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Fim da escala 6×1 reacende esperança por mais tempo para família, saúde e descanso

por | 17 out, 2026

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Depois de quase dez anos trabalhando seis dias por semana, Adrielle Barbosa de Aquino, de 27 anos, conhece bem o peso de ter apenas um dia para dar conta de tudo. Mãe de duas crianças e garçonete em um restaurante no centro do Rio de Janeiro, ela passa os domingos tentando conciliar as necessidades da família, os compromissos pessoais e o descanso que raramente parece suficiente.

“É o dia que eu tenho para resolver minhas coisas. Um dia para resolver mil coisas e a gente fica perdida. Ainda mais quando a gente é mãe. É pesado!”, conta.

A rotina de Adrielle representa a realidade de milhões de brasileiros submetidos à escala 6×1, modelo em que o trabalhador atua por seis dias consecutivos e tem direito a um dia de descanso semanal. Para quem vive nessa jornada, a aprovação da Proposta de Emenda à Constituição (PEC) 221/2019 pelo Senado Federal, na quarta-feira (14), reacendeu a expectativa de ter mais tempo para a família, cuidar da saúde, estudar e descansar.

O problema, para Adrielle, vai além do cansaço. Quando precisa levar os filhos a uma consulta médica ou resolver algo que não pode esperar até domingo, muitas vezes acaba faltando ao trabalho e tendo o salário descontado.

A expectativa de mudança, portanto, significa mais do que um dia livre na agenda: representa a possibilidade de organizar a vida sem precisar escolher entre cuidar dos filhos e preservar a renda.

Um dia de folga para resolver uma semana inteira

A auxiliar administrativa Yasmin Nascimento também trabalha na escala 6×1, em uma clínica. Na correria entre os compromissos e o deslocamento para o trabalho, ela comemora a perspectiva de ter mais tempo disponível.

“É mais um dia de folga com a sua família, mais um dia que a gente pode usar para trabalhar, estudar. Enfim, a folga é da pessoa, ela sabe o que ela vai fazer na folga dela, mas fiquei muito feliz porque essa PEC foi aprovada”, afirma.

Para Yasmin, o descanso adicional poderá ser aproveitado de diferentes maneiras, conforme as necessidades de cada trabalhador. A mudança também abre espaço para atividades que acabam ficando em segundo plano diante de uma rotina profissional intensa.

A ajudante de cozinha Cristiane Wandermuren de Oliveira, de 56 anos, trabalha desde a adolescência com apenas um dia de folga por semana. Depois de anos como auxiliar de serviços gerais, ela hoje enfrenta a mesma dificuldade na cozinha.

“Se eu tivesse mais um dia, eu iria cuidar da minha saúde, curtir mais os meus netos. Hoje tenho pouco tempo para minha família”, lamenta.

A dificuldade de conciliar o trabalho com os cuidados pessoais aparece também quando o assunto é saúde. Como consultas e outros atendimentos costumam ocorrer durante a semana, quem só descansa aos domingos pode precisar negociar horários com o empregador, enfrentar descontos salariais ou adiar o atendimento.

“Só temos o domingo. Como eu vou no domingo ao médico? Médico a gente normalmente vai no meio da semana… Aí o patrão já fica de cara feia se você chega mais tarde”, relata Cristiane.

A ajudante de cozinha Cristiane Wandermuren comenta a aprovação do fim da escala de trabalho 6×1, no centro do Rio de Janeiro – Tomaz Silva/Agência Brasil

Quem deixou a escala 6×1 sente a diferença

Simone Cunha de Oliveira trabalhou durante 15 anos na escala 6×1. A rotina mudou quando passou a trabalhar em uma escola, onde consegue ter dois dias de descanso por semana.

A experiência permitiu que ela percebesse, na prática, a diferença entre ter apenas um dia livre e contar com mais tempo para organizar a própria vida.

“A qualidade de vida é bem melhor, você tem dois de descanso, você pode resolver seus problemas. Só um dia para fazer tudo o que você quer ou precisa, não tem condições”, afirma.

Agora, Simone espera que a irmã, que trabalha como vendedora de automóveis e ainda segue a escala 6×1, também possa ter uma rotina menos exaustiva.

