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Memória nacional: FEB entre monumentos, esquecimentos e a história que não foi contada

por | 2 dez, 2025

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Claudevan Melo com Vicente Pedroso da Cruz Acervo pessoal

Por Geraldo de Majella*

O pesquisador alagoano Claudevan Melo reúne em seu acervo uma seção de grande relevância sobre a participação da Força Expedicionária Brasileira (FEB) na campanha da Itália na Segunda Guerra Mundial. Depoimentos, cartas, hinos, jornais, revistas, livros, músicas e fotografias preservados revelam a dimensão humana e o heroísmo de homens e mulheres — entre eles e elas, dezenas de alagoanos — que entregaram suas vidas para defender a humanidade da fúria nazista de Adolf Hitler e do fascismo de Benito Mussolini nos campos de batalha na Europa.

Imagem: Acervo Claudevan Melo

O Brasil mantém uma dívida histórica com os ex-combatentes da FEB. O país que enviou mais de 25 mil homens e mulheres para combater o nazifascismo na Itália segue dividido entre homenagens protocolares e o esquecimento cotidiano. O resultado é uma memória nacional fragmentada, marcada por algumas iniciativas positivas, porém insuficientes, e por um histórico de descaso que ainda pesa sobre a trajetória dos pracinhas e de suas famílias.

Imagem: Acervo Claudevan Melo

O motivo do envio dos brasileiros e brasileiras foi claro: combater o nazismo e o fascismo. A luta contra essas ideologias mobilizou amplos setores da sociedade, que pressionaram Getúlio Vargas a romper com o Eixo — Alemanha, Itália e Japão. Apesar da resistência inicial do governo, o alinhamento com os Aliados tornou-se inevitável diante da pressão popular e da necessidade estratégica, consolidando a decisão de enviar tropas para a Europa.

De um lado, há o reconhecimento formal. Monumentos, museus militares, medalhas, datas comemorativas e cerimônias anuais são mantidos pelas Forças Armadas. Em algumas cidades italianas, como Montese e Castelnuovo di Vergato, os pracinhas são celebrados com mais entusiasmo do que no próprio Brasil. Unidades militares preservam acervos, realizam eventos e promovem atividades educativas. Esses esforços, embora importantes, permanecem circunscritos ao universo castrense ou a grupos civis dedicados ao tema.

Imagem: Acervo Claudevan Melo

A Constituição de 1988 marcou um ponto de virada. Pela primeira vez, os direitos dos ex-combatentes foram reunidos e garantidos de maneira plena no artigo 53 do ADCT, assegurando pensão especial, assistência médica e prioridade em programas de moradia. Até então, as leis que tratavam da situação dos pracinhas eram dispersas, limitadas e frequentemente descumpridas, deixando muitos veteranos desamparados. O reconhecimento constitucional trouxe dignidade jurídica, mas chegou tarde para milhares que enfrentaram décadas de abandono no pós-guerra.

É justamente nesse passado de descaso que reside o aspecto mais incômodo da memória brasileira. A FEB não ocupa lugar central na construção histórica do país no século XX. A ausência de sua trajetória nos currículos escolares, a falta de políticas públicas de preservação e a instrumentalização política — especialmente durante a ditadura — afastaram o tema do debate público. A imprensa do pós-guerra registrou inúmeras tragédias humanas e familiares: heróis que lutaram na Europa retornaram ao Brasil para enfrentar desemprego, miséria, burocracia e, em muitos casos, terminaram pedindo esmolas nas ruas das grandes cidades.

Imagem: Acervo Claudevan Melo

A relação das próprias Forças Armadas com a FEB permaneceu ambígua. Os ex-combatentes não foram plenamente reintegrados nem valorizados institucionalmente, e parte de sua experiência foi tratada como um episódio cada vez mais distante. O tenente-coronel R-1 Durval Lourenço Pereira diz o seguinte: “Um relato sumário encontra-se na coleção História do Exército Brasileiro, publicada em 1972, por ocasião do sesquicentenário da Independência. Ainda assim, esse material pouco contribui para a formação prática das novas gerações de oficiais”.

Como restam poucos pracinhas, a urgência aumenta. O risco de que suas trajetórias se dissolvam em cerimônias protocolares ou em homenagens episódicas é real. Sem um programa nacional de preservação da memória, o Brasil corre o risco de perder documentos, relatos e acervos, hoje mantidos graças ao esforço isolado de familiares, pesquisadores e civis comprometidos com a história.

Imagem: Acervo Claudevan Melo

O contraste torna-se ainda mais evidente no contexto atual. O fascismo emergiu e voltou a se manifestar nas ruas, nas redes sociais, nos parlamentos, nas casernas — e chegou ao poder com a eleição de Jair Bolsonaro, hoje condenado e preso por crimes como: tentativa de abolição violenta do Estado Democrático de Direito, participação em organização criminosa armada e tentativa de golpe de Estado. Generais de quatro estrelas também foram condenados e presos pelos mesmos crimes. Essa conjuntura expõe como parte das Forças Armadas brasileiras não compreendeu a dimensão histórica da luta travada pela FEB contra o fascismo na década de 1940.

Imagem: Acervo Claudevan Melo

Em 2025 foram celebrados os 80 anos da vitória dos Aliados sobre o nazismo e o fascismo, mas o Brasil ainda não incorporou plenamente o capítulo que seus próprios soldados escreveram naquele conflito. A história permanece restrita a poucas instituições militares, obras acadêmicas dispersas e esforços isolados como o de Claudevan Melo. Assim, a FEB segue entre o aplauso cerimonial e o abandono histórico — e o futuro dessa memória depende de escolhas que o Brasil ainda não fez.

*Historiador e jornalista

Imagem: Acervo Claudevan Melo

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