João Francisco de Assis Neto, mais conhecido como João Neto, não foi preso por acaso. Não se trata de um episódio isolado de violência doméstica, mas do desfecho previsível de uma trajetória marcada por discursos de ódio, culto à violência e machismo grotesco, embalados em vídeos virais e lives agressivas.
Influenciador digital com milhões de seguidores e advogado de postura abertamente autoritária, João Neto foi detido em flagrante no dia 14 de abril, após agredir sua companheira em Maceió. Agora, está recolhido no presídio Baldomero Cavalcanti, e a máscara de advogado-influencer começa, enfim, a cair.
A vítima, uma jovem de 25 anos, foi socorrida com um corte profundo no queixo após ser empurrada por João Neto dentro do apartamento em que viviam, no bairro da Jatiúca. Testemunhas confirmam que ele tentou esconder a gravidade da agressão, levando a mulher sangrando ao hospital e, depois, fugindo — até ser capturado pela polícia.
O caso, por si, já é revoltante. Mas o que o torna ainda mais grave é o histórico de João Neto e o que ele representa. Em suas redes sociais, o influenciador se apresenta como “ex-policial militar da Bahia”. A PM-BA desmentiu: ele foi expulso do curso de formação de soldados há 15 anos, antes mesmo de se formar, e jamais vestiu farda ou trabalhou nas ruas. Ou seja, o personagem que ele construiu — o “homem da lei”, armado, truculento, inflexível — é uma ficção perigosa, que ele próprio encarnou com gosto e rentabilidade.
Mais perturbadoras, ainda, são as suas declarações públicas. Em entrevistas e vídeos, João Neto afirma com frieza ter matado ao menos 32 pessoas — 28 na Bahia e 4 em Alagoas. Entre elas, um adolescente de 16 anos, executado, segundo ele, com cinco tiros. “Matei um garotão de 16 anos”, confessou ao BNews. Até o momento, não há investigação formal sobre essas alegações — o que em si já constitui uma omissão preocupante por parte das autoridades.
Esse tipo de sujeito — armado, impune, midiático e misógino — tornou-se um produto rentável nas redes. João Neto acumulava milhões de seguidores vendendo uma estética de força bruta e intolerância, que encontrou eco em um Brasil adoecido pelo bolsonarismo e pela banalização da violência. A misoginia, nesse universo, é norma. O desprezo por mulheres, minorias, instituições democráticas e direitos humanos é visto não como crime, mas como “opinião”.
Não surpreende que, após a prisão, setores reacionários tenham tentado transformar a vítima em ré. Circularam insinuações de que a jovem seria uma oportunista, interessada nos bens do agressor. A resposta veio com firmeza da advogada Júlia Nunes, que apresentou o registro da união estável em cartório e provas robustas — vídeos, áudios, mensagens — que atestam a convivência e os abusos sofridos. “Nossa cliente é uma mulher séria. Nunca quis fama. Quer justiça”, declarou.
A OAB classificou o caso como “extremamente grave” e encaminhou o nome de João Neto ao seu Tribunal de Ética e Disciplina. A Justiça de Alagoas negou habeas corpus, reconhecendo a gravidade dos fatos. São respostas necessárias — mas ainda insuficientes diante do que este caso expõe.
João Neto não é um ponto fora da curva. Ele é o produto direto de uma cultura que legitima a violência como solução, que glamouriza o autoritarismo, que transforma agressores em celebridades e silencia vítimas com misoginia. Sua prisão não encerra o problema. Ela apenas o escancara.
É urgente que a sociedade rompa o pacto de normalização com esse tipo de figura. Que se investiguem suas declarações, que se responsabilize quem deu palco à violência, e que se protejam as mulheres — antes que outras sejam feridas, mortas, silenciadas.
Não há neutralidade possível diante do fascismo cotidiano que se apresenta em trajes de influência digital. É hora de desmontar esse palco. E devolver à justiça — e à verdade — o protagonismo que o ódio sequestrou.







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