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O desafio de Alagoas: investir, transformar e garantir um novo padrão na educação pública – III (final)

por | 23 abr, 2026

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Foto: Agência Alagoas

Em Alagoas, a escola pública já está no centro de uma guerra ideológica. Parlamentares da extrema-direita atuam de forma sistemática na produção de narrativas que buscam deslegitimar o ensino público — sempre recorrendo à disseminação de fake news pela falta de argumentos consistentes.

O alvo imediato dessa ofensiva são as trabalhadoras e os trabalhadores da educação. Sobre eles recaem campanhas que tentam descaracterizar sua função social, enfraquecendo sua autoridade e deslegitimando seu papel na formação de sujeitos críticos. Ao atingir o professor, atinge-se o próprio coração da escola pública.

Esse cenário local se insere em um movimento mais amplo. A educação pública brasileira está no centro de uma disputa política e simbólica que atravessa um de seus momentos mais delicados desde o fim da ditadura militar. O que está em jogo não é apenas o funcionamento da escola, mas o sentido que ela assume na sociedade: se será um espaço de formação cidadã, crítica e universal ou um instrumento subordinado a interesses ideológicos e de mercado.

Essa ofensiva ganhou escala após o processo que resultou no afastamento da presidenta Dilma Rousseff e se intensificou durante o governo Bolsonaro. Nesse período, grupos de extrema-direita ampliaram sua atuação em secretarias municipais e estaduais e tomaram de assalto o Ministério da Educação. A estratégia se apoia na construção sistemática de narrativas que buscam deslegitimar a escola pública e seus profissionais. A disseminação de desinformação nas redes sociais não apenas distorce a realidade, mas corrói a confiança social, ao mesmo tempo em que alimenta o ódio e incita conflitos em uma guerra ideológica e religiosa cujo objetivo é enfraquecer o ensino público.

Nesse mesmo movimento, iniciativas como as promovidas pela produtora de conteúdo Brasil Paralelo investem na revisão da história do Brasil, orientadas por uma visão ideológica da extrema-direita e em confronto com o conhecimento produzido nas universidades e centros de pesquisa. Não se trata apenas de divergência interpretativa, mas de uma tentativa de reescrever a história por meio da manipulação de fatos históricos — um processo que alcança o cotidiano escolar e interfere na produção de materiais, nas percepções e nos debates. Esses conteúdos são utilizados como base para municiar militantes com um discurso político sustentado por informações falsas.

A escola pública carrega uma garantia fundamental que vem sendo diretamente tensionada por esses setores: seu caráter universal e gratuito. Esse princípio, pilar do Estado democrático, passa a ser tratado como obstáculo por correntes que defendem a primazia do mercado e da livre iniciativa como eixo organizador da sociedade.

Paralelamente, observa-se a presença crescente de institutos empresariais que, de maneira discreta e sem grandes embates públicos, influenciam a formulação de políticas educacionais. Por meio de especialistas e acadêmicos contratados, essas organizações introduzem propostas que frequentemente incorporam o empreendedorismo como eixo formativo. No entanto, mais do que um método pedagógico estruturado, o empreendedorismo aparece, em diversos casos, como uma orientação normativa que desloca o centro da educação — de um direito garantido constitucionalmente — para a lógica da responsabilidade individual.

Esse deslocamento tende a reforçar o individualismo, esvaziando a dimensão coletiva da formação humanista que sustenta a escola pública como princípio republicano. Ao mesmo tempo, obscurece as condições sociais concretas em que os estudantes vivem, reduzindo a educação a um processo de adaptação às exigências do mercado, em detrimento de sua função formadora e emancipadora.

Em contraposição, a construção de parcerias com universidades públicas e centros de pesquisa de referência aponta para um caminho distinto: o fortalecimento da educação pública por meio do conhecimento crítico, da produção científica e da cooperação institucional. Trata-se de reafirmar a escola como espaço de reflexão, investigação e compromisso com a realidade social.

A disputa pela educação, portanto, não é secundária. Ela envolve memória, valores e projetos de sociedade. Defender a escola pública, hoje, é também defender sua capacidade de formar sujeitos críticos, em um tempo em que o conhecimento e a própria ideia de verdade se tornaram campos de batalha.

Compreender a educação pública como campo estratégico é reconhecer que nela se confrontam diferentes concepções de sociedade, de conhecimento e de cidadania — e que o seu futuro está diretamente ligado ao projeto de país que se pretende construir.

Alagoas, assim como o Brasil, não afirmará um projeto consistente de desenvolvimento social e democrático sem investir de forma contínua no ensino público e na formação de professores — base estruturante e razão de existir da escola.

*Historiador, jornalista e ex-secretário Executivo de Ciência, Tecnologia e Educação Superior de Alagoas.

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