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Eterna voz morena

por | 20 jun, 2026

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Como já era previsível nas nossas antevisões sem bola de cristal, chegaria à hora de usar, com precisão, aquele retrovisor de curto alcance, para visualizar trabalhos que merecem ser retirados de um ineditismo aparente. É assim que temos a reconfortante oportunidade de pôr foco em álbuns que são atemporais, como é o caso do Telma Soares Canta Marcondes Costa, lançado em 2002 por essa alagoana que, em outra época, brilhou nacionalmente e até internacionalmente. Pôr o foco sobre esse trabalho, é dispersar qualquer nuvem de passado, pois, trata-se de algo com teor artístico inquestionável, além de ser uma justa e singela homenagem póstuma a uma grande cantora brasileira que nos deixou acompanhada do silêncio quase unânime dos veículos de comunicação do nosso aquário. Um silêncio paradoxal, que grita e escancara a nossa ignorância e descaso com o que nos pertence de melhor!

Não há como tecer qualquer comentário sobre o disco, sem antes informar (e, pelo visto, o termo apropriado é esse mesmo) quem foi a alagoana Telma Soares e sua importância para a música brasileira, num dos seus períodos mais criativos, históricos e ricos. Telma foi uma das divas de maior visibilidade no cenário musical brasileiro nos anos 60,70 e início dos anos 80. Também conhecida como Cordélia Leão, Telma Soares foi descoberta por Baden Powell e Vinicius de Moraes, em São Paulo, lá pelos idos de 1962. Particularmente, embora eu seja de outra geração, tive o prazer de conhecer pessoalmente essa alagoana de voz marcante e afinadíssima, que brilhou no show Bossa, balanço & balada, ao lado de Roberto Menescal e do bailarino americano Lennie Dale.

Retrospectiva Fonográfica

Fazendo uma rápida retrospectiva, Telma Soares gravou três LPs e o álbum objeto de nossa apreciação. Um deles foi o estupendo Telma Canta Nelson Cavaquinho, de 1966, com participação do próprio Nelson, a produção de Sérgio Porto – o inesquecível cronista e compositor Stanislaw Ponte Preta – e arranjos de ninguém mais ninguém menos do que o grande maestro Radamés Gnatalli. Esse disco foi relançado em 1979, mas nunca foi lançado em CD. Aliás, o texto da contracapa é de Sérgio Porto, ele escreveu: “A idéia de juntar Telma a Nelson Cavaquinho aparentemente é minha, mas, na verdade, nasceu da necessidade de dar à cantora um repertório de sambas dignos de seus excelentes dotes de sambista e, também, da necessidade de fazer justiça ao veterano compositor, até aqui sem ter um único disco seu”.

Antes desse disco antológico, com as músicas do Nelson Cavaquinho, Telma gravou o seu primeiro disco pela CBS em 1963. Eu diria ter sido o seu começo com o pé direito e sob a proteção dos deuses apolíneos. Afinal, teve como produtores musicais, dois dos maiores artistas brasileiros de todos os tempos: Vinicius de Moraes e Marcos Valle. Antes de sua volta ao aquário e de chegarmos à gravação do álbum Telma Soares Canta Marcondes Costa, ela lançou, em 1982, pela RCA, o disco Joana Flor das Alagoas, que teve o Fagner na direção musical e como arranjador, além de participar cantando nas faixas ‘Revertério’ (Nelson Cavaquinho e Guilherme de Brito), ‘A Quem Interessar Possa’ (Mirabô e Bernardo da Silva) e ‘Algodão’ (Luiz Gonzaga e Zé Dantas).

Esse foi apenas um rápido histórico da trajetória fonográfica de Telma Soares, cuja carreira a fez percorrer o Brasil com o Projeto Pixinguinha, por exemplo, gravar um especial para a TV Globo, junto com Vinicius de Moraes, em 1979, e fazer inúmeros shows com Zé Ramalho e João do Vale. Portanto, esses são só alguns dos fatos que povoaram a trajetória de uma grande artista e cantora, que já não está mais entre nós e não merece e nem deve ser esquecida!

Fórmula Perfeita

O nosso disco em pauta, Telma Soares Canta Marcondes Costa, enfoca a obra do compositor alagoano e vai do frevo ao chorinho, passando por sambas, xotes e boleros, até chegar “a um troço esquisito, um tal de rock-xote, hibridismo musical, onde o arranjo bem-humorado dá o toque de classe, revelando o bom humor e tom lírico das letras de Marcondes Costa”, como escreveu Marcos de Farias Costa no encarte do álbum. A fórmula desse disco foi simples, sem mistérios e ao mesmo tempo infalível: arregimentaram alguns dos mais talentosos músicos da nossa cena, nada de arranjos rebuscados, porém, eficientes e na medida exata das canções, uma direção musical competente, de Chico Elpídeo, e as boas canções de um compositor respeitável e de talento inquestionável. Tudo como moldura perfeita e adereços luxuosos para a voz singular e interpretações impecáveis de Telma Soares.

Marcondes Costa era médico psiquiatra e compositor. Como a maioria dos compositores locais, fazia da música um diletantismo criativo e quase sempre belo. Ele assinou todas as composições e abriu parcerias com Chico Elpidio, Tânio Barreto e o poeta Marcos Costa, não por acaso, seu irmão. Imagino como deve ter sido satisfatório, para ele, ainda em vida, ver o admirável resultado desse trabalho sobre a sua obra. Depois da partida de sua intérprete maior, esse álbum ganhou outra dimensão em significado sentimental e histórico. Foi o último registro de uma estrela de voz morena, que será eterna em sua grandeza e brilhará única. Uma supernova resplandecente em essência musical!

No +, MÚSICABOAEMSUAVIDA!!!

Pulo do Gato: “Sim, sou alagoana! Mas o alagoano me desconhece.” (Telma Soares)

Ouça aqui: https://music.youtube.com/watch?v=JwgBukGmwA4

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