quarta-feira, 29 julho 2026
Chuva leve
Maceió
24°C
Chuva leve
Chuva leve
Maceió
24°C
Chuva leve

Agronegócio avança no Oeste da Bahia e deixa rastro de violência, grilagem e rios agonizando

por | 27 nov, 2025

ESPALHE A NOTÍCIA
Link copiado para o Instagram!

Rancho do Fecho do Cupim, em Correntina, queimado por pistoleiros ligados a milícias em julho de 2023 | Reprodução

O avanço agressivo do agronegócio no Oeste da Bahia voltou ao centro do debate nacional após a divulgação do relatório Especulação Financeira e Impactos Socioambientais do Agronegócio no Cerrado da Bahia. Produzido pela Rede Social de Justiça e Direitos Humanos, com apoio da Comissão Pastoral da Terra (CPT) e Amigos da Terra, o documento — lançado na última terça-feira (18) — revela um cenário de expansão de monocultivos, grilagem sistemática e violência armada contra comunidades tradicionais. A denúncia foi trazida à luz pelo portal Brasil de Fato, que também ouviu moradores das áreas atingidas.

O relatório detalha como empresas nacionais e transnacionais têm se apropriado de extensas áreas do Cerrado por meio de mecanismos de especulação fundiária e práticas que, segundo a publicação, fragilizam direitos territoriais e destróem ecossistemas estratégicos.

“Nossos estudos mostram a relação entre a especulação com terras por empresas financeiras multinacionais e a expansão de monocultivos de commodities agrícolas, que destroem o solo, as fontes de água e a biodiversidade do Cerrado”, afirma Fábio Pitta, coordenador da Rede Social de Justiça e Direitos Humanos.

Em meio às discussões da 30ª Conferência das Nações Unidas sobre Mudanças Climáticas (COP30), Pitta ressalta que “só será possível lidar com a crise climática com apoio a comunidades rurais, que protegem o meio ambiente e produzem alimentos saudáveis de forma agroecológica”.

Terra tomada, vidas ameaçadas

A pesquisa mostra que a expansão dos latifúndios tem atingido com violência comunidades tradicionais de Fundo e Fecho de Pasto, Geraizeiras e Brejeiras. Esses grupos, que há gerações vivem do uso comum da terra, vêm sendo expulsos por desmatamento acelerado, pulverização de agrotóxicos, fraude fundiária e presença de milícias armadas.

O avanço das commodities intensifica o conflito. Soja, milho e, mais recentemente, algodão transformaram o Oeste baiano em um epicentro de disputas territoriais. O Brasil é hoje o segundo maior exportador de algodão do mundo — e a Bahia, vice-líder na produção nacional.

Correntina, destaque no relatório, quase quadruplicou suas áreas destinadas ao algodão entre 2004 e 2022. Em Formosa do Rio Preto, o cultivo da soja explodiu: passou de 95,2 mil hectares, em 2004, para 427,5 mil hectares em 2022.

“Só temos 3% do território; o resto eles já levaram”

A reportagem do Brasil de Fato ouviu moradores de comunidades de Fecho de Pasto que, sob ameaça, tiveram seus nomes alterados por motivo de segurança. Eles descrevem um processo contínuo de expulsão desde a década de 1970.

“Foi em meados dos anos 70 que eles começaram a expulsar o nosso povo do território. […] Hoje nós temos apenas 3% do território. O restante eles já levaram, já desmataram”, relata Cláudio, agricultor e fecheiro.

Ele descreve a destruição como uma força permanente: “Com a chegada do agronegócio… quando a gente menos espera, chega lá e tem uma parte desmatada.”

Para Valdirene, agricultora e fecheira, o método é claro: ocupação ilegal com violência.
“Essa área que nós não temos mais direito de entrar é porque a grilagem está invadindo, invadindo através da pistolagem. Aí [a gente] chega lá e está um batalhão de pistoleiro, tudo armado para botar a gente para fora.”

Ela explica que os grileiros eliminam qualquer rastro de uso tradicional, dificultando a comprovação de posse perante o Estado:
“Eles chegam, passam o maquinário e enterram as coisas. Fazem isso pra que a gente não consiga provar que já estava naquelas áreas.”

O Cerrado agoniza: rios secam, nascentes desaparecem

O relatório aponta que as chapadas — áreas de recarga do aquífero Urucuia, fundamental para o abastecimento hídrico do país — são as mais griladas pelo agronegócio. As nascentes são destruídas, os rios sofrem assoreamento e os grandes pivôs de irrigação drenam volumes gigantescos de água para monocultivos.

As consequências já são visíveis.

“A gente vê os nossos rios secando. Já tem rio que não existe, já tem córrego que deixou de correr”, lamenta Cláudio.

Valdirene vive o impacto direto no cotidiano:
“Meu pé de laranja, carregado de laranja, morreu por falta de água, sendo que eu moro na beira do rio. Eu não tive água suficiente porque o rio baixou. Como vai ser daqui pra frente?”

Mesmo diante da crise hídrica, o relatório acusa o governo baiano de continuar concedendo autorizações de desmatamento e outorgas de uso da água para grandes empresas.

A luta pela terra e o direito de existir

As comunidades reivindicam o reconhecimento oficial de que são elas — agricultores familiares, fecheiros, geraizeiros e brejeiros — as verdadeiras guardiãs da biodiversidade do Cerrado.

“O trabalho é convencer o Estado de que nós somos os verdadeiros donos dessas propriedades, e que somos guardiões da natureza, guardiões das águas”, afirma Valdirene.

Apesar da violência e das perdas, a resistência segue firme.

“Nós não pensamos em desistir. Nós temos que insistir pra existir, porque o que eles querem mesmo é dizimar essas pessoas”, diz Cláudio.
“Diante de tudo isso, a nossa resistência é não desistir: continuar lutando, buscando parcerias, denunciando pra justiça os crimes.”

0 comentários

Enviar um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *