encontrado ali a música. Outros, a dança, o teatro, as artes plásticas. E há aqueles que talvez tenham encontrado algo ainda maior: um lugar onde podiam ser quem eram antes mesmo de saber explicar isso.
A história do CENARTE começou em 1982, a partir de uma ideia de Bráulio Leite Júnior, então presidente da Fundação Teatro Deodoro. Homem de teatro, jornalista, escritor e apaixonado pela cultura, ele compreendeu uma coisa que continua atual: não basta levar a arte ao palco. É preciso criar caminhos para que as pessoas possam chegar até ela.
O CENARTE nasceu dessa visão.
E talvez seja essa a parte mais bonita de sua história: a instituição não nasceu para formar apenas artistas. Nasceu para aproximar pessoas da arte.
Quarenta e quatro anos depois, essa ideia continua respirando.
Respira em cada aula, em cada ensaio, em cada instrumento que aprende suas primeiras notas, em cada corpo que descobre o movimento, em cada desenho que ganha forma, em cada voz que perde a vergonha e encontra coragem.
Respira também nas paredes de um prédio histórico do centro de Maceió, que já abrigou o primeiro Jardim da Infância e a Rádio Difusora. Um prédio que, de alguma maneira, continua fazendo aquilo que sempre fez: acolher conhecimento, cultura, comunicação e gente.
Talvez por isso o CENARTE não possa ser visto apenas como um equipamento cultural.
Ele é memória.
É encontro.
É possibilidade.
É uma dessas instituições que nos lembram de que a cultura não acontece somente nos grandes palcos. Ela começa, muitas vezes, numa sala simples, numa primeira tentativa, numa professora que incentiva, num professor que acredita, num aluno que descobre que aquilo que fazia por prazer pode, um dia, tornar-se parte de sua vida.
E quantas histórias cabem em 44 anos?
Quantas pessoas passaram por aquelas salas?
Quantos sonhos começaram ali sem que ninguém soubesse até onde chegariam?
Não há placa, arquivo ou fotografia capaz de responder completamente.
Porque a verdadeira história de uma instituição como o CENARTE não está apenas nos documentos. Está nas pessoas que levam um pouco dela consigo quando atravessam sua porta pela última vez.
É por isso que celebrar seus 44 anos é mais do que lembrar uma data.
É reconhecer a importância de manter viva uma ideia.
A ideia de que a arte transforma.
De que a cultura pertence a todos.
De que uma criança que descobre a música, um jovem que encontra o teatro, uma pessoa que se encanta pela dança ou alguém que simplesmente aprende a olhar o mundo com outros olhos já saiu ganhando alguma coisa que ninguém poderá lhe tirar.
O CENARTE completa 44 anos.
E talvez o seu maior patrimônio não esteja no prédio que ocupa, nem nos equipamentos que possui.
Está em tudo aquilo que aconteceu — e ainda acontece — quando alguém entra por sua porta e descobre que também pode fazer arte.
Há lugares que envelhecem.
O CENARTE, felizmente, continua começando.
*Funcionária pública e jornalista






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