O Brasil comemora a redução do desmatamento. Os números mais recentes mostram uma tendência positiva, especialmente na Amazônia e no Cerrado. Mas por trás das estatísticas que indicam melhora existe uma realidade menos visível e muito mais profunda: o país continua transformando suas florestas, savanas e ecossistemas naturais em áreas de pastagem em uma velocidade impressionante.
Em 2025, pela primeira vez desde 2019, a área total de vegetação nativa desmatada ficou abaixo de 1 milhão de hectares. Ainda assim, segundo dados do MapBiomas, o Brasil derrubou, em média, 2.698 hectares de vegetação por dia, o equivalente a aproximadamente 17 parques do Ibirapuera desaparecendo diariamente.
O dado revela uma contradição que marca o debate ambiental brasileiro: o desmatamento diminui, mas a pressão sobre os territórios naturais continua intensa.

Desmatamento na floresta Amazônica. Foto: Amazônia Real/Creative Commons
Entre 1985 e 2024, o país perdeu 111,7 milhões de hectares de áreas naturais, uma média de 2,9 milhões de hectares por ano. Nesse mesmo período, a expansão da agropecuária foi o principal vetor dessa transformação.
Os números mostram quem ocupou esse espaço.
As áreas de pastagem cresceram 62,7 milhões de hectares, enquanto a agricultura avançou sobre outros 44 milhões de hectares. Hoje, cerca de 32% do território nacional é ocupado pela agropecuária, enquanto a vegetação nativa cobre 65% do país.
Mais do que um fenômeno ambiental, trata-se de uma mudança estrutural na ocupação do território brasileiro.

Transcerrado, rota de escoamento da produção do Matopiba. Imagem: Governo do Piauí/Divulgação
O Cerrado, bioma frequentemente chamado de “caixa d’água do Brasil”, continua liderando a devastação. Em 2025 foram 540.614 hectares desmatados, uma perda equivalente a 1.482 hectares por dia.
Na Amazônia, embora os índices tenham caído, a destruição ainda impressiona. Foram aproximadamente 792 hectares perdidos diariamente, o equivalente a cerca de cinco árvores derrubadas por segundo.
Segundo o geógrafo e pesquisador Eduardo Carlini, os dados mostram que a expansão das pastagens permanece sendo o principal motor dessa transformação.
“A expansão da agropecuária responde por mais de 97% de toda a perda de vegetação nativa registrada nos últimos sete anos”, afirma.
Mais contundente ainda é o dado referente a 2025.
Segundo o levantamento, 99% da vegetação nativa perdida no Brasil esteve associada ao avanço das áreas de pastagem.
A geografia da devastação também tem endereço definido.
Tocantins, São Paulo, Pernambuco, Paraíba e o Distrito Federal lideram a conversão de áreas naturais em pastagens. Juntos, somam mais de 4 milhões de hectares transformados em áreas para criação de animais entre 2007 e 2024.
Mas é o Tocantins que chama atenção dos pesquisadores.
Inserido na Amazônia Legal e parte da região do Matopiba — considerada a principal fronteira agrícola brasileira do século XXI — o estado acumula mais de 3,3 milhões de hectares de formações naturais convertidos em pastagens.
“Em relação à transição de formação natural para pastagem, o Tocantins desponta de forma muito preocupante”, alerta Carlini.
O avanço do desmatamento, segundo especialistas, não está relacionado apenas à expansão econômica.
Existe outro fator decisivo: a grilagem de terras.
Carlini explica que a derrubada da floresta frequentemente funciona como mecanismo para demonstrar ocupação e tentar legalizar áreas públicas posteriormente.
“Quando vemos esse movimento de desmatamento na Amazônia, muitas vezes estamos vendo um processo de grilagem em curso”, denuncia.
O modelo predominante também produz outros impactos.
A expansão das monoculturas e da pecuária extensiva aumenta o uso de agrotóxicos, pressiona recursos hídricos, reduz a biodiversidade e intensifica conflitos fundiários.
“O Brasil possui uma área equivalente à da Alemanha ocupada pela soja. Isso ajuda a explicar por que somos um dos maiores consumidores de agrotóxicos do mundo”, observa o pesquisador.
Enquanto o agronegócio amplia fronteiras, estudos apontam que os territórios protegidos funcionam como barreiras eficientes contra o desmatamento.
Terras indígenas, assentamentos de reforma agrária, reservas extrativistas e unidades de conservação apresentam índices significativamente menores de destruição ambiental.
A explicação é simples.
Onde há reconhecimento territorial e proteção jurídica, a grilagem encontra mais obstáculos.
“O reconhecimento desses territórios bloqueia o avanço da ocupação ilegal e reduz o desmatamento”, afirma Carlini.
É nesse contexto que cresce o debate sobre modelos alternativos de produção.
Entre eles, a agroecologia aparece como uma das principais apostas de pesquisadores, movimentos sociais e agricultores familiares.
Mais do que um conjunto de técnicas agrícolas, ela é apresentada como uma proposta capaz de combinar produção de alimentos, recuperação ambiental e geração de renda.
No Maranhão, o assentamento Cristina Alves desenvolve uma experiência baseada no Sistema Integração Lavoura-Pecuária-Floresta (ILPF).
Ali, 15 famílias produzem arroz, feijão, mandioca e criam animais em uma mesma área, mantendo árvores e promovendo a recuperação do solo.