“Eu só posso vê-la no domingo. Espero que a mudança na lei melhore principalmente a saúde das pessoas. As pessoas estão ficando doentes de tanto trabalhar. Que elas tenham o descanso que merecem”, diz.

A aposentada Maria Antônia de Carvalho, de 63 anos, também passou grande parte da vida profissional trabalhando seis dias por semana. Para ela, foi preciso chegar à aposentadoria para conquistar mais tempo para si mesma.

“Eu trabalhei na 6×1 minha vida inteira. Era horrível não ter tempo para nada. Eu não tinha tempo para nada. Não dava mesmo. Quando você pensava que ia descansar, no outro dia você já estava trabalhando de novo. Agora ficou maravilhoso, porque eu tenho mais tempo para mim, para minha família”, relata.

Aposentada Maria Antônia de Carvalho trabalhou a vida inteira com apenas um dia de descanso por semana – Tomaz Silva/Agência Brasil

A aposentada Luciana Machado de Oliveira, de 65 anos, também conhece os efeitos de uma rotina com poucas folgas. Ela passou a trabalhar na escala 5×2 recentemente, mas afirma que precisou ampliar a duração diária do expediente para compensar o descanso aos sábados.

Por isso, apesar de comemorar a perspectiva de mudança, ela demonstra preocupação com a possibilidade de aumento da jornada diária ou redução dos rendimentos.

“Com essa nova escala, tenho receio de que a pessoa tenha que aumentar o horário de trabalho durante a semana, como aconteceu comigo. Também pode ser que o funcionário perca dinheiro trabalhando um dia a menos”, alerta.

O que muda com a proposta aprovada pelo Senado?

A PEC 221/2019 prevê a substituição da escala 6×1 pelo modelo 5×2, com cinco dias de trabalho e dois de descanso, além da redução gradual da jornada semanal de 44 para 40 horas.

Conforme o texto aprovado pelos senadores, as novas regras deverão entrar em vigor 60 dias após a promulgação da emenda constitucional. A primeira etapa prevê a adoção de cinco dias de trabalho e dois de descanso, com redução da jornada máxima de 44 para 42 horas semanais.

Aposentada Luciana Machado comemora o fim da escala de trabalho 6×1 – Tomaz Silva/Agência Brasil

Depois de 12 meses adicionais, a carga horária deverá cair de 42 para 40 horas semanais, mantendo o modelo 5×2. A transição completa, portanto, está prevista para ocorrer em 14 meses após o início da primeira etapa. Trabalhadores terceirizados da administração pública terão regras de transição específicas.

Na fase intermediária, as duas horas semanais que excedem a jornada de 40 horas poderão ser distribuídas pelos cinco dias de trabalho. Caso sejam divididas igualmente, o expediente será de oito horas e 24 minutos por dia.

Concluída a transição, a jornada prevista será de até oito horas diárias e 40 horas semanais, em cinco dias de trabalho, com possibilidade de horas extras conforme as regras aplicáveis.

A proposta também prevê que uma lei complementar poderá estabelecer medidas para reduzir os impactos da mudança sobre microempreendedores individuais, microempresas e empresas de pequeno porte.

Apoio popular e expectativa de mudança

A discussão sobre o fim da escala 6×1 ganhou força diante das reivindicações por melhores condições de trabalho e mais equilíbrio entre vida profissional e pessoal. Uma pesquisa realizada pela Nexus em fevereiro de 2026 apontou que 73% dos brasileiros apoiavam o fim desse modelo.

Para quem vive a rotina de seis dias de trabalho por semana, a mudança representa a expectativa de recuperar um tempo que, muitas vezes, falta para acompanhar o crescimento dos filhos, cuidar da saúde, estudar ou simplesmente descansar.

No caso de Adrielle, o desejo é conseguir atender às necessidades das duas crianças sem precisar comprometer o salário ou concentrar todas as responsabilidades em um único dia.

Entre trabalhadores que ainda enfrentam a escala 6×1 e aqueles que já experimentaram uma rotina com duas folgas semanais, a expectativa é semelhante: ter mais tempo para viver fora do trabalho.

*Com Agência Brasil 

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