Uma denúncia apresentada a autoridades em Londrina (PR) aponta para a possível existência de um sistema de distribuição desigual de entregas por aplicativos, no qual motoristas mais rápidos teriam acesso a rotas mais vantajosas financeiramente.
A suspeita é de que os algoritmos utilizados pelas plataformas estejam, ainda que indiretamente, criando incentivos à velocidade e aumentando os riscos no trânsito.
O caso foi analisado pelo trabalhador Jonathan Willian Magalhães Espíndola, em texto publicado pelo site Outras Palavras. A denúncia tem como foco principal a operação da TAON Delivery, mas também defende que padrões semelhantes sejam investigados em outros aplicativos que atuam na cidade, como iFood e Delivery Up.
A suspeita não se limita ao valor pago por cada corrida. O argumento central é que as plataformas acumulam dados sobre endereços, tempo de permanência dos entregadores, facilidade de acesso aos imóveis, distância dos principais centros de demanda e possibilidade de retorno rápido para novas coletas.
Com essas informações, diferentes destinos podem ter valores operacionais muito distintos para o trabalhador. Uma entrega em uma região central, por exemplo, pode permitir uma nova coleta imediatamente. Já uma corrida para um bairro distante pode consumir mais tempo, combustível e quilômetros sem remuneração durante o retorno.
Segundo a denúncia, o problema surgiria quando esses dados fossem utilizados para distribuir de maneira seletiva os pedidos mais eficientes entre determinados trabalhadores.
A hipótese apresentada é que entregadores com desempenho mais rápido poderiam receber uma proporção maior de corridas centrais, agrupadas e com vários destinos. Motoristas que trabalham de forma mais cautelosa, por outro lado, poderiam ficar com rotas mais demoradas, periféricas ou com maior tempo de espera.
Nesse cenário, a segurança no trânsito poderia se transformar em uma desvantagem econômica. O trabalhador não precisaria receber uma ordem explícita para acelerar. Bastaria perceber que entregar mais rapidamente aumenta as chances de receber pacotes de maior rentabilidade.
Dados apontam diferença nos resultados
Um levantamento citado na denúncia analisou 305 dias com pelo menos uma corrida entre abril de 2023 e julho de 2024, considerando especialmente o período entre 11h e 13h.
Nos dias considerados normais, a mediana registrada foi de cinco corridas, oito destinos e R$ 53,25 de receita. Os fechamentos considerados “premium”, localizados dentro do circuito operacional central definido pelo estudo, representavam 33,3% dos casos.
Já em três dias analisados em julho de 2024 — 1º, 8 e 15 de julho — o padrão foi significativamente diferente.
No conjunto desses dias, houve maior concentração de entregas multidestino e de encerramentos dentro do chamado circuito premium. Em 1º de julho, foram nove corridas, 17 destinos e R$ 92,40 de receita, com todos os fechamentos classificados como premium.
Em 8 de julho, quatro corridas resultaram em 11 destinos e R$ 84,70. No dia 15, foram sete corridas, 17 destinos e R$ 96,30, também com predominância de entregas multidestino e 100% de fechamentos premium.
O próprio estudo ressalta que esses números, isoladamente, não comprovam quais critérios são utilizados pelos algoritmos das plataformas. Os dados, porém, são apresentados como indícios de uma possível distribuição diferenciada de pedidos, especialmente pela combinação entre quantidade de destinos, concentração de entregas e resultado financeiro.
Risco no trânsito
A denúncia relaciona esse possível modelo de distribuição ao comportamento dos entregadores no trânsito. A preocupação é que um sistema baseado em desempenho possa estimular jornadas cada vez mais rápidas para manter acesso às rotas consideradas mais rentáveis.
O autor relata ainda ter sofrido um acidente de moto em dezembro de 2023 durante atividade relacionada às entregas e afirma ter percebido mudanças na qualidade das rotas após passar a conduzir com maior cautela.
A discussão levanta uma questão que ultrapassa a remuneração dos trabalhadores: até que ponto as plataformas podem utilizar sistemas automatizados de gestão sem revelar os critérios que interferem diretamente na renda e no comportamento dos entregadores?
A denúncia pede a apuração dos critérios utilizados na distribuição das corridas, além da preservação de registros internos, históricos de entregas, regras de ranqueamento e demais dados capazes de esclarecer como os pedidos são direcionados aos trabalhadores.
Caso a hipótese seja confirmada, o problema poderá envolver não apenas relações de trabalho e transparência algorítmica, mas também segurança viária. Isso porque um modelo que recompensa economicamente a rapidez pode produzir efeitos sobre entregadores, pedestres, passageiros e demais usuários das ruas.
A investigação também poderá indicar se o fenômeno é restrito a uma plataforma ou se faz parte de uma lógica mais ampla do mercado de entregas por aplicativo.





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