Consórcio de cultivos entre arroz, milho, feijão-caupi e mandioca, no assentamento Cristina Alves, Itapecuru Mirim. Foto: Elitiel Guedes
A engenheira agrônoma Regina Costa destaca os benefícios.
“Você pode produzir uma diversidade de cultivos sem agredir o meio ambiente. O sistema permite ciclagem de nutrientes, recuperação do solo e preservação das árvores.”
O pesquisador Joaquim Bezerra Costa, da Embrapa Maranhão, acrescenta outro elemento importante.
“Áreas com árvores podem apresentar diferenças de até dez graus na temperatura ambiente quando comparadas a locais totalmente expostos ao sol.”
Além disso, sistemas integrados ampliam o estoque de carbono e fortalecem a biodiversidade.
No litoral do Paraná, uma experiência semelhante transformou uma antiga área degradada pela pecuária extensiva.
A Comunidade Agroflorestal José Lutzenberger, organizada por famílias assentadas do MST, recuperou áreas de Mata Atlântica, restaurou solos degradados e promoveu o retorno de espécies ameaçadas.

Com técnicas agroecológicas de manejo da terra e uso de sementes crioulas, comunidade conseguiu resgatar espécies nativas. Na foto, a moradora Luzinete. Foto: Maria Francelino
O coordenador Jonas de Souza relata resultados que vão além da produção agrícola.
“Hoje convivemos novamente com espécies como anta, jacutinga e até onça. Recuperamos a biodiversidade e garantimos alimentos saudáveis para as famílias e para as escolas da região.”
Após mais de duas décadas de trabalho, a área tornou-se referência em restauração ambiental.
A experiência reforça uma questão central para o futuro brasileiro.
A disputa em torno do desmatamento não é apenas sobre árvores derrubadas ou hectares preservados.

Comunidade produz alimentos e recupera Mata Atlântica onde antes a pastagem de búfalo causava destruição. Foto: Júlia Rohden
Ela envolve modelos distintos de desenvolvimento.
De um lado, a expansão de monoculturas e pastagens voltadas ao mercado global de commodities.
De outro, sistemas produtivos que buscam conciliar renda, conservação ambiental e segurança alimentar.
Os números mostram que a batalha está longe de terminar.
Embora os índices recentes indiquem avanços importantes no combate ao desmatamento, o legado de quatro décadas de conversão de áreas naturais permanece visível em todo o território nacional.
O Brasil reduziu a velocidade da destruição.
Mas a pergunta que permanece é mais profunda: o país conseguirá interromper a lógica que transforma florestas em pastagens antes que os limites ambientais sejam ultrapassados?
Essa resposta ajudará a definir não apenas o futuro dos biomas brasileiros, mas também o papel do país no enfrentamento da crise climática global.






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