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Papa Francisco: um pontificado de solidariedade, simplicidade e coragem profética

por | 22 abr, 2025

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Foto: Filippo MONTEFORTE / AFP

Por Geraldo de Majella*

O pontificado de Papa Francisco, iniciado em março de 2013, ficará registrado na história da Igreja Católica como um dos mais ousados e compassivos do nosso tempo. Primeiro papa latino-americano e jesuíta, Jorge Mario Bergoglio assumiu o nome de Francisco inspirado na figura de São Francisco de Assis — símbolo da humildade, da paz e da defesa dos pobres e da natureza. E não por acaso: esses valores definiram o espírito e a prática de seu pontificado desde o primeiro dia.

Francisco adotou um estilo simples e próximo, rompendo com tradições pomposas do Vaticano. Recusou morar nos aposentos papais, optando pela residência de hóspedes, caminhava entre fiéis sem aparato ostensivo de segurança e escolhia palavras acessíveis mesmo ao falar de temas complexos. Essa simplicidade, porém, jamais foi sinônimo de passividade. Ao contrário, o papa se mostrou um líder religioso profundamente engajado com as grandes questões contemporâneas — da pobreza estrutural à destruição ambiental, da corrupção institucional à violência das guerras.

Uma das marcas centrais de seu pontificado foi a incorporação dos pobres, migrantes, indígenas, trabalhadores precarizados e todos os marginalizados pelo capitalismo neoliberal não apenas em seu discurso, mas nas prioridades concretas da Igreja. Ele reforçou que a opção preferencial pelos pobres não é uma teoria, mas uma exigência evangélica, e que a economia que mata deve ser transformada. Esse olhar para os excluídos, aliado a críticas contundentes a sistemas políticos autoritários, fez com que Francisco se tornasse uma figura desconfortável para setores conservadores, tanto dentro quanto fora da Igreja.

No campo interno, enfrentou resistências ao promover reformas na cúria romana, no combate à corrupção e, sobretudo, no enfrentamento dos crimes de abuso sexual cometidos por membros do clero. Embora as respostas nem sempre tenham sido consideradas suficientes por todas as vítimas, sua postura pública de reconhecimento, escuta e busca por justiça marcou um avanço importante em relação ao silêncio e à omissão do passado.

Outro eixo essencial de seu papado foi o compromisso com o meio ambiente. A encíclica Laudato Si’ (2015), um dos documentos mais importantes do pontificado, denunciou a crise ecológica como consequência de um modelo de desenvolvimento destrutivo e defendeu uma ecologia integral, que una o cuidado com a natureza ao cuidado com os pobres. A preocupação ambiental, longe de ser um modismo, foi uma linha permanente até os últimos dias de sua liderança, tornando-se ponto de referência para movimentos ecológicos e comunidades tradicionais em todo o mundo.

A postura de Francisco diante das guerras e conflitos globais também revelou um líder atento ao sofrimento humano. Durante o massacre promovido por Israel na Faixa de Gaza, em 2023 e 2024, o papa não apenas denunciou a violência e clamou pelo fim do genocídio, mas manteve contato direto com lideranças palestinas e com padres que permaneciam em Gaza, sob bombardeios. Sua solidariedade com o povo palestino, em meio à brutalidade da guerra, foi um gesto concreto de compaixão e de coragem política.

No Brasil, também demonstrou atenção sensível às injustiças e perseguições. Durante o governo Bolsonaro, ao tomar conhecimento da campanha de ódio movida contra o padre Júlio Lancellotti — defensor incansável da população em situação de rua —, Francisco telefonou diretamente para o sacerdote. A ligação foi mais do que um gesto pastoral: foi um ato de apoio explícito a quem enfrenta a violência da extrema-direita em nome do Evangelho.

A relação do papa com o Brasil sempre foi marcada por afeto, senso de proximidade e humor. Em diversas ocasiões, expressou carinho especial pelo povo brasileiro. Em tom bem-humorado, chegou a dizer: “O papa é argentino, mas Deus é brasileiro”. Esse senso de irmandade se refletiu também na amizade com o presidente Luiz Inácio Lula da Silva, a quem recebeu em audiência privada. Entre os dois, estabeleceu-se uma relação de respeito e confiança, baseada na convergência de valores em torno da justiça social, do combate à desigualdade e da defesa dos mais pobres.

*Historiador e jornalista

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