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Aniversário de Maceió: festa na orla, população abandonada nos bairros e grotas — qual o motivo para comemorar? 

por | 8 dez, 2025

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Foto: Divulgação

Por Geraldo de Majella*

A comemoração dos 210 anos de Maceió no dia 5 de dezembro, encenada pelo prefeito João Henrique Caldas (JHC), integra uma estratégia contínua de transformar eventos públicos em palco de autopromoção. Os shows musicais, a estética cuidadosamente produzida para as redes sociais e o espetáculo montado na orla criam a impressão de que a cidade vive um ciclo de desenvolvimento e inclusão. A população, especialmente a que frequenta os espaços turísticos, é tratada como plateia — não como destinatária de políticas públicas estruturantes.

No entanto, os indicadores sociais de Maceió mostram estagnação e retrocessos. A educação pública municipal, em particular, piorou a ponto de se tornar um escândalo nacional. Enquanto os gastos com publicidade e grandes eventos aumentam, a rede municipal enfrenta investigações do Ministério Público Estadual, procedimentos da Defensoria Pública e denúncias graves do Sinteal. A gestão JHC acelerou na direção oposta das necessidades reais da população.

Em abril de 2023, a própria Prefeitura anunciou que construiria 73 novas creches distribuídas por toda a cidade. A promessa, no entanto, não se materializou: não há lista pública de obras, licitações concluídas, cronograma de execução ou unidades entregues que comprovem o avanço do projeto. A educação infantil, que exige planejamento e investimento contínuos, foi substituída pela retórica de marketing.

Os números falam por si. Segundo os dados do Censo Escolar 2022, produzidos pelo Inep, Maceió possui 36.982 crianças entre 0 e 3 anos, mas apenas 3.473 estão matriculadas em creches. Na pré-escola, voltada para crianças de 4 e 5 anos, existem 29.108 crianças, das quais somente 6.817 têm matrícula registrada na rede pública ou conveniada. Isso significa que mais de 55 mil crianças em Maceió estão fora da educação infantil — um dos piores cenários entre capitais brasileiras. É impossível falar em inclusão social enquanto a primeira etapa da educação, essencial para o desenvolvimento humano, permanece abandonada.

Além da crise na educação, outros indicadores sociais revelam vulnerabilidade crescente: fragilidade da assistência social em áreas pobres; mobilidade urbana sucateada; déficit habitacional aprofundado pelo desastre da Braskem; e insegurança alimentar sem resposta efetiva da Prefeitura. A cidade real — invisível nos vídeos das redes sociais — sofre com a ausência de políticas públicas consistentes.

A essa deterioração soma-se o endividamento bilionário assumido pela gestão JHC. Já são R$ 1,875 bilhão em empréstimos nacionais contratados com a Caixa Econômica Federal, destinados a obras de mobilidade, drenagem, mercados públicos, habitação e ao programa Avança Maceió — grande parte sem transparência suficiente e sem comprovação de execução proporcional ao volume da dívida. Nos organismos internacionais, os valores solicitados alcançam US$ 190 milhões, sendo US$ 40 milhões já contratados com o Fonplata e US$ 150 milhões encaminhados ao NDB/BRICS em 2025, autorizado pela Câmara Municipal. Esse endividamento compromete o orçamento das próximas décadas, limitando a capacidade futura de investimento em políticas essenciais e até mesmo o pagamento da folha de funcionários.

Para os servidores públicos, o cenário é ainda mais grave. Mais de 20 mil aposentados, pensionistas e trabalhadores da ativa perderam R$ 117 milhões devido às aplicações irresponsáveis do IPREV no Banco Master — instituição que, segundo investigações da Polícia Federal, mantém vínculos com o PCC. O dinheiro limpo das aposentadorias foi misturado com o dinheiro do tráfico de drogas no Banco Master. A operação, realizada durante a gestão JHC, produziu o maior rombo previdenciário da história de Maceió, ameaçando aposentadorias presentes e futuras.

Diante desse quadro, a festa dos 210 anos de Maceió mostra-se um contraste doloroso. A cidade apresentada nos palcos e vídeos da Prefeitura não corresponde à realidade das crianças sem creche, das escolas precarizadas, das famílias vulneráveis, dos servidores lesados pelo IPREV/JHC e de uma população que arcará com o peso do endividamento pelos próximos anos. O brilho da orla não ilumina as desigualdades que crescem nos bairros, nos conjuntos mais pobres e nas grotas. O aniversário da capital deveria celebrar conquistas — não ocultar o abandono das políticas públicas essenciais.

*Historiador e jornalista

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