Na manhã dessa quarta-feira (17), a Polícia Federal e a Controladoria-Geral da União (CGU) deflagraram uma operação que mira esquemas de corrupção na área de mineração e meio ambiente em Minas Gerais. A investigação aponta que empresários pagavam propina para liberar projetos e fraudar licenças ambientais. Segundo a PF, o líder do grupo criminoso é Alan Cavalcante do Nascimento, alagoano que construiu fortuna no setor mineral, mas deixou atrás de si um histórico de devastação e negócios nebulosos.
Das corridas de motocross à mansão milionária
Alan Cavalcante nasceu em Arapiraca, no agreste alagoano, e sempre fez questão de lembrar que veio “do nada”. A juventude, marcada pela precariedade, tinha como diversão corridas de motocross e encontros no quintal de uma edícula simples. Pouco mais de uma década depois, a realidade já era outra: o ex-motociclista transformou-se em dono de um conglomerado de empresas, com capital social superior a R$ 100 milhões, espalhadas entre mineradoras, construtoras e imobiliárias, principalmente em Minas Gerais.
O salto social foi acompanhado de um estilo de vida extravagante. Em Maceió, Alan promove festas de fim de ano que duram semanas, com shows de artistas famosos, pool parties e passeios de catamarã. Sua mansão no condomínio Laguna Heliport, área mais valorizada do estado, é palco de viradas de ano com até 500 convidados. Em 2023, chegou a arrematar por R$ 1,2 milhão um blazer, um cordão de ouro e diamantes e um Rolex em um leilão beneficente organizado pelo jogador Neymar, gesto que ampliou sua visibilidade nas redes sociais.
O império e as suspeitas
A versão de sucesso contada pelo próprio empresário – “trabalhei de segunda a segunda, mais de doze horas por dia” – contrasta com relatórios oficiais. Em 2020, fiscais flagraram uma de suas empresas realizando extração ilegal de minério na Serra do Curral, em Belo Horizonte. Documentos da Secretaria de Meio Ambiente de Minas e da Polícia Federal indicaram que vários dos sócios formais das companhias ligadas a Alan seriam “laranjas”, sem capacidade financeira ou conhecimento técnico para gerir mineradoras.
Além disso, parte de suas empresas apresenta sedes fictícias: em Maceió, duas estariam registradas em endereços inexistentes, e uma terceira, em Arapiraca, funcionaria em uma casa simples cujos moradores sequer sabiam da existência da firma.
Predador ambiental
O ponto mais grave da trajetória de Alan Cavalcante, no entanto, está na devastação causada por suas operações. Ele se tornou dono de quatro jazidas de minério de ferro que somam 4,5 mil hectares justamente na Serra do Curral, patrimônio natural e histórico de Minas Gerais. O maciço já havia sido ferido pela exploração da Vale ao longo das décadas, mas a nova fase de mineração intensificou a destruição.
A Serra, cantada por Carlos Drummond de Andrade como um símbolo de liberdade e identidade da capital mineira, hoje sofre mutilações que impactam não só a paisagem, mas também a vida de milhares de moradores no entorno.
Com a operação da Polícia Federal em curso, Alan Cavalcante deixa de ser apenas o anfitrião de festas milionárias para se tornar o retrato de um modelo predatório de negócios, em que a ostentação se ergue sobre o esgotamento ambiental e sobre suspeitas de corrupção.
Fonte: Revista piauí, publicada em outubro de 2023.








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